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A TRISTE "POLÍTICA DA BOA VIZINHANÇA" DO RADIALISMO ROCK NO RJ


A situação do radialismo rock, no Brasil, é muito, muito triste.

Sobretudo no Rio de Janeiro.

Os roqueiros deixaram de ser os protagonistas do processo e deixaram que radialistas não-roqueiros tomassem as rédeas do segmento.

Com tanto trabalho de rádios como a Eldo Pop e a Fluminense FM, tudo se limitou agora a uma FM de hit-parade que agora levanta a bandeira do "rock de verdade", a Rádio Cidade.

Os roqueiros deixaram de usar o microfone e cuidar da programação.

Quem usa o microfone são locutores engraçadinhos, mais preocupados em dizer a próxima piada ou a ler textos sobre rock que os produtores copiaram do Whiplash e os locutores leem sem entender bulhufas, apenas pronunciando cuidadosamente as palavras e caprichando no inglês de cursinho.

Quem cuida da programação são as gravadoras e os anunciantes - não, não são as marcas associadas ao rock, mas redes de lanchonetes, montadoras de automóveis, lojas de eletrodomésticos - , que já vêm com aqueles hits pré-determinados de rock que tem que ser tocados.

Ver que os roqueiros não podem mais falar no rádio nem escolher músicas e deixar que o segmento seja comandado por um bando de radialistas pop é bastante constrangedor e preocupante.

Afinal, a cultura rock fica empastelada, entregue a gente sem especialização no ramo.

Mas o pior é que os roqueiros autênticos, embora não façam adesão, evitam qualquer confronto com a Rádio Cidade.

Acham que é preciso o mercado roqueiro fortalecer primeiro.

Acreditam, na boa-fé, que primeiro deve-se deixar a canastrona fazer o seu espetáculo para os verdadeiros atores entrarem em cena em breve, não se sabe quando.

Enquanto isso não acontece, o mercado roqueiro autêntico tem que fazer papel de coadjuvante ou figurante nesse processo todo.

Isso vai contra a natureza do roqueiro, transformado em carneirinho deixado na relva, enquanto o vaqueiro canastrão vai fazer seu espetáculo no rodeio.

Triste "política da boa vizinhança".

Quando precisamos de uma rádio de rock autêntica, com pessoal especializado, sem essas coisas de programas de besteirol sobre futebol, namoricos bobos e outras coisas nada roqueiras, o que temos é um embuste radiofônico que somos obrigados a aceitar para o bem do mercado.

Como bons cordeirinhos, ficamos obedientes diante dos desmandos de uma rádio que, entre zilhões de erros graves, ainda vai completar 40 anos em 2017 vomitando na sua própria história.

Pois a Rádio Cidade era muitíssimo melhor como FM pop do que como rádio de rock. "Rock de Verdade"? Nada disso! Rádio Cidade só se for dance!!

Essa submissão dos roqueiros só vai ser um tiro no pé.

Porque, em vez de esperar o sucesso da Rádio Cidade abrir caminho para os autênticos, o que ocorrerá é ela eliminar os mercados alternativos diante de tanto crescimento publicitário, que pode ocorrer mesmo quando não tem uma grande audiência.

Até porque forjar pontos no Ibope é fácil. Qualquer rádio que tem "traço" no Ibope (menos de 1%) pode comprar estabelecimentos comerciais e forjar grande audiência. Uma única pessoa sintoniza e os milhares de fregueses são jogados à revelia para os pontos do Ibope sem que eles tenham sequer noção de que rádio ouvem.

E aí os roqueiros autênticos, felizes com suas rádios digitais, poderão ter os anunciantes roubados pela Rádio Cidade.

E aí, um dia, para montar uma rádio autenticamente rock, só sobrarão latas de refrigerante para serem ligadas por algum tipo de barbante. Porque até lá todo o mercado de rock será refém da Rádio Cidade.

Não é uma boa ideia adotar essa postura cordeira de aceitar uma canastrice radiofônica a pretexto de garantir o mercado de rock no Brasil.

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