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O RISCO DO FUNDAMENTALISMO FUNQUEIRO


As narrativas vitimistas que blindam o "funk" no Brasil, depois que Lula sancionou o "Dia Nacional do Funk", podem complicar ainda mais as coisas. Ainda que tenha creditado a escolha da data a um evento de funk autêntico, é o chamado "batidão" de 1989 para cá que se sentirá não só empoderado, como também ficará cada vez mais arrogante e dominador. E, acima de tudo, vitimista.

Marcado pela profunda precariedade musical e cultural, o "funk", tal como se conhece no Brasil ultimamente, não merece homenagem alguma. É um ritmo marcado pela péssima qualidade musical, fruto de um profundo e radical rigor estético que faz o ritmo ser prisioneiro de sua própria ruindade musical e pela sua cultura apegada a baixos valores comportamentais, como a erotização extrema e o machismo, mesmo o estrutural, que alimenta o pretenso feminismo das intérpretes funqueiras.

A blindagem em torno do "funk" envolve uma série de questões acerca dessa defesa persistente e do falso discurso de "resistência" que só serve de desculpa para alimentar um mercado milionário, patrocinado pelos barões da mídia, por empresas multinacionais e até por ONGs ligadas do Departamento de Estado dos EUA (Fundação Ford e Soros Open Society).

Sem querer enumerar todas essas questões aqui, pois elas já apareceram em outros textos deste blogue - que, com exclusividade jornalística contundente, denunciou o envolvimento de Rômulo Costa e da Liga do Funk com o golpe de 2016 que fingiram combater - , devemos aqui alertar sobre o perigo desse empoderamento do "funk" que, do contrário que muito se alardeia, nem de longe trará benefícios para o povo pobre da vida real.

Isso porque a narrativa de "pobreza" que o "funk" tanto fala corresponde ao pobre domesticado, ao "pobre" das novelas e das comédias da TV, que pode ser contagiado por um complexo de superioridade que já faz o "funk" exercer sua supremacia nos subúrbios, aprisionando o pobre em geral na simbologia da miséria, pois, infelizmente, a intelectualidade "bacana", com seu discurso da "pobreza linda", fez a miséria popular ser vista não mais como um problema grave, mas como uma suposta identidade sociocultural.

Essa visão falsamente generosa é consequência de uma ordem social que está dominando o Brasil há 60 anos, desde que lutaram para derrubar João Goulart. Como, através da ditadura militar, essa elite do atraso moldou o Brasil de forma com que os antigos agentes da mobilidade sociocultural foram praticamente defenestrados, dos camponeses aos intelectuais de pensamento mais crítico, a burguesia enrustida que está no poder já se acha no luxo de fingir ser de esquerda para receber os patrocínios de Lula às atividades "culturais" dessa classe do privilégio socioeconômico.

É para essa sociedade que interessa a glamourização e a gourmetização do "funk", pois o pobre da vida real nunca se identificou com esse estilo que espetaculariza a miséria e promove a erotização infantil, o consumismo voraz, a poluição sonora nas madrugadas, entre outras barbaridades. Sem falar das músicas horríveis do repertório funqueiro, marcado pela gritante precariedade sonora e artística.

O fundamentalismo funqueiro pode gerar atos de vandalismo, de poluição sonora e de outros abusos. Em outras palavras, os funqueiros vão achar que podem fazer o que querem e, quando forem criticados, vão apelar pelo vitimismo enquanto são blindados pelo "papo cabeça" da intelectualidade "bacana" e por uma esquerda vendida, já que, hoje, infelizmente, as antes admiráveis esquerdas que estavam em torno de Lula se reduziram hoje a mascotes do tucanato neoliberal que se camufla no apoio oculto ao PT.

Lendo as obras de Jessé Souza, sociólogo de ideias bastante arrojadas e consistentes, há o risco de haver uma guerra de "pobres contra pobres". Com base nessas ideias, podemos inferir que não se trata, necessariamente, da guerra simplória do "pobre de direita", evangélico e reacionário, contra "o resto", mas no cabo-de-guerra desse pobre ultraconservador com o pobre festivo do "funk", que na verdade também não é de esquerda, fingindo adotar esta postura para abocanhar do lulismo as verbas desejadas.

Sim, porque com o decreto do "Dia Nacional do Funk", os funqueiros vão sorrir de orelha a orelha com as verbas públicas que irão transformar o meio funqueiro num antro de novos-ricos, movimentando um mercado que hoje já pode ser considerado milionário, sob a desculpa de ser "gerador de empregos" (mas empregos, digamos, bastante precarizados, diga-se de passagem).

O "funk", que personifica a "periferia" que a burguesia gosta, um pastiche de "senzala pós-moderna" que a Casa Grande apoia e até financia, poderá se tornar um meio de surgimento dos novos super-ricos, e desde 2002, quando a chorosa narrativa coitadista do pretenso "combate ao preconceito" foi lançada em grande escala, via Rede Globo e Folha de São Paulo, o gênero atraiu para si gigantescas somas de dinheiro.

Essas grandes quantidades de dinheiro que o "funk" contraiu ao longo dessas duas décadas não contribuiu em coisa alguma para a melhoria artístico-cultural do gênero, muito pelo contrário. Cada vez mais vemos o "funk" tão ruim musicalmente como havia sido antes, enquanto seus intérpretes é que usam as verbas para comprar mansões, jatinhos, carros de luxo (uma coleção!), lanchas e outros bens luxuosos.

Para piorar, tudo isso só reforça a arrogância do funqueiro, que sempre contará como carta na manga o discurso vitimista, que cria momentos até risíveis, com ídolos funqueiros brancos reclamando da rejeição e das críticas que sofrem porque "são negros". Mas mesmo os funqueiros realmente negros ou mestiços também pecam por estar a serviço da própria deturpação na negritude e na degradante situação da cultura negra hoje se tornar refém do "funk".

Outra coisa pior é a liberação dos abusos. "Bailes funk" na madrugada que perturbam a vizinhança pobre que quer acordar cedo no dia seguinte, para trabalhar nos dias úteis e, nos fins de semana e feriados, além de também trabalharem, poderem, no caso de folga, visitarem parentes e amigos e até fazer algum passeio e caminhada, benefícios completamente desprezados pela chamada "sociedade do amor" que está blindando a supremacia funqueira.

Mas também a blindagem intelectual se vê livre para cometer seus abusos, como o professor universitário Thiagsson, hoje um dos maiores propagandistas do "funk", apelar para um juízo de valor violento, que é de acusar quem rejeita o gênero de ser racista. Essa acusação pode gerar um processo judicial contra o acadêmico, pelo caráter indevido de tamanho julgamento, até porque quem rejeita o "funk" costuma apreciar artistas negros de jazz, samba, soul music, reggae, rock, MPB e blues.

Lembremos que a blindagem em torno da música brega-popularesca foi um dos fatores que fizeram surgir os movimentos golpistas de 2014-2016, que depois resultaram no bolsonarismo (em que pese o acolhimento dos extremo-direitistas a uma considerável parte desses ídolos popularescos beneficiados pelo discurso "contra o preconceito").

O sancionamento do Governo Federal ao "Dia Nacional do Funk" já causou reações de revolta na própria página oficial de Lula. O presidente já perde popularidade a cada tempo, começando a ver se distanciarem as chances de reeleição. Com a blindagem ao "funk", Lula retoma os fatores que em 2016 levaram ao golpe contra Dilma Rousseff, ao acolher o gênero musical que atua nas esquerdas como um movimento de "quinta-coluna".

Enquanto isso, o povo pobre da vida real, distante da festividade da mídia do entretenimento e da sociedade do espetáculo à brasileira, sofre com os problemas de sempre: desemprego, caos na saúde pública, educação deficitária, preços de mercadorias caros, contas a pagar que crescem em preço e quantidade, violência da polícia e do crime organizado etc. Gente forçada a viver nas degradantes casas das favelas ou, quando nem isso é possível, ter que morar nas ruas, em calçadas sujas e doentias.

E não pense que o pobre da vida real terá no funqueiro um ombro amigo para ouvir suas indignações. Isso é uma ilusão. Enquanto o pobre de verdade continua na miséria extrema e irresolúvel, o funqueiro faz seu show, recebe seu cachê e volta para casa curtir a sua fortuna e sua vida nababesca. Até que, depois, o próximo protesto contra isso lhe fazer retomar o discurso vitimista de sempre.

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