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ENTRADA DO INSTITUTO DO CÂNCER É POVOADA DE PACIENTES EM POTENCIAL


Um dado curioso quando se passa pelo entorno da Avenida Doutor Arnaldo, aqui em São Paulo, é que, na entrada do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), há muita gente parada, fumando. Gente que nem está ligada com os cuidados da saúde, já acostumada com o entretenimento vazio de inalar uma fumaça tóxica.

Neste país de positividade tóxica, nem podemos falar sequer dos malefícios do cigarro. No contexto de hoje, isso é assustador, pois neste caso a ojeriza a questionamentos faz com que a patota fumante do lado "democrático-esquerdista" tenha uma compreensão do fumo comparável ao do guru bolsonarista, o falecido Olavo de Carvalho.

Vivemos um Brasil viciado, medíocre, precarizado, e meus textos questionadores estão repercutindo mal. Estou sendo chato? Não. A realidade é que é chata. A realidade é que dá um sossego relativo para aqueles que ganham demais e ganham à toa jogarem comida fora depois de umas garfadas no restaurante, botar aparelho de TV em tudo quanto é cômodo na casa e fazer festinhas todo fim de semana, com muita cerveja e o pior da canção brega-popularesca.

A realidade é que aborrece, não são meus textos. Como jornalista, preciso interpretar os fatos, não posso fingir e afirmar o que não é. É muito confortável, agora, eu dizer que o presidente dos EUA, Joe Biden, é um símbolo do guevarismo bolivariano das Américas, se eu escrever essa mentira eu vou lacrar geral na Internet.

A burrice é tanta que, numa pesquisa, eu vi o elenco do filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, famoso drama sertanejo baseado no livro de Graciliano Ramos, e aí o Google mostra a foto da conhecida atriz Maria Ribeiro no elenco. Só que o filme é de 1963, a "nossa" Maria Ribeiro nasceu em 1975 e no elenco a Maria Ribeiro que estava presente não tem a ver coisa alguma com a xará mais famosa.

Mas nem isso posso relatar. Fico imaginando que vivemos no período do AI-SIMco, pois a paranoia de uma parcela de brasileiros os faz culpar o senso crítico pela ascensão de Sérgio Moro e Jair Bolsonaro. Debate, só com muita flanela nas mãos, para passar pano em problema grave. O Brasil está em reconstrução, mas um bando de traumatizados quer que se deixe tudo para lá e vá festejar a festa da libertinagem abusiva e sem freio.

E aí vemos a ditadura do hedonismo, motor da positividade tóxica, que faz do Brasil uma terra do "vale tudo", movido pela arrogância, pela intransigência e pela intolerância ao senso crítico. Tudo tem que estar bem e temos que acreditar nisso e achar que nosso país, mesmo precarizado, se torne não só país desenvolvido, mas também a potência mais poderosa do mundo. Aí é querer demais, mas vivemos hoje a supremacia dos que querem demais na vida.

E aí os fumantes que se acham pessoas legais creem que nunca terão câncer. E isso quando fazem "plantão" no Instituto do Câncer, sem saber que são potenciais pacientes da quimioterapia, que não é barata e entra pesada no organismo. Essas pessoas ficam se exibindo fumando um cigarro, ou às vezes desfilando com o cigarro entre os dedos. E não se pode dizer que isso faz mal porque senão não lacra. Depois esse pessoal todo vai falar mal do Olavo de Carvalho.

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