Pular para o conteúdo principal

AS PESSOAS NADA APRENDERAM SOBRE O "FUNK"

"FUNK DO GERALDO" - Manifestação inócua contra o reacionário governador de São Paulo.

As esquerdas e os movimentos sociais insistem em usar instrumentos do poder midiático para se manifestarem contra esse poder e os políticos associados.

Tem gente que pensa que o "funk" é progressista e nunca apareceu na grande mídia.

Quem pensa assim está totalmente enganado.

O "funk" é um subproduto do coronelismo midiático.

Surgiu quando os DJs que se tornaram empresários jogaram fora as lições dos mestres e rebaixaram o funk eletrônico autêntico a um karaokê de vocais ruins, atitudes e letras grotescas.

Por baixo dos panos, os DJs estabeleceram relações com políticos cariocas e barões da mídia locais.

Estabeleciam parcerias com a família Marinho, das Organizações Globo, através da hoje extinta 98 FM.

Na mesma época em que um nacionalmente desconhecido Eduardo Cunha presidia a Telerj, o "funk carioca" já terceirizava a cultura no Rio de Janeiro.

O MC não podia tocar instrumento, não podia fazer melodias.

Não havia arranjos, só uma batida eletrônica que parece o som de um "pum", como se prenunciassem a força dos glúteos como "expressão" do gênero.

O "funk carioca" expressava o grotesco de forma mais evidente, muito antes desse discurso "socializante" empolgar a "boa sociedade" e os "bacanas" em geral.

Discurso que, não custa lembrar, foi inventado pelas Organizações Globo e pela Folha de São Paulo.

A imagem "esquerdista" do "funk" é falsa. Muito falsa.

Veio de uma manobra retórica engenhosa, que falava de uma dita "livre expressão do povo pobre".

Só que o povo pobre que aparecia no "funk" era espetacularizado, glamourizado.

Há uma grande diferença entre o uso do espetáculo para reforçar o ativismo e a espetacularização desse ativismo.

Na Contracultura dos anos 1960, havia a ativização do espetáculo.

Mesmo o tom circense da Nova Esquerda de Abbie Hoffman e Jerry Rubin, em 1968, era uma forma de usar o humor para renovar as formas de pensar e refletir a política.

No "funk", o que há é a espetacularização do ativismo.

Reduz-se a ideia de ativismo a um mero espetáculo de entretenimento, transforma-se o protesto em mercadoria de consumo, a rebeldia se submete aos princípios do consumismo, esvaziando o sentido do ativismo.

Foi o que se viu no "baile funk" de Copacabana, inserido no protesto contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, hoje afastada.

O protesto foi esvaziado, e os deputados puderam votar tranquilos o impedimento de Dilma.

O povo estava ocupado e feliz dançando o "funk". Achavam que um simples rebolado, uns passinhos e umas agachadas iriam manter Dilma no Governo Federal.

Como um Cabo Anselmo da vez, o "funk" se passou por amigo das esquerdas.

Tão amigo quanto Fernando Collor e Paulo Maluf que acabaram votando contra Dilma.

Recentemente, estudantes secundaristas tiveram o equívoco de protestar contra o governador paulista Geraldo Alckmin por causa dos problemas dele com a Educação, como medidas restritivas para as escolas e a corrupção na distribuição de merenda escolar.

Usaram um "funk ostentação", subproduto do "funk carioca", e bem mais claramente consumista.

Tão consumista que criaram uns "rolezinhos" para fazer arremedo de ativismo, uma conversa para telespectador bovino dormir.

Os secundaristas mostram sua precária educação musical.

Não é culpa deles.

A juventude brasileira viveu sob o signo da sociedade midiatizada, nos últimos 25 anos.

Eram educadas a falar as gírias, a trilha sonora musical e os hábitos transmitidos pela Rede Globo.

Seus pais lhe passavam paradigmas intelectuais trazidos da Folha de São Paulo.

Durante anos o mundo que eles conheciam era o da Globo, Folha, Veja e Estadão.

Embora se opusessem a esses veículos, até por uma questão de rebeldia juvenil, assimilaram o "sotaque" dos mesmos.

Falam gírias divulgadas por Luciano Huck e Fausto Silva, pensam o esporte como Galvão Bueno, só reagindo quando a ótica e ver o mundo conforme a ótica de William Bonner.

Eles não podiam ver o Jornal Nacional porque passavam a noite com os amigos. Ficavam no quarto, ouvindo música, ficavam na rua onde moravam ou simplesmente saíam de casa.

E aí aceitam toda a discurseira em favor do "funk", por serem jovens de classe média.

Esquecem que, por trás dessa "fantástica fábrica de chocolates" que a intelectualidade "bacana" trouxe com a defesa do "funk", há um lado cruel por parte do gênero.

DJs-empresários se enriquecem às custas da espetacularização da pobreza, da terceirização da cultura popular, do marketing enganoso e da própria exploração de valores retrógrados que deixam o povo pobre refém de sua própria simbologia de gente "socialmente inferior".

Machismo, racismo, consumismo, precarização do trabalho, prostituição, vida em casas mal-construídas, tudo isso é o lado sombrio do "funk" que poucos têm coragem de enxergar.

Sem falar que você toca um CD de "funk" e você nada vê daquilo que os intelectuais, de forma mentirosa, dizem sobre o gênero.

Você corre para ouvir um CD de "funk" achando que lá tem maracatu, punk rock, pop art, feminismo, samba, lundu, psicodelia, hip hop, repentismo, Tropicália e Bossa Nova, e nada, rigorosamente nada, aparece nesses CDs.

O que tem é só um amontoado de sons de buzina, galopes e outros engodos diante de um vocal ruim de um ou uma MC, na prática um capacho para a vaidade do DJ entre os "bacanas".

Nenhum músico, nenhum arranjo, nenhuma variedade sonora.

Só recentemente, o som deu uma "variada", mas sempre feita de forma tendenciosa.

E isso depois de DJs ficarem muito, muito ricos.

Infelizmente, as pessoas nada aprenderam sobre o "funk".

E não sabem o quanto o "funk", como fenômeno mercadológico, irá apunhalar os movimentos sociais pelas costas e fazer a festa junto aos barões da mídia.

Quando a poeira passar, os funqueiros vão fazer a festa nos palcos da Globo.

É esperar e ver. É só questão de tempo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DOUTORADO SOBRE "FUNK" É CHEIO DE EQUÍVOCOS

Não ia escrever mais um texto consecutivo sobre "funk", ocupado com tantas coisas - estou começando a vida em São Paulo - , mas uma matéria me obrigou a comentar mais o assunto. Uma reportagem do Splash , portal de entretenimento do UOL, narrou a iniciativa de Thiago de Souza, o Thiagson, músico formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) que resolveu estudar o "funk". Thiagson é autor de uma tese de doutorado sobre o gênero para a Universidade de São Paulo (USP) e já começa com um erro: o de dizer que o "funk" é o ritmo menos aceito pelos meios acadêmicos. Relaxe, rapaz: a USP, nos anos 1990, mostrou que se formou uma intelectualidade bem "bacaninha", que é a que mais defende o "funk", vide a campanha "contra o preconceito" que eu escrevi no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... . O meu livro, paciência, foi desenvolvido combinando pesquisa e senso crítico que se tornam raros nas teses de pós-graduação que, em s...

MÚSICA BREGA-POPULARESCA CRESCEU DEMAIS E SUFOCA RENOVAÇÃO NA MPB

"EMEPEBIZAR" O SOM BREGA-POPULARESCO, COMO NO CASO RECENTE DO ÍDOLO DO PISEIRO, JOÃO GOMES, SOA FORÇADO E CANASTRÃO E NÃO RESOLVE A CRISE QUE VIVE A MÚSICA BRASILEIRA DE HOJE. Uma demonstração de que vivemos numa situação de devastação cultural é o crescimento das várias tendências da música popularesca, numa linhagem que começou com os primeiros ídolos cafonas e hoje se desdobrou em fenômenos como o piseiro, a sofrência, o trap e o arrocha. Depois que vieram críticos musicais alertando sobre a gravidade da supremacia popularesca nos anos 1990 - com Ruy Castro e os finados Arnaldo Jabor e Mauro Dias mostrando sua contundente e nem sempre agradável lucidez - , houve uma reação articulada pelo tucanato cultural, envolvendo setores da USP ligados ao PSDB, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo e, é claro, o empresariado da Faria Lima. Eles montaram uma narrativa que toma emprestado jargões da militância terceiro-mundista, usados de maneira leviana e tendenciosa pela intele...

O BRASIL CONTINUA CULTURALMENTE DEGRADADO

WAGNER MOURA EM CENA DE O AGENTE SECRETO , FILME DE KLEBER MENDONÇA FILHO. A premiação dada ao filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho como Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Ator para Wagner Moura, no Globo de Ouro (Golden Globe Awards, em inglês) pode ser animador para nosso cinema e incentiva reflexões a respeito de políticas culturais para o nosso país. Mas isso não significa que o Brasil esteja em um excelente cenário cultural. Nosso cenário cultural está péssimo, deteriorado. O que preocupa é que casos pontuais como os de O Agente Secreto e outro filme, Eu Ainda Estou Aqui, de Walter Salles Jr., não dão o diagnóstico total de nossa cultura, já que temos uma cultura de qualidade, sim, mas ela dificilmente rompe as bolhas sociais de seu público específico. Os dois filmes são mais exceção do que regra. Mas exceção é uma van que todos querem que tenha a superlotação de um trem bala de trinta metros de comprimento. Todos querem soar como exceção a si mesmos. E aí, no caso d...

MERCADO REABILITA MPB, MAS TENTA JUNTÁ-LA AO BREGA-POPULARESCO

  NO INTERIOR, A MPB ENCONTRA DIFICULDADES DE ACESSO DEVIDO À SUPREMACIA DOS RITMOS POPULARESCOS LOCAIS. A reabilitação da MPB entre o público médio ocorre muito gradualmente e de maneira tímida. Sinaliza uma possibilidade de nomes como Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de outros como Zé Ramalho, Milton Nascimento e Elis Regina, serem aceitos largamente por um público que, antes, dependia das trilhas de novelas para ouvir alguma MPB mais acessível. No entanto, se esse processo é um progresso diante da intolerância do "combate ao preconceito" em relação à MPB - que o "deus" da intelectualidade "bacana", Paulo César de Araújo, definia jocosamente como "MPBzona", fazendo um trocadilho entre a suposta grandiloquência e a palavra "zona", sinônimo de "bagunça" - , ele também não é gratuito, pois a supremacia brega-popularesca quer usar a MPB para uma associação forçada, visando interesses ...

NAÇÃO WOODSTOCK REJEITARIA “EVIDÊNCIAS” E OUTROS SUCESSOS “DESCOLADOS”

Anteontem fiquei abismado quando uma moça, presumivelmente com 19 anos estava no celular ouvindo “Lula de Cristal”, sucesso de Xuxa Meneghel, nas redes sociais. Gente com idade para entrar na faculdade pensando que sucessos popularescos como este, da lavra de Sullivan & Massadas, são “vanguarda”. Mas isso é fichinha para uma sociedade que chama “Evidências”, na versão de Chitãozinho & Xororó, de “clássico” e acha que João Gomes, ídolo do piseiro, é “a nova sensação da MPB”. Vivemos uma catástrofe cultural e muita gente vai dormir tranquila com esse triste cenário. Ainda temos uma sutil repaginação do É O Tchan que, diante da má repercussão da adultização de crianças, tem que agora se vender para o público universitário, tentando parecer ‘cult’ para um país em que muitos adoram “tomar no cool”. Ver que canções comerciais como "Evidências", "Lua de Cristal", "Ilariê", "Xibom Bom Bom", "Dança do Bumbum", "Segura o Tchan",...

ASSALTO NA OSCAR FREIRE É UM RECADO PARA “ANIMAIS CONSUMISTAS”

No último dia 14, um assalto seguido de tiroteio ocorreu numa padaria no entorno da Rua Oscar Freire, no bairro de Cerqueira César, na Zona Sul de São Paulo, próxima à Avenida Paulista. A padaria é a Lé Blé Petit, situado na rua próxima, a Rua Padre João Manuel. O que assusta é que o incidente ocorreu numa tarde bem movimentada, no horário pouco antes de 16 horas. Houve correria no local. Três ladrões fugiram, embora um deles tenha sido baleado e outro, atropelado. Alguns bens roubados foram recuperados. O fato nos põe a pensar fora do velho moralismo elitista costumeiro. Afinal, a sociedade burguesa, e falamos da burguesia enrustida, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, comete seus abusos. Ganha dinheiro demais, embora finja ser pobre, e já está batendo o ponto na defesa da reeleição de Lula, até porque este virou um político pelego. Essa elite bronzeada quer demais para si. Acha que, só por ter liberdade para consumir e se divertir, pode abusar da dose. Já transfor...

O SENTIDO EXTREMAMENTE GRAVE DE UMA ACUSAÇÃO CONTRA QUEM REJEITA O “FUNK”

O "FUNK" NÃO FICARIA MELHOR SE SEUS RESPONSÁVEIS E SEU PÚBLICO FOSSEM DE ETNIAS GERMÂNICA E HOLANDESA. Os casos de Thiagsson e Fernanda Abreu revelam o desespero e a paranoia de quem apoia o “funk” e não consegue convencer através de argumentos equilibrados. Forçando a barra, os apoiadores do “funk” agora deram para acusar de “racistas” quem rejeita o ritmo. Isso é tão leviano quanto um vizinho denunciar à polícia um cidadão que levou dois dias para devolver uma furadeira usada para a reforma da casa. Acusar os críticos do “funk” de racistas é de uma gravidade extrema. Afinal, trata-se de um juízo de valor leviano, baseado no etnocentrismo daqueles que defendem o “funk” é que já possuem um padrão pré-determinado de pobreza, uma pobreza ao mesmo tempo “pobre” e “higiênica” dentro de um padrão de “periferia” que envolve favelas, bares decadentes e velhos, ruas sem asfalto, uma miséria tornada espetáculo em todo o imaginário do brega e do “popular demais” em várias de suas verte...

"FUNK" FOI PROMOVIDO A "GRANDE COISA" DEVIDO AO ETNOCENTRISMO DA BURGUESIA

A preocupante glorificação do "funk", agora retomada por uma exposição sobre o gênero no Museu da Língua Portuguesa, mascara a realidade de um gênero que é meramente comercial, sem objetivos artísticos nem culturais, mas que insiste em narrativas falsamente libertárias que não possuem sentido lógico algum. A exposição tem o nome pretensioso e oportunista de "Funk - Um grito de ousadia e liberdade", e serve apenas para mostrar o quanto a intelectualidade "bacana", espécie de think tank  da burguesia ilustrada, investiu em muito etnocentrismo para glorificar esse gênero da música brega-popularesca. O "funk" era somente um pop dançante comercial, feito para puro entretenimento. É marcado pela relação hierárquica entre o DJ, o "cérebro", e seu porta-voz, o MC. Sua principal caraterística é o rigor estético não-assumido e nivelado por baixo. No "funk", não há arranjadores nem compositores no sentido criativo do termo. Uma batida pa...

CULTURA 'COUNTRY' É MUITO DIFÍCIL DE SE IMPLANTAR NO BRASIL

Uma das culturas que são muito difíceis de serem implantadas no Brasil é a cultura country . Desde quando eu era criança, achava o country muito, digamos, “country”, no sentido estadunidense do termo. Uma coisa bem fechada no estado de espírito do povo dos EUA. A cultura dos caubóis - termo abrasileirado num país que resiste em traduzir bullying como “valentonismo” - é bem típica dos EUA: é expressão das sociedades rurais de Estados como Texas, Tennessee, Alabama e Geórgia. É algo bem estadunidense, no sentido privativo da nação mais poderosa do mundo. O estilo do vaqueiro, aquela mentalidade do Velho Oeste, o tipo de fazendeiros nessas regiões, o figurão caipira - que no inglês significa hillbilly , o “Gui da colina” traduzido ao pé da letra - , tudo isso tem a ver com os EUA, com a alma estadunidense, fortemente norte-americana. Não vejo probabilidade de desenvolver uma brasilidade em torno disso. Quando se introduz o country no Brasil, poucos conseguem ser bem sucedidos, como Raul...

A ELITE DO BOM ATRASO E SEU COMPLEXO DE SUPERIORIDADE

A elite do bom atraso não tolera críticas. Com sei cão de guarda chamado negacionista factual, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, não quer ser contrariada, pois finalmente atingiu a plenitude e obteve as conquistas sonhadas pelos seus avós golpistas em 1964. Transformando o Brasil num grande parque de diversões, vivemos uma ilusão de hedonismo sem limites que mal consegue mascarar a carestia de preços e o trabalho precário, que ocorrem sob o aparato desta “felicidade” lúdica.  Mas denunciar o lado sombrio dessa ilusão irrita o negacionista factual, que não gosta muito de fatos que não lhe agradam, embora seu apetite por mentiras não tenha o nível insano dos bolsonaristas. O negacionista factual não é uma pessoa apaixonada por fake news, ainda que seja pouco inclinado a apreciar a verdade dos fatos. A elite do bom atraso, na terceira geração depois que foi realizado o golpe de 1964, representa o estágio da realização plena. Seus avós derrubaram João Goulart sob ...