A burguesia está apoiando Lula e as classes populares se sentem traídas pelo presidente. Essa constatação soa estranha para muita gente que só vê a realidade pela aparência, mas a realidade é complexa e, se observarmos a rede de relações e conveniências que envolveram o petista desde 2022, veremos que essa situação, dolorosa para muitos, é indiscutivelmente verdadeira.
Como jornalista, não posso me contentar com o que se diz ou com o que parece. Não posso aceitar narrativas que apresentam contradições. Daí que, no caso de Lula, pude observar problemas na sua volta ao poder, o que me fez, como jornalista, mais questionador quanto ao petista e, como cidadão, um eleitor a menos.
Recentemente, Lula admitiu que o valor do novo salário mínimo, o de R$1.621, é baixo. Mas é sempre aquela coisa, Lula opinando quando ele se torna incapaz de agir. É um comportamento de um pelego, que não consegue enfrentar de forma corajosa o patronato e atua com neutralidade quando deveria defender as classes populares com maior firmeza.
De que adianta Lula parecer enérgico quando está nas reuniões de cúpula internacionais se ele demora até para dar fim à escala 6x1 do trabalho? Não podemos nos esquecer de sua atuação dúbia quanto à reforma trabalhista do governo Michel Temer, quando o petista decidiu pela revisão e não pela revogação, dando a crer que o “pacote de maldades” do temeroso governante era “aproveitável”.
E os tais “recordes históricos” do “Efeito Lula”, com a mesma narrativa de crescimento de emprego do governo Temer, com trabalho precário apenas adaptado ao que restou das normas da CLT? E isso sem querer problemas trabalhistas sejam resolvidos, como o trabalho 100% comissionado, cuja remuneração é tão incerta quanto uma loteria.
Enfatizando demais a política externa, sob o preço de expor o Brasil perigosamente para o mundo, Lula pode não ter perdido todo o apoio das classes populares, mas ele se tornou tão baixo que uma situação engraçada se vou surgir.
A burguesia está pedindo para o povo pobre reeleger Lula pelo argumento do medo. “Vote em Lula, somente nele, senão Bolsonaro volta”. É uma espécie de voto de cabresto politicamente correto. Uma “psicologia do medo” para promover a “democracia de um homem só”.
É certo que Lula e a burguesia tem divergências estruturais, mas a comunhão de interesses entre ambos é fato, e quem é que não está gostando é o povo pobre da vida real, que espera demais para obter conquistas que, quando chegam, estão aquém do desejado.
A simbologia de Lula como alguém associado aos excluídos sociais é algo que se dissolve na realidade e hoje reside meramente no âmbito da propaganda. Enquanto isso, a burguesia cada vez mais se identifica com o petista, por motivos que podem ser pragmáticos, mas que se tornam cada vez mais efetivos.
A logística da burguesia para apoiar Lula e torcer pela sua reeleição é está: as elites passam imagem de “generosa” e “humanista”, obtém respaldo nas redes sociais, além do fato de o petista ser mão aberta para iniciativas de caráter sociocultural.
Somente Lula tem disposição para investir nessas iniciativas, através das leis de incentivo fiscal. Vamos combinar que a direita moderada é mão fechada até para si mesma, não vai gastar dinheiro para coisas “desnecessárias” como um “baile funk” de riquinhos, por exemplo.
Além disso, a burguesia ilustrada, braço festivo e politicamente correto da burguesia, precisa parecer sempre “tudo de bom” e o apoio a Lula torna-se um meio para a elite bronzeada obter vantagens sociais, atrair prestígio e até manter seus privilégios de classe.
É claro que se trata de uma burguesia heterodoxa, que por sinal põe na conta da burguesia ortodoxa os males históricos do Brasil. Mas se trata de um artifício pelo qual a burguesia busca sobreviver se repaginando, tentando renegar o passado e fingindo ser diferente de si mesma. Daí que um Lula tornado pelego é a pessoa certa para a burguesia evitar a sua ruína.
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