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SODA STEREO E A PRECARIEDADE DA CULTURA ROCK NO BRASIL

SODA STEREO, EM 1984 - CHARLY ALBERTI (E), ZETA BOSIO E GUSTAVO CERATI.

A banda Soda Stereo, que marcou a história do rock argentino e era liderada pelo guitarrista Gustavo Cerati, falecido em 2014 após quatro anos em coma, tem uma boa lição para dar aos brasileiros.

O Soda Stereo teve uma trajetória ímpar nos anos 1980 e 1990 e era dotado de profunda bagagem de informações musicais.

O grupo foi do ska ao shoegazing - tendência do rock alternativo surgida na Inglaterra e subestimada pelos brasileiros - em composições bastante consistentes e vibrantes, sobretudo vindas do talento ágil e criador de Gustavo.

O Soda Stereo surpreende os brasileiros não porque as bandas contemporâneas careciam de informação musical.

Até tínhamos: Barão Vermelho, Titãs, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana e mesmo Kid Abelha possuem uma boa bagagem musical.

Mas, entre nós, a banda que mais foi longe em bagagens musicais foi Legião Urbana, por garimpar mais em tendências alternativas, mas as demais fizeram sua parte.

Tardiamente, observamos, por exemplo, ecos de Byrds em algumas músicas do Barão e do Kid Abelha, e os Titãs e Paralamas, respectivamente, apresentaram aos brasileiros o Devo e o Madness antes deles chegarem a ter músicas usadas em campanhas publicitárias daqui.

Mas a Legião Urbana, que se iguala ao Soda Stereo pelo fato de seu vocalista e líder não estar mais entre nós, chegou a assimilar, tal qual o colega argentino, influências do Ride.

O Ride, para quem não sabe, foi uma banda de shoegazing de Oxford, surgida pouco antes do Radiohead (este da tendência britpop, que é uma espécie de shoegazing menos criativo).

Nem as aparências de galãs dos membros do Ride, como os guitarristas e vocalistas Andy Bell (não confundir com o xará do Erasure) e Mark Gardener, convenceram os brasileiros a prestar atenção na banda.

O som do Ride era uma atualização do rock psicodélico com as influências do alternativo britânico dos anos 1980. Algo entre Byrds, Velvet Underground e Syd Barrett.

Ou também do pouco conhecido The Creation, grupo mod dos anos 1960, que chegou a excursionar com o próprio Ride.

Os últimos anos do Oasis tiveram Andy Bell na formação. Ele trocou o instrumento, da guitarra para o baixo, e deu um tempo ao posto de vocalista.

Mas o público não viu.

Numa cultura rock cujas rádios "especializadas" tinham o modus operandi (e a canastrice burra) da Jovem Pan 2, onde Guns N'Roses, a azeitona da farofa poser, é visto como "rock clássico" e o System of a Down, tão mainstream quando o Justin Bieber, é tido como "alternativo", isso faz sentido.

E tudo isso com um público roqueiro que chegou a dizer que o baterista do Nirvana e o cantor-guitarrista dos Foo Fighters eram pessoas diferentes.

Então, se não conseguem ver que o Dave Grohl das duas bandas é o mesmo cara, imagina se o roqueiro médio brasileiro vai se preocupar em procurar um ex-Ride tocando com os irmãos Gallagher.

Na Argentina, o Soda Stereo foi muito popular trazendo o Ride para seu público, de forma que certos radicais acusaram o Soda Stereo de "Cópia Stereo" ao assimilar influências da banda de Oxford.

E não só o Ride: o Soda Stereo assimilou influências do Squeeze e do XTC, seminais bandas britânicas que o roqueiro médio brasileiro, que mal consegue ouvir cinco sucessos dos Smiths, não tem o menor escrúpulo em desprezar.

O Soda Stereo também assumiu influências do Police, banda aqui muito conhecida até, mas que o roqueiro médio conhece de maneira bastante superficial e equivocada.

Aqui o Police soa mais como banda de acompanhamento de Sting, e somente as composições dele são ouvidas.

Muitos se esquecem que o Police gravou também excelentes composições de Andy Summers e Stewart Copeland, dois músicos ímpares e com carreiras-solo mais instigantes que a "stingante" carreira de Sting.

A cultura rock brasileira está em baixa porque ela mesma se tornou vítima de seu pragmatismo, como se fosse suficiente manter a rebeldia na pose, com gestos clichês e caricatos como fazer sinal do demônio com as mãos, fazer guitarra invisível (air guitar) ou botar língua para fora.

Esse pragmatismo viciado, uma espécie de "zona de conforto" de valores básicos, banais (e, não raro, caricatos), acabou afundando a cultura rock, que não se segurou sequer no seu complexo de superioridade.

Aquela coisa do "jaquetão" é até evidente, mas o problema é a tradução "Jovem Pan" dessa pose de malvado pelos "Emílio Surita de jaqueta" que pilotaram a 89 FM e Rádio Cidade, "rádios rock" que nunca foram mais do que pequenos satélites do "sistema solar" de Tutinha.

Essas rádios criaram até uma aberração que é o "roqueiro fã de um só sucesso", criando a vergonha de rebaixar grupos veteranos como AC/DC e Deep Purple a one-hit wonders.

Seus "únicos" sucessos, "Back in Black" e "Smoke on the Water", serviam de trilha sonora para patetas metidos a rebeldes fazerem guitarra invisível com linguinha de fora e mãos simulando os chifres do capeta.

E nem falamos do "único" sucesso do Steppenwolf, a banda-clichê dessa rebeldia estereotipada (apesar da banda ter sido realmente muito boa), "Born to be Wild", banalizada pela apropriação que o establishment pseudo-roqueiro fez dessa banda pós-psicodélica popularizada pelo filme Easy Rider.

A música passou a ser tocada em programas do tipo "Torpedo da Pan" que estão perdidos nas horas diárias diversas das "rádios rock" daqui.

Nem mesmo o fato de, tardiamente, descobrirem a música "Revolution" do Cult (que alguns palermas chegaram a pensar que era cover dos Beatles), diminuiu o caráter patético.

Afinal, o Cult também virou uma banda de "um ou dois sucessos", se os palermas puderem pensar em "She Sells Sanctuary". Ou se lembrarem que o Cult também gravou "Born to be Wild".

Os roqueiros argentinos são mais antenados, sabem que hit-parade roqueiro não é tudo e não ficam defendendo o Guns N'Roses como uma espécie de "Jair Bolsonaro do rock", como fazem os roqueiros daqui.

Há muita informação menos óbvia rolando entre os argentinos e a história do rock de lá é muito consistente e vibrante.

Aqui a História do Rock Brasileiro parou em algum canto dos anos 1980 ou começo dos 1990, entre uma ousadia shoegazer de Second Come e brincando de deus e uma brasilidade de Chico Science & Nação Zumbi.

Depois, salvo exceções, o que veio foi uma diarreia sonora que mistura grunge, poppy punk, poser metal, nu metal e a turma do Chaves e Chapolin.

Fora aqueles sub-Queens of the Stone Age, que soam mais como CPM 22 metido a ter papo-cabeça, mas cujos integrantes posam como o Weezer na capa de seu primeiro LP.

E, claro, aquela visão pragmática de se "contentar com o básico".

Daí que a cultura rock, no Brasil, tornou-se uma vergonha que favoreceu os "pagodeiros" e "sertanejos" que eram hostilizados pela roqueirada caricata lá pelos idos de 1995-2006.

E até os funqueiros também devem agradecer muito aos caricatos roqueiros brasileiros que devem ter medo de ouvir Soda Stereo só porque suas canções são em espanhol.

Os Paralamas do Sucesso e, com menor competência, o Capital Inicial da fase teen atual, chegaram a gravar versões da música "De Música Ligera", famoso hit do grupo argentino.

Alguns discos do Soda Stereo foram lançados discretamente no mercado brasileiro, e a Fluminense FM tocava em eventuais ocasiões.

Lembro que a Flu havia anunciado um Modulo Especial - programa de cerca de meia-hora que focaliza um artista e começava, de segunda à sexta, às 13 horas - com o Soda Stereo.

Isso lá nos anos 1980.

O falecimento de Gustavo Cerati comoveu a Argentina, indo além dos círculos roqueiros e até refletindo no exterior. No Brasil, as duas bandas que gravaram "De Música Ligera" manifestaram pêsames à tragédia.

Fora isso, resta uma grande lição do Soda Stereo e da figura de Gustavo Cerati - também com uma consistente carreira-solo deixada como legado - para o público brasileiro.

A de que não se pode permanecer nas zonas de conforto do "básico" que, no caso da cultura rock, a destruiu a ponto de abrir caminho para a bregalhada que monopoliza os ouvidos juvenis hoje.

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