Foi bastante vergonhosa e infeliz a iniciativa do renomado músico e produtor Arnolpho Lima Filho, o Liminha, de currículo notável e conceituado, recorrer a um charlatão religioso de ideias medievais para defender os animais.
Para quem não sabe, houve um episódio em que um cão comunitário de minha cidade natal, Florianópolis, foi surrado até a morte por um grupo de adolescentes riquinhos. O cão, chamado Orelha, era muito querido e dócil e a agressão repercutiu nacionalmente. Dois dos agressores haviam depois viajado para os EUA e já voltaram ao Brasil. O caso também inspirou outro ataque que matou o cão comunitário Abacate, em Toledo, no Paraná.
Aí Liminha cometeu uma atitude extremamente lamentável, quando publicou um vídeo com o “médium da peruca” da cidade de Uberaba - a cidade “mais barata do país” com passagens de ônibus mais caras que o eixo Rio-São Paulo e com apartamentos “de baixo custo” com o dobro do preço de similares na Zona Sul paulistana - , falando de “animais no mundo espiritual”, coisa que a ciência nunca demonstrou indício algum de existência.
Isso é algo que ainda não tem fundamentação científica e entra em contradição com Allan Kardec, o precursor da Doutrina Espírita tão bajulado pelos deturpadores brasileiros, mas tão violentamente desprezado em seus ensinamentos. E o pior é que, quando se critica duramente o “Espiritismo à brasileira”, o professor francês paga a conta dos maus alunos, esses delinquentes doutrinários aqui conhecidos como “médiuns”.
Mas vamos compreender o Liminha. Como ícone surgido no rock psicodélico brasileiro, ele buscou, como sua geração que amava os Beatles, um Maharishi para chamar de seu. Para quem não sabe, Maharishi foi um charlatão religioso que em 1967 chegou a ser cultuado pelos músicos dos Beatles e Beach Boys e depois foi desmascarado como farsante.
No entanto, para os brasileiros, fazer viagens à Índia eram desnecessárias, bastando ir para o Triângulo Mineiro para encontrar um mistificador, um pretenso guru para oferecer falsa sabedoria disfarçada de assistência moral. E que, no entanto , não foi desmascarado por conta de um lobby muito poderoso montado nos tempos da ditadura militar.
Mas o problema é que o “médium da peruca” tem ideias medievais e uma trajetória de fraudes terríveis mas até hoje blindada pela sociedade. Vamos combinar que Maharishi não era protegido dos poderosos e ricos latifundiários do Triângulo Mineiro, que impedem que qualquer investigação seja feita.
Diante do “médium”, jornalistas investigativos, juristas e até semiólogos se sentem tentados a passar pano no “médium da peruca”, que também exerce a Síndrome de Estocolmo sobre aqueles que representam o que o obscurantista de Pedro Leopoldo e Uberaba repudiava de forma radical: roqueiros, esquerdistas, atrizes sensuais e até ateus. Haja galinheiro para cultuar tamanha raposa.
O “médium da peruca” teve um agravante de ter sido um “João de Deus” tão traiçoeiro quanto seu pupilo de Abadiânia que enganou até Oprah Winfrey mas felizmente foi condenado. O grande problema é que tínhamos o AI-5 e o dito “lápis de Deus” só teve uma narrativa unilateral, sem uma mídia opositora para rebater. A Internet, por exemplo, era só uma tecnologia militar privativa dos EUA.
Mas investigações subliminares apontam que o voto de pobreza do “médium” e sua “caridade” não passaram de grandes blefes. Doações de terrenos assinadas pelo “médium” sugerem que ele era rico proprietário de terras, amigo dos “coronéis” de Uberaba. A suposta doação do dinheiro da venda de livros “psicografados” para a “caridade” revela que a grana não foi para os pobres, mas para os opulentos dirigentes da famosa federação que sustenta o mito desse falso iluminado.
Pena que ninguém desmascara um sujeito desses, que muitos consideram o “dono da verdade”. Lá fora, temos gente corajosa para denunciar farsantes religiosos, mas aqui temos a Faria Lima e os grandes donos de latifúndios e do agronegócio do Triângulo Mineiro para blindar o charlatão que transformou a Doutrina Espírita num chiqueiro dos mais fétidos.
Esperaríamos que, ao menos, pessoas como o músico Liminha não cometessem o papelão de de lembrar dessa figura das trevas. Que deixe para ídolos tão bregas quanto o visual cafona do "médium" ou para bolsonaristas alucinados esse papel, de exaltar um ídolo religioso antiquado e caduco cuja maior preocupação era pedir para os oprimidos sofrerem calados, sem sequer gemer de dor.
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