Pular para o conteúdo principal

CASA BAGUNÇADA SERÁ, ASSIM DESSE JEITO, UM PALACETE?


Me preocupa essa obsessão do Brasil em ser "potência mundial" e "protagonista internacional", dentro desse clima "tudo ao mesmo tempo agora" do terceiro mandato de Lula. Um sonho dourado daqueles que querem demais, das bolhas sociais que mantém o monopólio da opinião pública, de uma elite bem nascida que quer tudo para si, até mesmo o controle do mundo, da humanidade.

Ontem, desde o desejo de bolsonaristas de boicotar o biscoito de chocolate Bis, por causa do patrocínio ao Felipe Neto, ao falecimento da influenciadora bolsonarista Karol Eller após a "cura gay", passando pela questão de que os brasileiros deveriam ou não pagar pelo avião a lhes transportar de Israel para nosso país, depois que três compatriotas foram encontrados mortos em Gaza, noto que a situação relativa ao Brasil está muito complexa.

Imagine uma casa desarrumada que muitos julgam estar pronta para receber visitas, ou para se ostentar para a vizinhança afora. Vejo o cenário de Lula 3.0 um sonho louco que nada tem de realista, pois tudo isso foi artificialmente arranjado, mediante acordos de conveniências e manobras nem sempre convenientes, como a "democracia de cabresto" centralizada num único candidato.

Nada foi arrumado, e a nossa elite "democrática", agindo como criança mimada, não quer arrumar a casa e quer ir para a festa e receber a visita dos amigos. Gente desarrumada indo para festas fora de casa, casa desarrumada recebendo pessoas de fora de casa.

É tudo muito louco, muito insano, perigosamente insano. Não se trata de um país preparado para ser desenvolvido, pois, culturalmente, o Brasil está um traste. Se o que se considera "vanguarda" na nossa música são Michael Sullivan, É O Tchan, Gretchen e as "Evidências" na versão de Chitãozinho & Xororó, então estamos mais à beira do precipício do que no caminho da glória.

Sei que muita gente vai achar que primeiro um Brasil vira "país desenvolvido" de qualquer forma e depois se conversa. Se coloca um calouro que mal fez o ENEM para fazer uma faculdade para receber o diploma de Doutorado e depois lhe ensina uns macetes para as monografias necessárias.

É tudo ansiedade, fantasia, histeria, espetáculo. O povo brasileiro todo está nessa? O povo pobre, o proletariado, o campesinato, os sem-teto, os desempregados, estão nessa? Não. Fora da bolha da esquerda festiva e dos "democráticos isentos" festivos, ninguém quer necessariamente que o Brasil vire potência mundial. O pessoal quer comida, contas em dia, casa para morar e dormir cedo.

Desconfio muito desse Brasil do lulismo festivo e espetaculoso, pois ele é mais voltado para a multidão hedonista que passa as madrugadas tomando cerveja e rindo alto de suas piadas sem graça do que para o trabalhador que tem que dormir e acordar cedo para trabalhar.

As pessoas, pelo menos da chamada "elite esclarecida" (que, na prática, é bem menos esclarecida do que se pensa; só é socialmente bem articulada), estão impacientes. Falam que é por causa dos danos do bolsonarismo. Mas isso é pura hipocrisia.

Afinal, quando Bolsonaro estava no poder, ninguém se empenhou em lutar para tirá-lo do Governo Federal. A "impaciência" de hoje era zen de tão paciente, com os movimentos "Fora Bolsonaro" marcando protestos de 45 em 45 dias, na ilusão de que bastava a memecracia para desgastar o então presidente, que não se reelegeu mas obteve um segundo lugar vantajoso nas urnas.

Os erros não são percebidos no calor do momento. Eles levam tempo para serem reconhecidos. Sonhar demais e estar nas nuvens é prazeroso, para quem vive de utopia, e quantos argumentos são usados para justificar as fantasias de hoje. 

O querer demais sem freio, a fortuna fácil para financiar o supérfluo, as festas com muita cerveja, as extravagâncias, o luxo, as viagens desnecessárias que a teimosia faz urgentes, os canis improvisados até em apartamentos studio (de tamanho menor) enquanto pessoas sem moradia ficam sem assistência, sem que algum movimento social lhes arrume residências para quem não tem onde morar ou mora em casas precárias nas favelas. 

Aliás, é um horror haver mais um hino para o "ufanismo das favelas", alimentando o mito da "pobreza linda", da hipócrita obsessão da elite do bom atraso em tratar a pobreza como "coisa linda de se ver", desde que não seja esta elite que viva o cotidiano das "periferias", dessa pobreza de novela ou comédia, padrão "Vai Que Cola". O tal hino é "A Favela Venceu", dueto do funqueiro MC Cabelinho com Djonga, um dos rappers comerciais da atualidade.

É preocupante ver que o senso comum está monopolizado, pelo menos nas redes sociais, por uma classe cheia da grana metida a "gente simples", que odeia o senso crítico porque sabe que isso expõe a hipocrisia da elite do bom atraso, agora convertida a "boazinha", a "naturalmente esquerdista" depois que seus antepassados deixaram marcas históricas de trevosos passados escravocratas, corruptos e golpistas.

Quem poderia oferecer um contraponto na Internet não usa redes sociais. Por falta de dinheiro para comprar um celular moderno e usar redes sociais, e por falta de tempo para ficar usando o celular. É um pessoal que, se não trabalha, procura trabalho, ou não tem moradia, ou não tem celular, nem mesmo o mais furreco. O Brasil fora da bolha, fora das noitadas, das festas, da "pobreza de comédia", do grand monde convertido a "bacanal dos bacanas", até respira, mas não tem lugar de expressão.

Um Brasil fora da festa lulista e fora do exército bolsonarista. Que não estava no Festival do Futuro nem dos protestos de Oito de Janeiro. Este Brasil hoje não aparece, mas vai aparecer, e por enquanto está nos porões dessa casa desarrumada que a "boa" sociedade julga "pronta para receber o mundo". 

Neste contexto bagunçado que mistura o bolsonarismo revoltado com o lulismo sonhador, emergirão pessoas fora desses dois polos, que não caem na ilusão do "multipolar" lulista, eufemismo para um bloco de países emergentes que tem no presidente Lula o seu Sol, o Sistema Lular. Pois de que adianta falar em "mundo multipolar" se isso não passa de uma bipolaridade em que, de um lado, tem o G-7 e, de outro, o mundo emergente cooptado pelas aventuras internacionalistas de Lula?

Casa bagunçada não vai virar um palacete. Nosso país ainda não está pronto para mandar no mundo. A "boa" sociedade deveria sair do pedestal de sua festa mundana e globalitária e passar a trabalhar para a verdadeira reconstrução do Brasil, removendo os entulhos culturais de cerca de 60 anos, boa parte deles erroneamente tratados como relíquias nostálgicas. Só no Brasil é que o lixo do passado deixa saudade nas pessoas. Isso não é reconstruir um país.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LITERATURA DESCARTÁVEL

Nas minhas andanças cotidianas, vejo que as pessoas estão se livrando de obras que haviam sido best sellers  neste mercado analgésico que é o da comercialização de livros. Dias atrás, em Niterói, numa dessas caixas de doação de livros nos pontos de ônibus, vi muitos livros da série 50 Tons de Cinza , espécie de erotismo milenial cheio de suspense. No último dia 10, foi a vez de uma sacola deixado pela vizinhança para o recolhimento de descartáveis. Como era domingo, a sacola eu tive que pegar para botar embaixo no prédio, porque é proibido deixar material reciclável na escadaria nesse dia da semana. Por curiosidade, eu vi o conteúdo. Livros juvenis banais, desses que o calor do momento faz badalação intensa, mas o tempo condena ao esquecimento mais fúnebre, e o Floresta Encantada , "clássico" dos "livros para colorir". Tudo literatura analgésica, em que palavras como Conhecimento e Saber são praticamente inexistentes. São muitos vampiros estudantis, muitos cavaleiro...

O POPULARESCO MILIONÁRIO E A MPB PAUPERIZADA

O "HUMILDE" ÍDOLO BREGA-POPULARESCO JOÃO GOMES, CANTOR DE PISEIRO, É DONO DE IMÓVEIS COM VALOR SUPERIOR A R$ 5 MILHÕES. A campanha do “combate ao preconceito” queria nos fazer crer que a bregalização era a “cultura do povo pobre por excelência” e que seus ídolos eram coitadinhos em busca de um lugar ao Sol Tão Bonito da Música Popular Brasileira. Narrativas chorosas, que chegaram a contaminar a mídia esquerdista, lutavam para que o jabaculê musical de hoje se tornasse o folclore de amanhã. Mas a realidade mostra que os verdadeiros pobres e discriminados não estão na música popularesca facilmente tocada nas rádios, mas na MPB acusada de ser "purista", "elitista" e "higienista". Dois fatos recentes demonstram isso. Foi revelado que o cantor de piseiro João Gomes, que tentou se vender como pretensa “renovação” da MPB, apesar de sua gritante mediocridade artística, tem um patrimônio milionário com várias propriedades. Com apenas 23 anos, é dono de um...

A HIPOCRISIA DA BURGUESIA ILUSTRADA QUANTO AOS EMPREGOS PRECÁRIOS

OS LULISTAS NÃO PERCEBEM QUE O QUE CRESCEU EM EMPREGO FOI O TRABALHO PRECÁRIO, COMO O DOS TRABALHADORES DE APLICATIVOS, COM REMUNERAÇÃO PEQUENA E INCERTA? O negacionismo factual não gostou das críticas que se fez ao governo Lula sobre a priorização do trabalho precário nas políticas de emprego, enquanto o presidente fazia turnê pelo planeta deixando até o combate à fome para depois. Temendo ficar sem o protagonismo mundial que permitiria à burguesia ilustrada brasileira ter o mundo a seus pés, o negacionista factual, o porta-voz da elite do bom atraso, lutou para boicotar textos que desmascaram os “recordes históricos do Efeito Lula”, como no caso dos empregos que pagam um ou dois salários mínimos. Apesar de sua postura “democrática e de esquerda” e de sua “defesa da liberdade humana com responsabilidade” - embora se vá entender que essa defesa “responsável” inclui atos como fumar cigarros e jogar comida no lixo - , de vez em quando explode nos corações do negacionista factual o velho ...

AS RAZÕES PARA O DESGASTE DE LULA

Nos últimos dias, Lula está preocupado com seu desgaste político, marcado pela aparente ascensão de Flávio Bolsonaro nas supostas pesquisas de opinião. Perdido, Lula tenta correr contra o tempo lançando medidas e discutindo meios de reforçar a propaganda de seu governo. Lula, em entrevista há poucos dias com a mídia solidária - Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e Fórum - , afirmou, exaltando o terceiro mandato, que o quarto será "melhor que o terceiro" e que o Brasil dará "um salto estrutural" no próximo mandato, com a "transformação do país em uma nação desenvolvida, apoiada em crescimento econômico, inclusão social e fortalecimento institucional". É sonhar demais para um país que social e culturalmente está bastante deteriorado. O terceiro mandato de Lula tornou-se o mais medíocre dos três. Ambicioso, mas pouco produtivo. Com muita grandiloquência e poucas e mornas realizações. Muita festa e pouca reconstrução. Colheita sem plantação. Muito falatório...

COMO O “JORNALISMO DE ESCRITÓRIO” DESQUALIFICOU NOSSA IMPRENSA

O JORNALISMO DE ESCRITÓRIO ATUA COMO UMA EXTENSÃO MAIS OU MENOS FLEXÍVEL DA GRANDE MÍDIA. Um dos fenômenos que se ascenderam no período de Michel Temer e que não foram superados é o “jornalismo de escritório”, versão mais radical da “liberdade de empresa” que definiu os padrões da mídia venal. Um jornalismo asséptico, insosso, inodoro, supostamente neutro mas com algumas posturas “críticas” que nem de longe deixam de comprometer o status quo. Ele se vende como “o jornalismo de novos tempos”, tido como “mais responsável” e que trata a notícia como um “produto”. Interage com a overdose de informação das rádios all news, que derrubaram todas as expectativas libertadoras do passado recente, passando a ser apenas versões remix dos telejornais da TV, sendo um jornalismo que, independente da qualidade, vale mais pela excessiva quantidade de notícias que impede o ouvinte de parar para pensar. O “jornalismo de escritório” tornou-se o sonho realizado dos barões da mídia desde os tempos do AI-5, ...

LULA DEIXA A MÁSCARA CAIR SOBRE OS "RECORDES HISTÓRICOS" DO EMPREGO

A NARRATIVA DO GOVERNO LULA SEGUE HOJE RIGOROSAMENTE O MESMO DISCURSO DE "CRESCIMENTO DE EMPREGO" QUE O GOVERNO MICHEL TEMER LANÇOU HÁ CERCA DE DEZ ANOS. Uma notícia divulgada pelo portal Brasil 247 acabou soando como um "fogo amigo" no governo Lula. A notícia de que a maior parte do crescimento do emprego, definido como "recorde histórico" e classificado como "Efeito Lula", se deve a empregos com um ou dois salários mínimos. O resultado, segundo o levantamento, ocorre desde 2023, primeiro ano do terceiro mandato do petista, candidato à reeleição. Só 295 mil trabalhadores foram contratados, no período, recebendo apenas um salário mínimo. A notícia foi comemorada pela mídia esquerdista, mas traz um aspecto bastante sombrio. O de que a maioria das contratações, mesmo sob a estrutura de trabalho formal sob as normas da CLT, corresponde ao trabalho precário, em funções como operador de telemarketing  e trabalhadores de aplicativos, funções conhecida...

COPA DO MUNDO E A PAIXÃO TÓXICA PELO FUTEBOL NO BRASIL

O bordão, de valor bastante duvidoso, que atribui o futebol como “única alegria do povo brasileiro”, tem um quê de ressentimento, de baixa autoestima disfarçada de orgulho e de altivez. E diz muito dessas emoções confusas, meio presunçosas, meio dotadas de falsa modéstia, que contamina a mente do brasileiro médio, perdido entre ser maioral e ser coitado. Diante da proximidade da Copa do Mundo, o fanatismo pelo futebol, que costuma ser regionalizado, se torna nacional. E aí vemos surgirem “torcedores de ocasião” a “vestir a camisa de CBF”, não mais por histeria bolsonarista, mas por outra histeria, a futebolística. No Rio de Janeiro, o futebol vira até pauta para assédio moral. E não é pela possibilidade de um patrão torcer pelo time diferente do seu empregado, pois aí eles acham até saudável fingir briguinha por causa do time de cada um. O drama cai contra quem não curte futebol, que acaba sendo vítima de desdém e até do risco de perder o emprego. Mas no resto do Brasil, se esse risco ...

O PREOCUPANTE PRECONCEITO SOCIAL NAS CONTRATAÇÕES DE EMPREGO

As empresas estão construindo suas graves crises e não percebem. Vivendo o imediatismo do prestígio, da visibilidade e da busca pelo lucro fácil e rápido, as empresas cometem um erro gravíssimo ao rejeitar currículos e a contratar gente com mais visibilidade do que talento, criando riscos de decadência a médio prazo. O escândalo do Banco Master não nasce da noite para o dia. Durante anos, o banco controlado pelo hoje presidiário Daniel Vorcaro viveu uma rotina harmoniosa de lucros abusivos, dentro de um clima de paz profissional que parecia eterno, até denúncias virem à tona gerando incidentes como os que vimos nos noticiários. O mercado de trabalho não consegue perceber que talento vem da alma e não de uma aparência atraente. Não vem de influenciadores capazes de gesticular e falar coloquialmente, mas isso é insuficiente para assumir tarefas técnicas como as de Analista de Redes Sociais, função que, desgastada, mudou seu nome para Analista de Marketing Digital. Não receber currículos ...

O FALSO ENGAJAMENTO DO POP COMERCIAL E DO BREGA-POPULARESCO

ACREDITE SE QUISER, MAS ULTIMAMENTE MUITA GENTE PENSA QUE "LUA DE CRISTAL", SUCESSO DE XUXA MENEGHEL, É UMA "CANÇÃO DE PROTESTO". O pop comercial de hoje vive seu complexo de superioridade. Seus fãs, dotados de muita arrogância, chegam a fazer ataques contra a música de qualidade. Acham que a chamada “música de sucesso” é superior só porque atrai um grande público jovem e que se sustenta pela forte presença nas redes sociais e nas páginas de celebridades (e subcelebridades). Embora se baseie estruturalmente no pop dançante dos anos 1980 e 1990, esse pop comercial, nos últimos anos, tenta iludir a opinião pública com um falso engajamento e uma falsa militância que fez até as pessoas, no Brasil, acreditarem que sucessos da axé-music e do pop infantil brasileiros fossem “canções de protesto”. E muita gente boa, de nossa crítica musical, embarca nessa armadilha. Do Bad Bunny ao BTS, de Xuxa Meneghel ao grupo As Meninas, a atribuição de falso engajamento sociopolítico e ...

AS ESQUERDAS MÉDIAS E A GOURMETIZAÇÃO DA MÚSICA BREGA-POPULARESCA

CENA DO MINIDOCUMENTÁRIO  MEXEU COMIGO , SOBRE A CENA DO ARROCHA EM SERGIPE. Diferente da porralouquice de gente como o professor baiano Milton Moura e seus “pagodes impertinentes” e do “filho da Folha” Pedro Alexandre Sanches brincar de ser “bom esquerdista”, ressurge um movimento de intelectuais e jornalistas que querem fazer renascer o “combate ao preconceito” da bregalização, agora sob o verniz da “objetividade”. A postura generalizada do “capitalismo musical” do músico baiano Rodrigo Lamore, colunista do Brasil 247, e as leituras do colunista Augusto Diniz da Carta Capital, numa linha parecida com a de Mauro Ferreira no portal G1, refletem essa onda de ‘“imparcialidade” na análise sobre música brasileira. No caso do Rodrigo Lamore, ele tenta generalizar a condição de “mercadoria” da música, como se não pudesse haver a função social, artística e cultural na atividade musical. Parece papo de ressentido. Se nomes popularescos, só para citar os da axé-music (o ensaísta também é mú...