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NEGACIONISTA FACTUAL E SUAS RAÍZES SOCIAIS

O NEGACIONISTA FACTUAL REPRESENTA O FILHO DA SOCIALITE DESCOLADA COM O CENSOR AUSTERO, NOS ANOS DE CHUMBO.

O negacionista factual é o filho do casamento do desbunde com a censura e o protótipo ilustrativo desse “isentão” dos tempos atuais pode explicar as posturas desse cidadão ao mesmo tempo amante do hedonismo desenfreado e hostil ao pensamento crítico.

O sujeito que simboliza o negacionista factual é um homem de cerca de 50 anos, nascido de uma mãe que havia sido, na época, uma ex-modelo e socialite que eventualmente se divertia, durante as viagens profissionais, nas festas descoladas do desbunde.

Já o seu pai, uns dez anos mais velho que sua mãe, havia sido, na época da infância do garoto, um funcionário da Censura Federal, um homem sisudo com manias de ser cumpridor de deveres, com personalidade conservadora e moralista.

O casal se divorciou com o menino tendo apenas oito anos de idade. Mas isso não impediu a coexistência da formação dúbia do negacionista factual, que assimilou aspectos do hedonismo de sua mãe e da austeridade de seu pai.

Dessa maneira, o negacionista factual passou a desenvolver uma personalidade liberal, mas ao mesmo tempo subordinada ao sistema. Ouvia os discos de Odair José por conta do desbunde da sua mãe, que misturava um brega mais liberal com Jovem Guarda e uma MPB tropicalista. Também por intermédio da mãe, o negacionista factual pôde desenvolver uma visão cordial, porém paternalista, do povo pobre.

Seu pai também ouvia brega, mas na linha mais tradicional, tipo Waldick Soriano e Nelson Ned, coexistindo com um cancioneiro mais antigo da linha de Teixeirinha e canções boêmias de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Lupicínio Rodrigues. Também ouvia Ângela Maria e a fase romântica de Roberto Carlos.

Do pai, ele tomava conhecimento da pasta com os textos do IPES-IBAD que o genitor recortou de jornais para guardar. Da mãe, o negacionista factual ouviu falar, certa vez, que ela achava o guerrilheiro Ernesto Che Guevara um galã atraente.

De descolada moderna, a mãe do negacionista factual passou a ficar mais careta. Por ironia, ela se tornou mais comedida a dois anos de se separar do marido, este também já saído da Censura Federal, que continuava, mas foi enfraquecida pelo fim do AI-5. A Faria Lima criou meios de domesticar a sociedade brasileira sem apelar para a repressão explícita.

Daí que os pais do negacionista factual se aproximaram quando estavam prestes a se separarem, se descobrindo mais amigos do que amantes. Até na religião se uniram, diante do Espiritismo brasileiro, a “novidade” que a ditadura lançou para combater a Teologia da Libertação. A mãe, motivada pelo misticismo, pelo assistencialismo e pelo sobrenatural, o pai pelo moralismo conservadore meritocrático.

O negacionista factual aprendeu, por influência do pai, as ideias de Fernando Henrique Cardoso, a leitura de Veja, Isto É, Estadão, O Globo e Folha de São Paulo. Via novelas da Rede Globo com a mãe e, com ela, via o Silvio Santos animar os domingos, além de ler a literatura brasileira contemporânea. Pela influência da mãe, começou a observar um líder sindical que integrava o movimento Diretas Já, cujo apelido era Lula.

O negacionista factual puxou o pai durante muitos anos, principalmente quando ele faleceu, no fim dos anos 1990. Ele não votou em Collor, por ser menor de idade, mas ele apoiou “elle”, que recebeu o voto do pai, enquanto a mãe votou em Lula, no segundo turno da eleição de 1989. Até 2002 o negacionista factual foi tucano, mas ao ver Lula lançando a Carta aos Brasileiros enquanto o tucanato lançava o insosso José Serra, o negacionista factual deu seu voto para Lula.

Lulista entre 2002 e 2015, ele seguiu a revolta do lavajatismo. Defendeu o impeachment de Dilma Rousseff e apoiou Sérgio Moro e, depois, Michel Temer, identificado com seu projeto político meritocrático. A mãe continuou lulista e teve atritos com o filho. 

O negacionista factual deu seu apoio crítico a Jair Bolsonaro, embora o achasse exagerado e trapalhão. Com a pandemia, que matou a mãe contaminada pelo contágio do coronavírus em uma festa chique, o negacionista factual rompeu com Bolsonaro e resolveu adotar uma abordagem em relação a Lula extremamente oposta à dos tempos lavajatistas.

O negacionista factual não é um inimigo radical dos fatos, mas os molda conforme seus interesses. Mesmo assim, ele briga com os fatos quando se tornam críticas ao estabelecido, sobretudo referente à liberdade de instintos, a ponto de combater o senso crítico e pedir o boicote aos textos contestadores.

Dessa forma, o negacionista factual parece um filho da liberdade com a censura. Da mãe, herdou o hedonismo que hoje é representado pela liberdade de instintos. Do pai, herdou o espírito censor e severo do combate ao pensamento crítico e ao respeito às hierarquias e instituições, medindo a "verdade" pelo prestígio e poder de quem interpreta os fatos.

Daí que, num contexto formalmente democrático de hoje, o negacionista factual, o cão de guarda "isentão" dos tempos atuais, tenta ser modernamente conservador, sempre zelando pelo "sistema" que existe hoje, quando esquerdas médias e neoliberais "democráticos" moldam o Brasil que o Clube de Assinantes VIP do Lulismo 3.0 deseja. Uma "democracia" para poucos, diga-se de passagem.


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