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GOLPE POLÍTICO E A QUASE 'MEA CULPA' DA MÍDIA HEGEMÔNICA


A grande mídia e seus serviçais - alguns atuando nas trincheiras adversárias - de vez em quando tentam expor fatos que parecem, à primeira vista, quase sugerir alguma mea culpa sobre o cenário sócio-político atual.

Atualmente o golpe político, reciclado com a prisão do ex-presidente Lula, caminha para seu fortalecimento, seja da maneira supostamente generosa de um projeto "liberal" ainda sem candidato favorito, seja da forma radical do bolsonarismo.

Dois exemplos mostram o quanto representantes da mídia venal falam, sem querer, de efeitos provocados ou agravados pelo golpe político atual.

Um é a revista Isto É, que na capa de sua edição de 02 de maio de 2018, mas já nas bancas desde a última sexta-feira, ela cita os casos de três suicídios ocorridos num intervalo de dez dias.

Os suicídios de dois alunos adolescentes, um de 16 e um de 17 anos, ocorreram no Colégio Bandeirantes, na Zona Sul de São Paulo. Um terceiro ocorreu no Colégio Agostiniano São José, na Zona Leste da capital paulista.

Aparentemente, nenhum dos mortos era vítima de valentonismo (bullying), mas, provavelmente, de dois pontos apontados pela chamada de capa do periódico dos Alzugaray.

Os motivos foram "intolerância no sofrimento" e "limites da competitividade".

Defensora do golpe político que levou Michel Temer ao poder, Isto É apoiou o "pacote de maldades" que representam o fim de muitas conquistas sociais.

Com essa linha, evidentemente Isto É passou a defender um padrão social marcado pela competitividade voraz e pelas formas opressivas de ascensão social que vêm desde a escola.

É irônico que a revista que defendeu a reforma trabalhista, a reforma da Previdência Social e o congelamento dos gastos públicos venha a, aparentemente, lamentar os suicídios de estudantes ocorridos recentemente em São Paulo.

Outro exemplo é o texto de Eduardo Nunomura, sobre o segundo volume da Enciclopédia do Golpe, que ele escreveu para Carta Capital.

Nunomura descreve o livro e cita depoimentos dos autores, como Maria Inês Nassif e Miguel do Rosário, e também menciona o curso "golpe de 2016" lançado em várias universidades brasileiras e algumas estrangeiras.

Integrante do portal Farofafá e braço-direito de Pedro Alexandre Sanches, Nunomura participou da campanha pela bregalização cultural do Brasil.

Essa bregalização, que rebaixa a cultura popular a uma coleção de formas comerciais de expressão que tratam o povo pobre de maneira caricata, também é um fator que contribuiu muito para o golpe político que, de etapa em etapa, se desenvolve nos últimos anos.

O "funk", principal carro-chefe dessa empreitada, tornou-se o "Cabo Anselmo" do momento, com um falso esquerdismo pretensamente revolucionário que, na verdade, mais imobilizou o povo pobre com a espetacularização da miséria com o "orgulho de ser pobre" e o "ufanismo das favelas".

Paralelamente aos movimentos populares de junho de 2013, depois desvirtuados e apropriados por projetos reacionários como o Movimento Brasil Livre (aka Movimento Me Livre do Brasil), episódios culturais também contribuíram para o golpe político de 2016.

O episódio Procure Saber, no qual artistas de MPB estavam associados ao protesto contra biografias não-autorizadas, acabou sendo um casamento secreto de intelectuais "bacanas" - pró-brega e tidos como "de esquerda" e os chamados "calunistas" da mídia venal.

De repente, Pedro Alexandre Sanches e Reinaldo Azevedo se uniram nos comentários hostis a Chico Buarque de Hollanda.

Por outro lado, Sanches recorria aos "queridinhos da Globo" Luan Santana e Thiaguinho para fazer contraponto ao suposto "coronel da Fazenda Modelo".

Nessa mesma época, o funqueiro-ostentação MC Guimê, apoiado por Sanches, virava capa da reacionária revista Veja.

E os rolezinhos nos shopping centers, junto ao "funk ostentação", mostravam um apetite consumista que pode, em breve, revelar o "pobre de direita", uma "novidade" ainda mal digerida, como até pouco tempo atrás foi o "roqueiro de direita" (fruto de paradigmas culturais da paulista 89 FM).

O biênio 2013-2014 foi, talvez, o primeiro em que o "popular demais" revelava ser um produto da mídia hegemônica, e não uma suposta rebelião popular.

Desde então, vieram surtos reacionários de ídolos defendidos por Sanches, o principal da parte de Zezé di Camargo (em 2005 blindado pelas "esquerdas médias"), que expressou apoio ao tucano Aécio Neves.

Junto a ele, até artistas e intelectuais que apoiaram o "funk" também deram seu voto ao tucano mineiro, hoje em crise de reputação por ter se tornado réu de suposto esquema de corrupção.

Mesmo o "apoio sincero" da Furacão 2000 do amigo de Luciano Huck e parceiro da Globo, Rômulo Costa, foi muito mais uma armação para abafar os protestos do PT contra o golpe do que um suposto reforço para a manifestação contra o impeachment, em 17 de abril.

Foram esses incidentes, que de uma forma ou de outra eram feitos em favor do "popular demais" ou brega-popularesco, que deixaram o povo pobre fora do debate político.

Ocupado no entretenimento do "mau gosto" e da "autoesculhambação". Também, se falou que "descer até o chão" era ativismo e nenhum pobre precisava discutir temas como direitos trabalhistas e reforma agrária, o povo pobre ficou de fora das discussões estratégicas.

Resultado: os "simpáticos" intelectuais pró-brega, que iam para a mídia progressista dizer que "o jabaculê de hoje é o folclore libertário de amanhã" abriram o caminho para o golpe.

A dupla Sanches-Nunomura contribuiu muito com isso, exaltando formas caricatas de expressão cultural que glamourizavam o mau gosto, a miséria e outras debilidades que o povo pobre convive a contragosto.

E hoje, depois do golpe político, temos Sanches entrevistando Jessé Souza, sem se dar conta que o "filho da Folha" se enquadra no "culturalismo intelectual" criticado pelo sociólogo.

E Nunomura, agora, entrevistando intelectuais genuínos que contestam o golpe político dos últimos anos.

Sanches e Nunomura contribuíram para tirar o povo da sua própria mobilização política, e agora tentam limpar, em vão, o prato em que cuspiram.

Assim como a Isto É, que defende formas opressivas de emancipação humana para depois lamentar o suicídio de suas vítimas.

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