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O EXCESSO DE 'COVERS' DERRUBA ATÉ AS MELHORES MÚSICAS

TIM MAIA TEM UMA SÉRIE DE CLÁSSICOS QUE ESTAMOS CANSADOS DE OUVIR, NÃO POR CULPA DO SAUDOSO ARTISTA.

Dias atrás, o jornalista Luiz Antônio Mello havia escrito um texto revelando estar enjoado de ouvir os maiores clássicos dos Beatles. Ele descreveu que, um dia, ele entrou em um táxi que tocava uma emissora de rádio, e sentiu um mal-estar quando o repertório musical rolou "Let It Be", um dos últimos sucessos do quarteto de Liverpool.

Evidentemente o mal-estar não corresponde ao intérprete em si, mas que as músicas, banalizadas e futilizadas por uma série de apropriações fora do contexto, incluindo regravações sucessivas e sobretudo feitas por canatrões e aventureiros musicais - mais preocupados em dar alô para a plateia do que fazer algo que preste - , perdem sua força expressiva e se tornam cansativas.

O que LAM sentiu vale para todo tipo de música. Ainda embrulha no estômago o "tributo" caça-níqueis que os canastrões Chitãozinho & Xororó fizeram com Tom Jobim, que soa o mesmo que pisar no cadáver do compositor carioca, com as botas sujas de lodo latifundiário.

Temos que ser sinceros e existe muita música boa e respeitável que não aguentamos mais ouvir, que têm até seu valor respeitável, mas cuja exploração banalizadora e fútil nos faz ficarmos enjoados até das melhores músicas, que perdem sua aura original com tantas regravações ou mesmo divulgações fora do contexto.

O fenômeno das boas músicas que cansaram envolve até execuções em rádios de mérito e gosto duvidoso. Ninguém aguentaria ouvir Velvet Underground na 89 FM, se cansaria fácil ao ter que ouvir "Femme Fatale" e "Waiting For My Man", por exemplo, anunciadas por um locutor que mais parece um Celso Portiolli mais psicótico, dando uma grande vontade de esquecer a admirável banda novaiorquina.

Na música brasileira, ilustrativo é uma série de clássicos da MPB que, nessa onda inerminável de "homenagens" que praticamente paralisam a produção de novos clássicos, se tornaram cansativos de se ouvir, Tim Maia, Elis Regina, Tom Jobim, e Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, etc.

Ninguém mais aguenta ouvir "Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)", com tantas reinterpretações oportunistas, sobretudo de cantores de axé-music ou calouros de riélites musicais, que fingem serem fãs de Tim Maia para camuflar sua incapacidade de fazer alguma música que seja audível. Assim como não dá mais para ouvir Elis Regina cantando "Como Nossos Pais".

Mesmo canastrões veteranos como Chitãozinho & Xororó e Alexandre Pires contribuem para o massacre de clássicos da MPB. Sem falar de Ivete Sangalo. Só os quatro (a dupla e os dois cantores) contribuem para o deslizamento de terra que soterra o melhor da MPB que nossos ouvidos deixaram de ter vontade de apreciar.

Tudo acaba enjoando, porque as regravações e reinterpretações, ou em execuções midiáticas banais - Domingão do Faustão ou Domingo Legal recebendo Djavan, ou a 89 FM e Rádio Cidade tocando Foo Fighters - "matam" o prazer de ouvir boa música, mais do que qualquer boicote que se dava à música de qualidade, em outros tempos ou mesmo em espaços atuais.

Isso porque o contexto original é eliminado. E era isso que Walter Benjamin queria dizer sobre a reprodutibilidade da obra de arte e que as pessoas não compreenderam. Por isso muitas belas canções se tornam insuportáveis não por terem virado ruins, mas porque perdeu aquela energia própria delas, com a banalização de suas execuções, sobretudo por intérpretes sem talento e sem vocação.

As execuções e os tributos oportunistas acabam "matando" a boa música, bem mais do que o desdém dado por parte da mídia ao que não é sucesso nas paradas.

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