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A ELITE DO BOM ATRASO NÃO SE ASSUME COMO TAL


A elite do bom atraso não se assume. Foge do senso crítico como o diabo da cruz. Não quer saber de seu passado sombrio, agora que, desde a campanha presidencial de Lula, essa "boa" sociedade, composta da pequena e média burguesia e de pobres remediados - a cumprir o papel social que as comédias de TV e cinema lhe determinam - , passou a posar de "esquerdista desde o surgimento do homem".

Os textos deste blogue custam a repercutir por causa disso. As pessoas preferem viver no mundo da fantasia, jogar a lógica dos fatos no lixo, e elas esperariam que este blogue se transformasse em Mentira News, só mostrando coisas agradáveis, ainda que ilusórias e cheias de contradições. Se garantir a alegria que faz nossos patrícios da "sociedade do amor" dormirem tranquilos, de preferência das cinco e meia da manhã até o meio-dia, está tudo bem.

Isso me lembra uma coisa. O AI-5, o milagre brasileiro, só que agora repaginados, podendo censurar e reprimir o pensamento crítico sem a violência física, apenas tendo a violência psicológica sutil do cancelamento, do desprezo social. Afinal, agora o que vigora é o AI-SIMco, sem o poder coercitivo das fardas, mas apenas com as punições sociais impostas aos desertores da espiral do silêncio.

Cega no seu complexo de superioridade, a elite do bom atraso, que por ser a maioria esmagadora dos usuários de Internet dita as narrativas e o sistema de valores, que lhe são privativos mas são creditados como "universais", não se assume como classe.

A elite do bom atraso se acha "a sociedade mais legal do mundo", são uns burgueses que, insatisfeitos em exercer influência quase totalitária sobre a população brasileira, quer agora dominar o mundo, a ponto de não aceitar críticas à obsessão do presidente Lula em enfatizar a política externa. Claro, porque a própria elite do bom atraso pratica turismo no exterior, por que seu mais novo ídolo político não pode, segundo avaliação dessa classe social?

Chegam a se arrogar em se achar possuidoras de uma consciência social que, na verdade, não tem. Jogam comida fora nos restaurantes, têm medo de ver outras pessoas comendo pão puro, sem recheio algum, falam portinglês e a intragável gíria "balada" (© Jovem Pan), cultuam "médiuns" picaretas por causa de uma "caridade" mais constrangedora que admirável, exaltam o "funk" e acham que vanguarda musical brasileira é Michael Sullivan, É O Tchan e Chitãozinho & Xororó.

O que esperar dessa elite abastada, que ainda por cima faz barulheira de madrugada, sem o menor escrúpulo nem um pingo de respeito humano, senão uma falta de consciência social, pois o que lhes importa é só o que ela pensa, o que ela quer ler, o que representar uma rota de fuga da realidade complexa e nem sempre agradável do nosso país.

Hipócrita, essa elite cuja linhagem esteve envolvida em opressões e golpes, desde a escravidão dos negros à defesa do golpe contra João Goulart, quer apagar seu passado. Apelam para o mimetismo de parecer "pessoas comuns", e a partir daí dominarem o Brasil e o mundo, sem o visual estereotipado dos bolsonaristas com uniforme da CBF.

Identifica-se essa classe pelos valores canhestros e pelo "novo normal" que se instituiu desde abril de 1964, do qual muita coisa essa "boa" sociedade conseguiu introduzir no imaginário do esquerdismo de butique e de boteco que predomina no nosso país.

O senso crítico é o espelho do qual os narcisistas da elite do bom atraso não querem olhar, pois isso desmascara o traje carnavalesco de esquerda festiva, que faz dessa elite uma classe pretensamente divertida, falsamente moderna e supostamente altruísta. Daí que a elite do bom atraso apela para que passemos pano nos problemas do nosso país e finjamos que tudo agora está às mil maravilhas.
 

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