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DONA IVONE LARA E A QUESTÃO DA MPB NO RÁDIO


A figura de Dona Ivone Lara talvez possa ajudar muitos a compreenderem por que se critica, hoje, a Jojo Toddynho.

Negra, gordinha, Dona Ivone foi um exemplo de profunda dignidade artística. Um nome íntegro de nossa música, que se impunha sem forjar provocatividade nem apelar para o "mau gosto".

Ela foi uma das grandes compositoras do samba autêntico, um ritmo que está sendo deixado de lado tanto pelo "sambrega" ou "pagode romântico" - que soa como um arremedo ruim de soul music ou pastiche de samba mais acessível, tipo Zeca Pagodinho - ou pelo "funk".

Isso é triste. Estão morrendo os grandes artistas da MPB e eles ainda morrem novamente condenados ao gradual esquecimento que se faz com a pretensa reverência passadista.

A reverência passadista é quando se faz comentários aparentemente elogiosos a ídolos do passado, seja por interesses de apropriação, seja para confinar os veteranos num contexto passadista.

Os próprios ídolos do sambrega já tentaram se apropriar de Djavan, Lupicínio Rodrigues e até de Wilson Simonal.

No caso do passadismo, o exemplo é o excesso de tributos à MPB que mais parecem rituais de despedida.

Causa calafrios. São homenagens que não cessam jamais, como uma pré-nostalgia, uma saudade do que vai deixar de ser presente.

Enquanto isso, a MPB carece de maior espaço nas rádios.

Sabe-se que, com o fim da MPB FM, as rádios de pop adulto, pelo menos, deveriam aumentar o espaço de MPB na programação diária.

Entendemos que essas rádios não podem deixar de tocar música estrangeira, mas tocar o tempo todo fhash backs gringos, sob a desculpa de "música de todos os tempos", é osso duro de roer.

Ninguém está mais aguentando ouvir aqueles mesmos hits de Christopher Cross, Hall & Oates, Simply Red, Tina Turner, Eurythmics, etc, etc, etc.

Sucessos que perderam a aura do tempo em que foram gravadas, já nem dizem mais da saudade que representariam.

Que adianta a música tal ter sido gravada em 1982 ou 1975 se ela, de tão tocada hoje como se fosse um hit do momento, deixou de lembrar a época original?

Daí que a solução de trocar os flash backs gringos por canções antigas ou novas de MPB autêntica é uma solução.

Mas, infelizmente, as rádios de pop adulto (ou "adulto contemporâneo", que é seu "nome de fantasia" no mercado) são surdas aos apelos dos ouvintes.

Seus gerentes artísticos, cheios de pose e voz firme, se acham os donos da verdade e como, em tese, carregam a bandeira da "boa música", acham que só eles decidem o que fazem e não toleram críticas.

Se são criticados ou cobrados, mudam a programação da emissora por duas semanas, aceitando temporariamente as sugestões dos ouvintes.

Passadas as duas semanas, voltam à pasmaceira de antes. Até parece que o público-alvo dessas rádios são os editores brasileiros que representam o copyright desses sucessos mofados do estrangeiro.

Eles pagam a aposentadoria dos cantores gringos, sobretudo aqueles que só lançaram um sucesso e sumiram sem deixar rastros.

Mas lançar músicas novas de MPB e tocar clássicos menos conhecidos, as FMs adultas não fazem, mesmo que seja para cobrir, ainda que parcialmente, a lacuna da MPB FM.

Infelizmente, o rádio é um meio de formar o gosto musical dos mais jovens, principalmente numa terra de "maria vai com as outras" que é o Grande Rio.

Seria mais preferível que os flash backs gringos, as tais "músicas de todos os tempos", só tocassem o tempo todo na Antena Um FM, e, fora isso, que os ouvintes vão procurar as músicas no YouTube ou montem seu MP3 para isso.

Até o compositor Toquinho, recentemente, reclamou que falta MPB nas rádios brasileiras.

Enquanto isso, já tem gente querendo esfolar os caras do simpático grupo Information Society por causa de tanto "Repetition" que As FMs adultas tocam, com a frequência de um sucesso do momento.

Quando se perde um nome da MPB, se perde duas vezes, uma pelo fim da vida e outra pelo descaso e pelo desprezo.

Esse desprezo tem que terminar. E as FMs adultas, pelo menos, deveriam sair dessa sua zona de conforto das "verdades absolutas" impostas pelos seus gerentes artísticos.

Caso contrário, o que dava certo há 25 anos vai ser a causa do prejuízo de muitas dessas rádios e sua mesmice em parecer com as rádios novaiorquinas de 30 anos atrás.

Se elas pudessem tocar mais MPB, deixando para o fim de noite o flash back gringo, estariam ajudando até a melhorar sua reputação, há muito arranhada.

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