Pular para o conteúdo principal

O DESGASTE DE LULA NO EPISÓDIO DA MEGAOPERAÇÃO NO RIO DE JANEIRO

O PRESIDENTE LULA TEVE MENÇÕES NEGATIVAS NAS REDES SOCIAIS DEVIDO À FALTA DE EMPENHO NO ASSUNTO DE SEGURANÇA PÚBLICA.

O presidente Lula está pagando a conta do seu primeiro ano de mandato, quando ele preferiu a festa do que o trabalho de reconstrução autêntica, uma reconstrução que não precisava gerar resultados fantásticos pois o povo espera mais resultados palpáveis e sensíveis do que os tais “recordes históricos”.

O caso da megaoperação contra o crime organizado no Rio de Janeiro desgastou Lula, que em 2023 estava mais preocupado em viajar e fazer discursos e se exibir ao exterior. Um líder mais empenhado em promover um plano de paz para Rússia e Ucrânia não tinha um plano de segurança pública para combater o crime organizado e assistir o povo pobre, criando alternativas reais para os serviços clandestinos que os criminosos ofereciam para dominar a população carente.

As menções negativas a Lula nas redes sociais, depois da chacina nos Complexos da Penha e do Alemão serviram como um balde de água gelada na campanha de fortalecimento da imagem do petista nas redes sociais. Com tudo para fazer dentro do nosso país no primeiro ano do terceiro mandato, Lula preferiu se consagrar, inspirado nas biografias de políticos que ele leu enquanto estava preso na sede da Polícia Federal em Curitiba.

Era para criar um hiato de política externa, em vez de uma ênfase. O povo pobre não acreditou na promessa de Lula trazer investimentos estrangeiros nas suas viagens ao exterior, como um pai ausente prometendo dar presentes ao filho. Também não acreditou nos “recordes históricos do Efeito Lula”, sobretudo no emprego.

Que crescimento recorde? Nos serviços de call center e nas entregas de aplicativos? E isso enquanto influenciadores digitais e comediantes de estandape ocupam cargos de Comunicação e os concursos públicos aprovam justamente quem não está muito a fim de trabalhar nos referidos cargos. Cadê as reais oportunidades de emprego?

Lula virou o mordomo da burguesia ilustrada e o “crescimento recorde” de emprego prioriza mais as profissões que atendem a demandas de lazer e entretenimento, como planos de celular, de compra de imóveis, de alimentação e de bebida alcoólica. Ou seja, são empregos que servem, salvo honrosas exceções, para atender aos ricos e abastados, algo que já era prioridade do governo Michel Temer, do qual Lula não sinalizou uma ruptura estrutural do maligno legado do temeroso governante.

Lula não pode estar acima de tudo nem pode fazer sempre o que quer. Como governante, ele tinha que se submeter ao povo brasileiro e focar na política interna. Não poderia ter transformado seu terceiro mandato numa farra marcada por simulacros de realizações enquanto o presidente buscava sua casa consagração no exterior.

Ao adiar sua política interna para o segundo ano de governo, Lula pagou o preço da queda de popularidade causada por gafes nos discursos e pela falta de empenho para baixar os preços, gerar emprego, ajudar de forma permanente os sem moradia e os endividados e a acabar com algumas heranças do governo Michel Temer, como a escala 6x1 do trabalho.

Diante dessa procrastinação, agravada ainda por aumentos mixurucas do salário mínimo, Lula só empolga sua bolha de apoiadores, enquanto a suposta popularidade entre os pobres hoje é apenas um fantasioso marketing das supostas pesquisas de opinião.

E Lula demonstra que só age quando é pressionado, e não bastasse tentar criar políticas para reconquistar as classes populares, diante da queda de popularidade, agora é o caso da segurança pública que, através do trágico episódio das mortes nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, o faz tomar medidas para combater o crime organizado.

E neste caso a má imagem de Lula, acusado por bolsonaristas de consentir com o crime, se agravou com o recente acontecimento no Rio, fazendo com que o presidente brasileiro tivesse que investir cerca de R$ 454 mil em propaganda para reverter a situação, mas agora sob o risco do desgaste, antes impensável no episódio do encontro com o presidente estadunidense Donald Trump, se tornar ainda maior.

O mundo de Lula acaba sendo o da propaganda. O povo pobre da vida real está decepcionado com o presidente brasileiro e tudo indica que é um caminho sem volta. Lula, embora finja desprezar a classe média abastada (verdadeira prioridade de seu governo) e atacar a Faria Lima (da qual serve com gosto aos interesses dessa classe), não consegue esconder o seu peleguismo e, com isso, a esquerda decai por falta de renovação.

Resta Lula pelo menos segurar sua bolha de apoiadores e depender da burguesia ilustrada para poder passar para o quarto mandato, num placar que provavelmente será bem apertado. E o COP-30 será mais uma vitrine para o presidente brasileiro, embora o evento tenda a não recuperar de vez seu prestígio. 

No máximo, o evento ambientalista a ocorrer em Belém, no Pará, daqui a uma semana, só vai frear a crise de popularidade no sentido de Lula continuar falando para convertidos. O placar apertado é ainda a esperança mais provável para sua reeleição.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DOUTORADO SOBRE "FUNK" É CHEIO DE EQUÍVOCOS

Não ia escrever mais um texto consecutivo sobre "funk", ocupado com tantas coisas - estou começando a vida em São Paulo - , mas uma matéria me obrigou a comentar mais o assunto. Uma reportagem do Splash , portal de entretenimento do UOL, narrou a iniciativa de Thiago de Souza, o Thiagson, músico formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) que resolveu estudar o "funk". Thiagson é autor de uma tese de doutorado sobre o gênero para a Universidade de São Paulo (USP) e já começa com um erro: o de dizer que o "funk" é o ritmo menos aceito pelos meios acadêmicos. Relaxe, rapaz: a USP, nos anos 1990, mostrou que se formou uma intelectualidade bem "bacaninha", que é a que mais defende o "funk", vide a campanha "contra o preconceito" que eu escrevi no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... . O meu livro, paciência, foi desenvolvido combinando pesquisa e senso crítico que se tornam raros nas teses de pós-graduação que, em s...

MÚSICA BREGA-POPULARESCA CRESCEU DEMAIS E SUFOCA RENOVAÇÃO NA MPB

"EMEPEBIZAR" O SOM BREGA-POPULARESCO, COMO NO CASO RECENTE DO ÍDOLO DO PISEIRO, JOÃO GOMES, SOA FORÇADO E CANASTRÃO E NÃO RESOLVE A CRISE QUE VIVE A MÚSICA BRASILEIRA DE HOJE. Uma demonstração de que vivemos numa situação de devastação cultural é o crescimento das várias tendências da música popularesca, numa linhagem que começou com os primeiros ídolos cafonas e hoje se desdobrou em fenômenos como o piseiro, a sofrência, o trap e o arrocha. Depois que vieram críticos musicais alertando sobre a gravidade da supremacia popularesca nos anos 1990 - com Ruy Castro e os finados Arnaldo Jabor e Mauro Dias mostrando sua contundente e nem sempre agradável lucidez - , houve uma reação articulada pelo tucanato cultural, envolvendo setores da USP ligados ao PSDB, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo e, é claro, o empresariado da Faria Lima. Eles montaram uma narrativa que toma emprestado jargões da militância terceiro-mundista, usados de maneira leviana e tendenciosa pela intele...

A VERDADE SOBRE A “INTERAÇÃO” ENTRE MPB E POPULARESCOS

JOÃO GOMES E JORGE DU PEIXE, DA NAÇÃO ZUMBI - O "coitado" da situação não é o que muita gente imagina ser. Ultimamente, ou seja, nas últimas semanas do ano passado, a mídia noticiou com certo entusiasmo as apresentações da banda de mangue beat Nação Zumbi com a participação do cantor brega-popularesco João Gomes, que agora virou um queridinho de setores da imprensa cultural, da intelectualidade e de setores da MPB mainstream. João virou o hype da vez, desfilando ao lado de descolados de plantão. Dançou com Marisa Monte, fez dueto com Vanessa da Mata e Gilberto Gil e até com som de arquivo de Luís Gonzaga. E fez até pocket show em uma livraria, para reforçar esse novo marketing do popularesco pretensamente cool. Isso lembra o que foi feito antes com Zezé di Camargo, vinte anos atrás. Então lançando o filme Os Dois Filhos de Francisco, do finado diretor Breno Silveira, Zezé e seu irmão Luciano gravaram um disco duetando com artistas de MPB e circulou nos meios artísticos e inte...

O BRASIL CONTINUA CULTURALMENTE DEGRADADO

WAGNER MOURA EM CENA DE O AGENTE SECRETO , FILME DE KLEBER MENDONÇA FILHO. A premiação dada ao filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho como Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Ator para Wagner Moura, no Globo de Ouro (Golden Globe Awards, em inglês) pode ser animador para nosso cinema e incentiva reflexões a respeito de políticas culturais para o nosso país. Mas isso não significa que o Brasil esteja em um excelente cenário cultural. Nosso cenário cultural está péssimo, deteriorado. O que preocupa é que casos pontuais como os de O Agente Secreto e outro filme, Eu Ainda Estou Aqui, de Walter Salles Jr., não dão o diagnóstico total de nossa cultura, já que temos uma cultura de qualidade, sim, mas ela dificilmente rompe as bolhas sociais de seu público específico. Os dois filmes são mais exceção do que regra. Mas exceção é uma van que todos querem que tenha a superlotação de um trem bala de trinta metros de comprimento. Todos querem soar como exceção a si mesmos. E aí, no caso d...

“COMBATE AO PRECONCEITO” ENFRAQUECEU LUTAS POPULARES NO BRASIL

PRETENSO ATIVISMO SOCIOPOLÍTICO, O "FUNK" ENGANOU AS ESQUERDAS, QUE ENDOSSARAM NARRATIVAS PRODUZIDAS PELOS GRUPOS GLOBO E FOLHA. A campanha do “combate ao preconceito”, que gourmetizou os fenômenos popularescos sob a desculpa de ser o “popular com P maiúsculo”, foi uma guerra cultural tramada pela Globo e Folha para enfraquecer as lutas populares no Brasil e permitir a retomada reacionária de 2016. Mordendo a isca, a mídia alternativa, seduzida pelo capataz freelancer de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, que passeou pelas redações da imprensa de esquerda para fazê-la pensar culturalmente “igual à Ilustrada”, quase faliu ao empoderar supostos fenômenos populares que são patrocinados pelo latifúndio, pelas grandes corporações e pelas oligarquias midiáticas. A bregalização, ao ser vista como um pretenso ativismo sociopolítico, sob a desculpa da “provocatividade” e da “reação contra o bom gosto”, desviou as classes populares da participação do projeto progressista de L...

NAÇÃO WOODSTOCK REJEITARIA “EVIDÊNCIAS” E OUTROS SUCESSOS “DESCOLADOS”

Anteontem fiquei abismado quando uma moça, presumivelmente com 19 anos estava no celular ouvindo “Lula de Cristal”, sucesso de Xuxa Meneghel, nas redes sociais. Gente com idade para entrar na faculdade pensando que sucessos popularescos como este, da lavra de Sullivan & Massadas, são “vanguarda”. Mas isso é fichinha para uma sociedade que chama “Evidências”, na versão de Chitãozinho & Xororó, de “clássico” e acha que João Gomes, ídolo do piseiro, é “a nova sensação da MPB”. Vivemos uma catástrofe cultural e muita gente vai dormir tranquila com esse triste cenário. Ainda temos uma sutil repaginação do É O Tchan que, diante da má repercussão da adultização de crianças, tem que agora se vender para o público universitário, tentando parecer ‘cult’ para um país em que muitos adoram “tomar no cool”. Ver que canções comerciais como "Evidências", "Lua de Cristal", "Ilariê", "Xibom Bom Bom", "Dança do Bumbum", "Segura o Tchan",...

ASSALTO NA OSCAR FREIRE É UM RECADO PARA “ANIMAIS CONSUMISTAS”

No último dia 14, um assalto seguido de tiroteio ocorreu numa padaria no entorno da Rua Oscar Freire, no bairro de Cerqueira César, na Zona Sul de São Paulo, próxima à Avenida Paulista. A padaria é a Lé Blé Petit, situado na rua próxima, a Rua Padre João Manuel. O que assusta é que o incidente ocorreu numa tarde bem movimentada, no horário pouco antes de 16 horas. Houve correria no local. Três ladrões fugiram, embora um deles tenha sido baleado e outro, atropelado. Alguns bens roubados foram recuperados. O fato nos põe a pensar fora do velho moralismo elitista costumeiro. Afinal, a sociedade burguesa, e falamos da burguesia enrustida, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, comete seus abusos. Ganha dinheiro demais, embora finja ser pobre, e já está batendo o ponto na defesa da reeleição de Lula, até porque este virou um político pelego. Essa elite bronzeada quer demais para si. Acha que, só por ter liberdade para consumir e se divertir, pode abusar da dose. Já transfor...

MERCADO REABILITA MPB, MAS TENTA JUNTÁ-LA AO BREGA-POPULARESCO

  NO INTERIOR, A MPB ENCONTRA DIFICULDADES DE ACESSO DEVIDO À SUPREMACIA DOS RITMOS POPULARESCOS LOCAIS. A reabilitação da MPB entre o público médio ocorre muito gradualmente e de maneira tímida. Sinaliza uma possibilidade de nomes como Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de outros como Zé Ramalho, Milton Nascimento e Elis Regina, serem aceitos largamente por um público que, antes, dependia das trilhas de novelas para ouvir alguma MPB mais acessível. No entanto, se esse processo é um progresso diante da intolerância do "combate ao preconceito" em relação à MPB - que o "deus" da intelectualidade "bacana", Paulo César de Araújo, definia jocosamente como "MPBzona", fazendo um trocadilho entre a suposta grandiloquência e a palavra "zona", sinônimo de "bagunça" - , ele também não é gratuito, pois a supremacia brega-popularesca quer usar a MPB para uma associação forçada, visando interesses ...

O BRASIL SERÁ UM MERO PARQUE DE DIVERSÕES?

Neste ano que se começa, temos que refletir a respeito de um Brasil culturalmente degradado que, sem estar preparado para se tornar um país desenvolvido, tende a ser uma potência... de um grande parque de diversões!! Isso mesmo. Um país que supostamente se destina a ser "justo e igualitário" e "inevitavelmente desenvolvido",  por conta do governo festivo de Lula, no entanto está mais focado no consumismo e no hedonismo, no espetáculo e na festividade sem fim. Um país que deveria ter, por exemplo, uma renovação real na MPB, acaba acolhendo um mero hitmaker  comercial da linha de João Gomes. Não perdemos, nos últimos anos, João Gilberto, Moraes Moreira, Erasmo Carlos, Gal Costa, Rita Lee, Lô Borges e Jards Macalé para que a "mais nova sensação da música brasileira" seja um mero cantor de piseiro. Mas esse exemplo diz muito ao astral de parque de diversões que fez o Brasil se tornar esse país excessivamente lúdico nos últimos anos, quando a Faria Lima mostrou...

O SENTIDO EXTREMAMENTE GRAVE DE UMA ACUSAÇÃO CONTRA QUEM REJEITA O “FUNK”

O "FUNK" NÃO FICARIA MELHOR SE SEUS RESPONSÁVEIS E SEU PÚBLICO FOSSEM DE ETNIAS GERMÂNICA E HOLANDESA. Os casos de Thiagsson e Fernanda Abreu revelam o desespero e a paranoia de quem apoia o “funk” e não consegue convencer através de argumentos equilibrados. Forçando a barra, os apoiadores do “funk” agora deram para acusar de “racistas” quem rejeita o ritmo. Isso é tão leviano quanto um vizinho denunciar à polícia um cidadão que levou dois dias para devolver uma furadeira usada para a reforma da casa. Acusar os críticos do “funk” de racistas é de uma gravidade extrema. Afinal, trata-se de um juízo de valor leviano, baseado no etnocentrismo daqueles que defendem o “funk” é que já possuem um padrão pré-determinado de pobreza, uma pobreza ao mesmo tempo “pobre” e “higiênica” dentro de um padrão de “periferia” que envolve favelas, bares decadentes e velhos, ruas sem asfalto, uma miséria tornada espetáculo em todo o imaginário do brega e do “popular demais” em várias de suas verte...