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O ESTUPRO COLETIVO E A ÉTICA ESTUPRADA NAS MÍDIAS SOCIAIS


Um episódio revoltou o país.

Uma menina de 16 anos foi visitar o namorado em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, no último dia 21 de maio, e foi rendida por um grupo de 30 homens que a doparam e estupraram.

É o mesmo dia 21 de maio em que um internauta maníaco pela apresentadora de TV Ana Hickmann quis se vingar da falta de atenção e invadir o hotel onde ela estava em Belo Horizonte, para ser morto depois que lutou com o cunhado dela.

Quanto aos estupradores cariocas, eles estupraram a jovem e gravaram um vídeo e publicaram quatro dias depois.

Os internautas curtiram e compartilharam o vídeo, que viralizou.

Para piorar, muitos comentários eram elogiosos ao feito. "A menina tá folgada", ironizou um deles.

Essa truculência mostra a brutalidade que existe nas mídias sociais.

E revela um protocolo machista que eu pude observar nos tempos do Orkut.

Esse protocolo sempre recomendava aos internautas endeusar mulheres siliconadas e nunca falar mal das chamadas mulheres-objetos.

O homem que declarar não gostar dessas mulheres é visto como "gay", da forma pejorativa que se conhece dos homofóbicos que, de tão preconceituosos, também expressam preconceito contra os heterossexuais mais decentes.

Se o cara é um nerd - não no sentido "Campus Party", "Se Beber Não Case" ou "cervejão-ão-ão" do termo, mas no sentido Vingança dos Nerds - , o protocolo impõe que ele tenha que valorizar e desejar uma mulher-fruta ou coisa parecida, como se fosse a "mulher de seus sonhos".

Se não o fizer, será humilhado na rede.

O machismo nas mídias sociais tem dessas coisas.

Prega a "cultura do estupro", o sexismo brutal, a coisificação da mulher.

Já observei internautas dizendo que "mulher sensual" não precisa ser inteligente.

Isto é, chegam a dizer que o charme da mulher sedutora é justamente a burrice e a estupidez.

E é assustador que algumas dessas siliconadas tenham muitos seguidores no Instagram, fazendo elogios a essa mercantilização do corpo feminino.

E é assustador que existam "musas" que aceitem felizes essa humilhação, incluindo uma quarentona descasada com uma filha crescida.

É esse contexto que estimula trinta homens se reunirem para estuprar uma moça.

Algo que só pode ser definido como trogloditismo, de tão obviamente desumano.

A moça pode não ter sofrido, fisicamente, mais do que a natural agressão do estupro, mas sofreu a pior dor que é o trauma da lamentável experiência sofrida.

Os agressores provavelmente combinaram encontro no WhatsApp para pegar a "novinha".

E fizeram com que ela passasse a ter medo de sair na rua, passando a viver um clima de tristeza e pavor.

E ver que nas mídias sociais há quem faça festa com esse trágico episódio é mais preocupante ainda.

E mostra o quanto os midiotas chegam a certas posturas psicopatas.

Quantos valores retrógrados são defendidos por internautas que têm o verniz do visual moderno, da linguagem irreverente, do uso de tecnologia avançada e da pouca idade.

A "cultura do estupro" e outras aberrações machistas, como o endeusamento de mulheres-objetos e a defesa do emburrecimento da mulher como uma qualidade atraente, mostram o quanto esses ciber-brutamontes parecem viver na Idade Média.

"É só questão de idade", advertiu Renato Russo sobre os reaças de seu tempo, parecidos com os das mídias sociais.

Passando dessa fase, os midiotas que fazem cyberbulling e bancam os tiranos digitais nas mídias sociais serão os Eduardo Cunha de amanhã, ditando o obscurantismo nos seus postos de poder.

A não ser que possamos reagir para barrar a ascensão desses trogloditas contemporâneos.

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