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INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA "MATOU" BELCHIOR


Com o falecimento do grande compositor Belchior, figura excêntrica mas notável da Música Popular Brasileira, muita gente pegou carona na tragédia.

Até os tabloides brega-popularescos colocaram o óbito na capa.

Intelectuais "bacanas" choraram sua morte, falando num "artista insuperável" e por aí vai.

Jovens colocaram seus "lamentos" nas mídias sociais para, no dia seguinte, irem para suas festas de "funk" e "sertanejo" de sempre.

Quanto à intelligentzia considerada "mais legal do país", intelectuais que buscam o carisma num país de anti-intelectualismo (que barra similares de Umberto Eco e Noam Chomsky nas entradas da pós-graduação), a "perda irreparável" pode ser por eles responsabilizada.

Belchior era um artista "maldito" e excêntrico, incompreendido e batalhador, tendo sido também executivo de selos independentes para divulgação de artistas alternativos.

Ele havia sumido de cena, independente de ter contraído dívidas ou problemas pessoais, porque ele se recusava a ser celebridade e bater ponto no show business.

Belchior virou o Raul Seixas da vez. Vivo, era desprezado e esnobado. Morto, vira alvo de "saudosas manifestações" daqueles que fecharam a cara só de ouvir seu nome.

A música "Como Nossos Pais" é indicativo do desprezo social por Belchior.

Consagrada na voz de Elis Regina, a música é, na verdade, uma crítica à acomodação juvenil nos anos 1970, comparável à geração conservadora de seus pais.

Certa vez, num especial da Rede Globo, Zezé di Camargo e a filha Wanessa cantaram a música, em total falta de noção da letra, tirando-a de seu contexto original.

Com o mesmo (des)conhecimento de causa, Chitãozinho & Xororó e Daniel, a dupla e o cantor em separado, gravaram versões de "Disparada", de Geraldo Vandré.

"Disparada" é uma dura crítica à opressão latifundiária ao povo camponês.

Chitãozinho & Xororó e Daniel são patrocinados por latifundiários. Aliás, a dupla paranaense é ela própria também proprietária de ricas fazendas.

Desde o fim do governo Fernando Henrique Cardoso os neo-bregas tentam se "emepebizar" sob a desculpa do "combate ao preconceito" e "valorização da diversidade musical".

E a intelectualidade associada tentou ajudar de toda forma possível, fazendo o serviço free lancer dos barões da mídia, mas fazendo proselitismo nos periódicos de esquerda.

Tentaram nos convencer de que o "funk", o "sertanejo", a axé-music, o "pagode romântico" e similares iriam levar os "malditos" da MPB para o gosto do grande público.

Sobretudo o "funk", que os intelectuais promoviam sob a falsa imagem de "síntese de tudo".

Tentaram convencer, sob a desculpa do "combate ao preconceito", que o "funk" era um caleidoscópio que misturava punk, psicodelia, Bossa Nova, Modernismo, Tropicália, ativismo, marxismo etc.

Conversa para boi dormir. É só ver uma apresentação de "funk" ou tocar um CD do gênero e NADA do que a intelectualidade disse foi encontrado. Preconceituosos somos nós, que criticamos o "funk"?

Pois há uns anos atrás, acreditava-se que o "funk" levaria a vanguarda da MPB para as rádios. Grande ilusão.

Diante disso, víamos Belchior se isolando e se recusando a fazer papel de palhaço no show business, diante da breguice que dominava mais e mais espaços, até os da própria MPB.

Em 2009 Belchior deu um sumiço e a mídia tirou um sarro disso, tratando o cantor como se fosse um doidão irresponsável.

A MPB é que tinha "doidão" e "fanfarrão", a música brega-popularesca é que tem "gente como a gente", dizia a mídia venal.

Quanto sarro tirou a mídia sensacionalista ao noticiar Chico Buarque caminhando no Leblon.

Evidentemente Chico Buarque foi o mais atacado pela intelligentzia, até pelo seu carisma e por ser um grande articulador cultural de artistas e tendências "difíceis" para o mercado.

Tardiamente, a intelectualidade "bacana" teve que aceitar uma parcela da MPB, seja alternativa ou tradicionalista, para jogá-la contra Chico Buarque.

Do além, Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio eram jogados no balaio de gatos que incluía bregalhões da pesada que se perderam em algum arquivo VHS do Qual é a Música.

Belchior tinha uma repercussão morna, embora fosse o "palhaço" de bigode que dava sumiço sem explicação.

E os mesmos que ridicularizaram Belchior há oito anos deram suas "lágrimas de crocodilo" quando ele faleceu.

Agora até aqueles que se iludiram com os clamores dos intelectuais "bacanas" admitem que existem medalhões do brega-popularesco que atrapalharam a sobrevida de nossa MPB mais genuína.

Belchior faleceu marginalizado e injustiçado como tantos.

A intelectualidade "matou" Belchior ao dizer que a MPB não pode ter seus próprios espaços, mas também que os espaços da MPB devem ser entregues aos bregalhões.

A intelectualidade "bacana" discriminou Belchior nas suas criações mais recentes e contribuiu para ele sucumbir ao limbo que contribuiu para sua morte.

A MPB anda muito machucada com várias perdas recentes.

No ano passado, perdemos Vander Lee, um dos poucos que renovaram a música brasileira nos últimos 25 anos.

As "esquerdas médias" ignoraram o óbito, preferindo cair na falácia da "guevarização" de um fato inócuo no Jornal da Globo, quando William Waack fez uma piadinha irônica à cantora Anitta.

Lee, com seus grandes clássicos, já não estava mais vivo e as "esquerdas médias" preocupadas em ver numa cantora pop uma "Anitta Garibaldi" supostamente enfrentando os barões da mídia e seus porta-vozes.

A MPB, com M maiúsculo de "música", está desaparecendo aos poucos, numa erosão gradual.

Daí ser preocupante que os emepebistas se acomodem, resignados, fazendo revival de si mesmos, como se estivessem fazendo uma retrospectiva de despedida.

O falecimento de Belchior é a perda de mais um artista ímpar de MPB.

O pior é que, depois, virão os neo-bregas de 1990, "pagodeiros" e "sertanejos", pegando carona na MPB e parasitando alguma música de Belchior.

Tudo bem arranjadinho (não pelos cantores e grupos, claro, mas por arranjadores de MPB a seu serviço), interpretado com canastrice exemplar, sob aplausos da plateia.

Tudo corretinho, bonitinho, bem ensaiado e muito profissional. Mas isso não é MPB de verdade.

Uma coisa é o bregalhão veterano dos anos 90 fazer uma cover de Belchior sorrindo para a plateia e fazendo gestos e movimentos calculados para forjar uma interpretação "emocionada".

Outra coisa é um artista genuíno como Belchior mostrando seu talento e suas ideias com autenticidade e brilhantismo.

Não temos mais Belchior. Mas, ao menos, que também não tenhamos neo-bregas parasitando seu repertório em canastrices pseudo-emepebistas.

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