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O PREÇO DE UMA REBELDIA COM A ASCENSÃO DE UM PODEROSO GRUPO EMPRESARIAL


Dá muita pena ver o público de rock adotar, na sua boa-fé, a nostalgia da rádio 89 FM, um saudosismo que, vamos combinar, não remete à programação como um todo.

Volta e meia há um internauta roqueiro, um músico de rock, uma jornalista ou atriz fã do gênero, falando de “coisas boas” da 89. Só que são programas específicos, de fim de noite, já que nos últimos 35 anos a fórmula das rádios com 24 horas de “puro rock’n’roll” se reduziu a pura cascata, pois o que passou a ser a grade normal e diária das ditas “rádios rock” era o perfil “Jovem Pan com guitarras”, pois naqueles anos 1990 até as vinhetas eram iguais às da rádio de Tutinha.

Ainda se via a arrogância acima dos limites toleráveis dos produtores e dos ouvintes da 89 FM e sua congênere no Rio de Janeiro, a Rádio Cidade - esta num contexto pragmático que permitiu ônibus padronizados, mulheres frutas e o crescimento vertoginoso do crime organizado - , pessoas de pavio curto que se achavam donos da cultura rock, e que ahrediam e xingavam quem discordava de suas visões atrofiadas sobre o rock.

Sim, era muita gente malcriada que virou o foco principal dessa “cultura rock” dos anos 1990 e 2000 que media o valor do rock pela presença nos listões do hit-parade do Brasil e do mundo.A música, em tese, tinha que ter guitarra, baixo e bateria - mas aí não dá para entender o caso de “Breathe”, do Prodigy, tocada na 89, mas aí é outra história - , mas obrigatoriamente um videoclipe e, de preferência, em alta rotação na MTV. Sem clipe, nada feito, podia ser um rock de primeira que a canção não tonha valor.

Com esses pestinhas blindando a 89 e Cidade, a Faria Lima viu seus anos como dona do mercado de rock no Brasil. E o crescimento foi assustador. É claro que a 89 nunca teve um carisma comparado ao da Fluminense FM, mas a presença de mercado abalou o segmento roqueiro de maneira violenta. Com a 89, o roqueiro passou a ser culturalmente subserviente e a focar na zona de conforto dos hits.

Mas a consequência mais danosa é o crescimento de poder da 89, num contexto que, nos anos 1980, envolveu rádios “roqueiras” controladas por oligarquias conservadoras. E o radialismo rock, com isso, despencou e teve queda vertiginosa de qualidade.

E aí vemos o empresário João Camargo, cujo perfil é antagônico à essência original do rock, se tornando o mais poderoso chefão da Faria Lima, agora renomeando sua Esfera Brasil para o nome pomposo Grupo Camargo de Comunicação.

João Camargo adquiriu várias rádios que, inicialmente, não eram da Esfera Brasil, como Rádio Disney e Transamérica, atual TMC. Isso aumenta o poder do magnata, tornando-se o mais poderoso empresário de mídia do Brasil e, também, o mais poderoso de toda a classe empresárial de São Paulo, a elite da Faria Lima.

E imaginar que muitos acreditam que a 89 FM é rádio alternativa. Quanta ingenuidade…

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