Há poucos dias, tivemos o fenômeno do influenciador digital “Menino da Lei”, um rapaz supostamente “especializado” em Direito cuja trajetória de sucesso terminou com um incidente banal.
O rapaz se chama Gabriel Piccolo, ele é de Praia Grande, no litoral paulista, tem 26 anos de idade. Ele criou um canal, com mais de três milhões de seguidores, no qual ele parecia analisar leis pouco conhecidas dos cidadãos comuns.
Grande parte dos vídeos publicados por Piccolo são inspirados em casos de grande repercussão, e ele parece analisar vários tipos de leis, da legislação criminal às leis trabalhistas. Antes da fama, foi constatado pela grande imprensa que o jovem foi vendedor em duas lojas de móveis por mais de dois anos e trabalhou como consultor de vendas em uma empresa de eletrônicos por cerca de cinco meses.
Um incidente, todavia, encerrou a fase de sucesso de Gabriel, quando ele mostrou uma situação na qual ele foi estacionar seu carro num espaço privativo de uma empresa. Ao ser avisado de que não poderia estacionar seu carro onde não está autorizado e que deveria retirar o veículo do local, o influenciador, indignado, resolveu gravar um vídeo.
Gabriel alegou que o espaço era “público” e ainda fez um comentário que gerou discussão com um empresário dono de uma imobiliária. “E a Lei protege o direito de vocês. Vocês, cidadãos, podem estacionar os seus carros livremente porque se esse tipo de coisa acontecer com vocês, filmem a situação”, disse.
O “Menino da Lei” expôs a pessoa e a identidade do dono da imobiliária que, se sentindo lesado, resolveu processar o rapaz, pedindo uma indenização de R$ 30 mil por danos morais. A Justiça de São Paulo entendeu que Gabriel Piccolo estava extrapolando a liberdade de expressão por estar expondo o proprietário da imobiliária e a própria empresa em questão, pois, embora seu nome não tenha sido mencionado pelo influenciador, o vídeo permite a identificação do local e da empresa.
Gabriel afirmou que não possui formação em Direito. Por incrível que pareça, as leis brasileiras permitem que pessoas sem esta formação gravem vídeos comentando leis como se fossem especialistas. Havendo responsabilidade e compreensão aprofundada e honesta de cada legislação, essa permissão para autodidatas pode ajudar a facilitar o acesso às leis, ajudando na efetivação da democracia e da cidadania e no atendimento ao interesse público.
Embora à primeira vista, Gabriel Piccolo pareceu bem intencionado em sua iniciativa, o incidente mostrou que a alma de influenciador falou mais alto do que a de um cidadão compartilhando conhecimento em leis. Neste sentido, se nivelou a comediantes que, nas entrevistas de emprego, inventam trajetórias jornalísticas longas para suas idades para obter cargos de Analistas de Redes Sociais sem uma dedicação profunda na função. O mercado anda cego para talentos autênticos, mesmo os autodidatas.

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