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“JORNALISMO DA OTAN” NÃO QUER QUE VOCÊ SAIBA A VERDADE SOBRE AS ARMADILHAS CULTURAIS

A APARENTE ALEGRIA DO PÚBLICO DE MÚSICA POPULARESCA ESCONDE AS RELAÇÕES DE PODER QUE ESTÃO POR TRÁS DESSE DIVERTIMENTO "POPULAR DEMAIS'.

“Culturalismo” sem cultura, ou “cultura” como um eufemismo para propagandismo político do qual o poder dominante manipula as multidões através de técnicas traiçoeiras de marketing e pedagogia. É a perspectiva do “jornalismo da OTAN” com base no processo político de dominação das massas entre a crise de 1929 e o começo da Guerra Fria.

Só que pensar as “guerras culturais” sobre esse prisma soa raso, superficial e preguiçoso, quando no Brasil as piores guerras nesse sentido estão no âmbito do entretenimento e da cultura. A bregalização da cultura popular, respaldada por um poderoso lobby de produtores de TV, críticos musicais e empresas diversas envolvidas em vários setores do lazer humano, é um claro exemplo.

Até o reino mineral, parafraseando uma das metáforas do saudoso jornalista Mino Carta, sabe que a bregalização não ocorre em função de iniciativas comunitárias de rebelião popular, mas de um esquema de entretenimento cujo principal canal divulgador são emissoras de rádio que, apesar de extremamente populares, são controladas por ricas e poderosas oligarquias, muitas com notável domínio político regional.

As armadilhas culturais envolvem sobretudo os processos de domesticação do povo pobre e das técnicas de enfraquecimento das lutas populares. As narrativas a serem feitas são muito sutis e dão até a impressão contrária para quem está pouco informado das coisas. 

O mero divertimento popularesco, que faz multidões se dirigirem, com a comodidade de um gado bovino, para o galpão onde se apresenta o ídolo musical do momento, é narrado pela intelectualidade pró-brega como se fosse uma suposta rebelião popular. O simples ritual de cantar os sucessos em coro é tido como um ato de guerrilha contra hipotéticos padrões de bom gosto, supostamente desafiados pela estética do povo pobre.

As narrativas são trazidas por intelectuais festejados, treinados pelo consórcio Folha-USP-PSDB nos anos 1990, como um think tank com discurso pós-tropicalista. Essa elite de intelectuais é “canonizada” por seus colegas, na defesa cúmplice da bregalização. É antropólogo elogiando cineasta, é cineasta elogiando crítico musical, é crítico musical elogiando historiador e por aí vai.

E tudo isso é visto oficialmente como coisas positivas e “saudáveis” para a cultura brasileira, mas são apenas manobras de interesses comerciais em jogo. Mas como é que ninguém percebe que isso se trata de uma guerra cultural perversa e impiedosa?

Isso se deve porque as pessoas se deixam levar pelo clima de festa. Com multidões alegres, dançando e cantando, quem pode desconfiar de que se tratam de armadilhas culturais? Mais fácil ver armadilha cultural num tirano mal-humorado fazendo um pronunciamento na TV.

Mas a própria estética da música popularesca, em verdade, é manipuladora. Os antigos sucessos dos ídolos cafonas são anestesiantes ou, às vezes, um desabafo resignado. Mais tarde, as tendências brega-popularescas passaram a investir no narcisismo viralata, como no “funk”, ou na alegria tóxica, como na axé-music e no forró-brega. Tudo visando principalmente o consumo de cerveja, maior objetivo da campanha “contra o preconceito”.

Empresários, fazendeiros, donos de grandes meios de comunicação e grandes corporações estão por trás do entretenimento popularesco, ganhando muito dinheiro e fortalecendo o poder com a pretensa "cultura popular" que se desenvolve não nas comunidades, mas nos grandes escritórios.

O “Jornalismo da OTAN”, que é uma corrente da chamada opinião pública que vê as armadilhas culturais pelo prisma exclusivamente político - incluindo as ações da imprensa solidária a um poder dominante - , não quer que se saiba da pior guerra cultural em curso no Brasil, fruto do clientelismo político e midiático da ditadura militar e das concessões de rádio e TV de José Sarney e seu então ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

O culturalismo conservador, portanto, tenta iludir a opinião pública com a grande pegadinha que é a bregalização. Enquanto pessoas excessivamente alegres se divertem no medíocre entretenimento brega-popularesco, empresários que investem nesse lazer enriquecem cada vez mais e as desigualdades sociais aumentam, enquanto o nosso país fica culturalmente enfraquecido.

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