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O "PEPINO" QUE A RÁDIO CIDADE ARRUMOU CONTRA SI


Todo mundo vai para a cama tranquilo porque ouve algum rock na programação canastrona da Rádio Cidade, no Rio de Janeiro.

Até mesmo os órfãos da Fluminense FM que, espalhados entre o pessoal e o público da Kiss FM Rio, Cult FM e Maldita 3.0, passaram a passar pano na medíocre emissora, que nunca foi, desde 1995, mais do que uma FM pop com vitrolão roqueiro.

Ou seja, se há "alguém" roqueiro na Rádio Cidade, eles são o toca-CD e o pendrive. De resto, só "profissionais de rock" que fazem o jogo das grandes gravadoras e das editoras representantes de direitos autorais dos hits roqueiros aqui divulgados.

O grande problema é que a Rádio Cidade, sofrendo da "síndrome de Michael Jackson" (o ícone pop que um dia teve obsessão em parecer "roqueiro"), arrumou um "pepino" contra si.

O pessoal está todo alucinado que não percebe uma série de problemas, talvez iludido que, como a Rádio Cidade é ligada aos "peixes grandes" do empresariado de shows no Rio de Janeiro, ela teria cacife para representar o segmento rock. Mas não tem.

Primeiro, o nome "Rádio Cidade" é horrível para rádio de rock. Soa cafona e, além disso, não tem o menor diferencial. 

O nome "Rádio Cidade" existe aos montes em todo o país, com vários perfis (tem até evangélica e popularesca). Não cola esse papo de "Rádio Cidade, a original".

Segundo, o rock está em baixa no mundo inteiro. Só o narcisismo fundamentalista e extremamente arrogante dos ouvintes da Rádio Cidade - que se acham os donos da verdade, seja no rock, seja no mundo - é que pensa que não.

Eles não ouvem 1% sequer do que é e foi produzido em canções e intérpretes de rock e acham que podem dar seu julgamento de valor e mandar até nos roqueiros que já morreram.

Daí que não dá para dialogar sobre rock com esse pessoal. É mais proveitoso conversar sobre rock com Alceu Valença, Zé Ramalho e Ronnie Von.

Terceiro, porque a Rádio Cidade é um duplo faz-de-conta: a rádio finge que é rádio rock, os ouvintes fingem que são roqueiros.

Percorro tudo quanto é lugar e os ouvintes da Cidade lembram tudo: fãs de "sertanejo", de "funk", de "pagode romântico", de MPB carneirinha e canções da Velha Guarda, como um "tiozão" numa banca de jornais do Centro do Rio de Janeiro. Só não têm jeito nem comportamento de roqueiros.

E aí a Rádio Cidade criou um sério impasse. A rádio assumiu para si responsabilidades terríveis das quais se tornou forçada a seguir, traindo a sua origem.

Aliás, a emissora deu para mentir, despejando propaganda enganosa com os lemas "A rádio rock original do Rio" e "Rádio Cidade, só a original", que seguem ao lema anterior, o demagógico "Rock de Verdade".

Duas mentiras vergonhosamente exorbitantes.

Primeiro, a Rádio Cidade original tocava pop convencional, ainda que incluísse grandes nomes como Earth Wind & Fire, Chic, Gino Vanelli e o nosso Guilherme Arantes.

A Rádio Cidade original respirava pop e não tinha a ver a essa rádio com jaqueta de couro feita camisa de força que a emissora se tornou de 1995 para cá, descontadas alguns hiatos.

Segundo, "rádio rock original" nunca foi a Rádio Cidade. Antes dela, rádios com uma competência e vocação infinitamente maiores, como a Federal AM, a Eldo Pop e a Fluminense FM, assumiram o perfil rock, há três décadas nunca devidamente superadas.

No máximo, o que tivemos e temos são rádios competentes com raio de sintonia limitado, seja a antiga rádio comunitária Progressiva FM, seja a Cult FM, que, para ser sintonizada na rua, precisa de uma permanente recarga do telefone celular.

E ver que um dos principais locutores da Rádio Cidade, Demmy Morales, é daquela turma de DJs saradões que se dividiram, nos anos 1990, entre a Jovem Pan Rio e a Cidade, é constrangedor.

Vocês ouvem o "Cidade do Rock" e difícil não se lembrar das locuções da Mix FM. Os ouvintes da Rádio Cidade odeiam a comparação com rádios pop convencionais, mas eles têm que aceitar essa realidade.

Os locutores da Rádio Cidade parecem "sobras" das rádios pop, a não ser um ou outro locutor que mais parecem sobras de locutores noticiaristas da Rádio Tupi (!). As locutoras femininas são um mal menor.

E aí surge um "pepino": os locutores animadinhos, incluindo o próprio Demmy (que é da mesma escola de Emílio Surita, da Jovem Pan), mesmo com sua fala e entonações enjoadas, precisam ser mais contidos.

Em nome do protocolo "roqueiro", eles têm que ficar presos ao texto e não podem improvisar muito, até porque eles não têm conhecimento de causa e, portanto, é mais fácil se prender aos textos escritos por outros redatores, que trabalham na produção.

O "pepino" está no fato de que a Rádio Cidade, para preservar os novos dedos, precisa jogar fora o seu maior diamante: a transformação da linguagem do FM no Brasil.

Como a própria Rádio Cidade passou a renegar sua vocação pop (que era melhor trabalhada pela emissora), devido a um ciúme doentio da Fluminense FM (que a fez, em 1985, contratar a nata da emissora niteroiense), a antiga façanha de 1977 parece ter perdido o valor.

Os donos da Rádio Cidade poderiam ter extinguido a emissora em 1995, porque assim sua trajetória teria sido encerrada de cabeça erguida. Poderiam ter criado uma rádio com outro nome, trajetória surgida do zero e com locutores mais apropriados para o perfil rock.

Essa teimosia de manter a marca "Rádio Cidade" e, ao mesmo tempo, investir num pastiche de rádio rock só está causando problemas, que a médio prazo ficarão ainda mais graves.

A audiência nem é tão boa assim quanto se pensa, porque ela se baseia no truque das sintonias alugadas em estabelecimentos comerciais e na ênfase de conquistar um público que nunca ouviu rock na vida e que só recorre ao gênero para soar mais "americano" e "durão".

A programação da Rádio Cidade continua sendo medíocre (na melhor das hipóteses), abaixo até da fase medíocre da Fluminense FM entre 1991 e 1993, por mais que pareça esforçada aos olhos de leigos e complacentes.

Em dado momento, a Rádio Cidade até parece tocar algo mais "difícil", tipo Robert Cray e algum sucesso de Neil Young e Frank Zappa.

Mas quase sempre a Cidade empaca e sucumbe a sucessos fáceis como "Don't Speak", do No Doubt, que a Jovem Pan Rio dos anos 1990 já tocava.

Ouvindo a Cidade em três dias, fica parecendo que a rádio tem curto fôlego e em dado momento cai no piloto automático, o que diz muito para uma emissora sem vocação natural para o rock.

Antes tivéssemos a Oi FM de volta, capaz de avançar mais num pop mais conceitual, do que uma Rádio Cidade prisioneira de jaquetas de couro.

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