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A TRAGÉDIA DOS COMPLEXOS DO ALEMÃO E DA PENHA E DO PRAGMATISMO CARIOCA

MEGAOPERAÇÃO CONTRA O COMANDO VERMELHO PRENDEU 81 SUPOSTOS ENVOLVIDOS, ALÉM DO TIROTEIO TER CAUSADO 64 MORTES.

No Rio de Janeiro, nas áreas que envolvem o Complexo do Alemão e o Complexo da Penha, na Zona Norte - próximas às principais vias de acesso para outros Estados, a Avenida Brasil e a Linha Amarela - , a Operação Contenção, decidida à revelia da Justiça pelo governador estadual Cláudio Castro, tentou repetir a espetacular operação policial de 2010, mas de uma forma cada vez mais trágica.

A megaoperação, cujo objetivo era prender as lideranças do Comando Vermelho que exercem poder em outros Estados, prendeu 81 pessoas e apreendeu mais de noventa fuzis, vários radiocomunicadores e duzentos quilos de drogas. 

No tiroteio, mais de 100 pessoas morreram, entre elas dois policiais civis e dois policiais militares. Nove pessoas saíram feridas. O episódio da megaoperação já é considerado o mais letal da história do Rio de Janeiro, superando as já chocantes tragédias da Candelária e Vigário Geral, ambas em 1993.

Vários líderes do CV foram mortos e outros, presos. A população que estava no local ficou em pânico e buscou se proteger como pôde. O comércio nos arredores foi fechado, mesmo longe do local. Um homem armado chegou a ordenar o fechamento de uma loja na Rua Santo Afonso, na Tijuca. O Comando Vermelho ordenou toque de recolher nas favelas.

Moradores dos complexos denunciaram abusos policiais, incluindo uma agressão contra uma mulher pobre grávida e tiros que os policiais davam em direção aos moradores "de forma indiscriminada". Policiais teriam entrado nas casas das favelas sem ordem judicial e negaram socorro às pessoas que passaram mal durante a megaoperação. Dos 81 presos, é provável que haja alguns inocentes que estavam no "meio do caminho", como sempre ocorre nessas operações policiais que tratam a pobreza como "crime".

O governador Cláudio Castro, um dos "filhos" do golpismo político de 2016, acusou o governo Lula de não ajudá-lo na questão da segurança no Estado do Rio de Janeiro, mas o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, afirmou que o chefe do Executivo fluminense não entrou em contato para pedir ajuda ou autorização judicial para o combate ao crime organizado. 

A atitude de Castro causou uma séria crise entre o Governo Federal e o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Enquanto isso, o prefeito do Rio, Eduardo Paes "lavou as mãos" e disse para manter os serviços públicos funcionando até o fim do expediente, se limitando a dizer que "os cariocas não podem mais ficar reféns do crime organizado".

A triste rotina da violência no Rio de Janeiro é fruto de um pragmatismo que veio nos últimos anos e é consequência de todo um ressentimento sociocultural da atual capital fluminense ter perdido seu status de capital do Brasil, há 65 anos.

Um dos frutos desse pragmatismo é o crescimento do crime organizado, que busca assistir, proteger e fornecer serviços ao povo pobre enquanto o Estado, ultimamente mais preocupado em padronizar pinturas de ônibus do que atender aos interesses do povo carioca e fluminense, pensa apenas nos seus interesses fisiológicos.

O Comando Vermelho surgiu a partir do convívio de antigos assaltantes com presos políticos, durante a ditadura militar. A visão pragmática carioca, baseada na ilusão de "piorar agora para melhorar depois", fez com que a população carente recorresse ao crime organizado para lhe atender diante do descaso do poder público.

Esse pragmatismo é fundamentado por retrocessos adotados sob o pretexto de alcançar progressos futuros, criou uma mentalidade cultural viciada, que fez com que o espírito de cordialidade carioca, que fez a fama do antigo Distrito Federal na década de 1950, desse lugar a um reacionarismo autoritário que faz com que, na Internet, cariocas e fluminenses promovessem "tribunais de Internet" e blogues caluniosos para depreciar quem discordasse de suas crenças, valores e abordagens.

Daí que, no âmbito da "normalidade social", criou-se uma mentalidade sempre voltada a finalidades ao mesmo tempo primárias e imediatistas. A precarização musical do "funk", a canastrice radiofônica da Rádio Cidade no segmento rock, a erotização calculada das mulheres-frutas e a pintura padronizada nos ônibus dentro de um modelo supostamente austero de transporte público e mobilidade urbana. Sempre alguma queda de qualidade sob a tese de que, "piorando hoje, as coisas melhoram a longo prazo". E nunca melhoram.

No âmbito criminal, o que se observa é que o pragmatismo surgiu como suposta geração de renda dos pobres, como o narcotráfico, como a loteria do jogo-do-bicho e a segurança informal das milícias, estas também operando no fornecimento de gás, serviços de telefonia, Internet e TV paga e até imobiliária, entre outros setores. A partir daí, organizações tão perigosas como as máfias italianas e estadunidenses passaram a espalhar terror no Grande Rio.

Isso é fruto de um ressentimento do Rio de Janeiro de não ser mais capital do Brasil, status hoje de Brasília. Embora tivesse havido a solução do Estado da Guanabara, a direita carioca que se desvinculou de Carlos Lacerda resolveu defender a fusão entre a Guanabara e o antigo Estado do Rio de Janeiro, uma união de dois Estados que, sem dúvida, é fonte do prejuízo e da sobrecarga que a outrora Cidade Maravilhosa teve que levar ao cuidar de todo o território estadual.

É até surreal o Brasil que criou os Estados de Mato Grosso do Sul e Tocantins não ter recriado o Estado da Guanabara. Niterói, antiga capital fluminense, passou a sofrer uma acomodação terrível que, nos últimos anos, fez a cidade ter um clima social interiorano pior do que uma cidade como Barretos, no interior paulista. Antes o eldorado dos fluminenses, a terra de Arariboia passou a aceitar o papel humilhante de ser capacho da cidade vizinha.

O Rio de Janeiro, com isso, passou a ser uma das cidades que mais estão perdendo moradores no Brasil, diante do êxodo que acontece em direção a outras regiões do país. Na cidade de São Paulo, por exemplo, é surpreendente a presença de automóveis que, embora tenham suas placas rapidamente mudadas para a capital paulista, apresentam um código de letras e números que remetem ao DETRAN do Estado do Rio de Janeiro.

A decadência do Rio de Janeiro é fruto dessa mentalidade pragmática que se torna expressão de uma parcela arrogante da população carioca que não tolera discordâncias e que permite que a violência policial agrida e mate os pobres, estes perdidos numa terra sem lei.

E os prejuízos incluirão até o direito de ir e vir, como a volta do drama dos cariocas terem que redobrar a atenção, no próximo ano, para evitar embarcar no ônibus errado diante da pintura unificada de várias empresas e, no desembarque, esbarrar no cano do revólver de algum miliciano ou traficante. Lamentável.

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