COM CHUCK BERRY, O ROCK ERA OUTRA COISA


Estamos perdendo vários mestres do rock. O que surpreende é o falecimento de vários músicos de rock progressivo, por exemplo.

Do Emerson Lake & Palmer, por exemplo, só restou este último, o baterista Carl Palmer.

Que já perdeu outro parceiro, John Wetton, conhecido baixista que participou em muitas bandas, do King Crimson ao Asia.

Perdemos em 2016 o mestre David Bowie, também.

E, há poucos dias, se foi o pioneiro Chuck Berry, de músicas como "Johnny B. Goode", "Maybellene" e "Roll Over Beethoven", entre outros.

Ele deixou pronto um disco de composições inéditas, que terá lançamento póstumo.

Foi um pioneiro do rock'n'roll e um dos que se destacaram como guitarrista, popularizando a marca Gibson.

Chuck botou muito moleque para formar bandas.

Apesar de parecer simplório o rock dos anos 1950, vários músicos da época se preocupavam com a qualidade musical.

E Chuck Berry tinha esse respeito à linguagem musical, sobretudo pela influência que ele assimilou do blues.

Ele e sua geração puxou toda uma linhagem de músicos e que se derivou em tendências que reforçaram a linguagem musical do rock.

Infelizmente, nos últimos anos o rock está em crise.

No Brasil, então, o rock virou uma palhaçada. Quando muito, uma pálida trilha sonora de jovens reacionários.

Um rock de gestinhos. Língua para fora, sinal do capeta com as mãos, guitarra-aérea.

Isso para não dizer a aberração chamada "fãs de uma música só", crias da mesmice da dupla rockaneja 89 FM e Rádio Cidade, esta última extinta.

A 89 FM, capitalizando com o programa humorístico de TV do seu locutor Tatola, o Encrenca (Rede TV!), reduziu-se a ser uma espécie de "revista Veja das rádios-rock".

Ou, mais literalmente, uma "Jovem Pan com guitarras".

Rock no Brasil parece que deixou de ser música.

Virou piada, virou direitismo, virou uma mera questão de "ter atitude".

Há centenas e centenas de bandas brasileiras de rock que não dão para ouvir.

Os caras até se esforçam, mas falta visceralidade, sangue, neurônios.

Certa vez, ouvia numa mercearia a música 'Monte Castelo" da Legião Urbana, do LP As Quatro Estações, de 1989.

O álbum é o Sgt. Pepper's da Legião no sentido de representar uma guinada musical brusca, saindo do pós-punk básico para canções mais reflexivas e poéticas.

E aí eu sentia a profundidade e a sinceridade de Renato Russo, a sua força artística, junto aos seus parceiros musicais, preocupados em fazer algo diferente.

A Legião não era uma banda restrita a colecionar atitudes, a ter seus integrantes sorrindo para fotos, de ficar enumerando bandas da moda como se fosse suas "influências".

Não era uma banda cujos integrantes estavam mais preocupados em exibir camisetas com o rosto de Jimi Hendrix ou dizer que ouviam Deep Purple (só "Smoke On The Water", né?).

E isso realmente falta. Renato nos deixou há pouco mais de 20 anos e nenhum outro grupo repetiu a organicidade da Legião Urbana.

Voltando ao rock em geral, eu confesso que me achava muito careta para ouvir rock.

E hoje sou um dos poucos que valorizam o rock como música, e não como "maó sonzêra, brou!".

Ver que a cultura rock se reduziu a gestinhos e a bordões como "rock na veia, véio!" é constrangedor.

Por isso é que temos que aproveitar as lições dos mestres que nos deixam, como o grande Chuck Berry.

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