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AS ESTRANHAS LISTAS DA VIOLÊNCIA NAS CIDADES BRASILEIRAS

NA SEGUNDA CIDADE MENOS VIOLENTA DO PAÍS, A CATARINENSE BRUSQUE, A JOVEM ROBERTA KELLER FOI ASSASSINADA POR DÍVIDAS COM O TRÁFICO LOCAL.

Foi divulgado mais um ranquim de cidades mais e menos violentas do Brasil, desta vez de acordo com o Atlas da Violência do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA).

Os dados são de 2015 mas refletem uma aparente situação dos dias atuais.

São duas listas que enumeram as cidades com maiores ou menores índices de violência no país, no que se refere à ocorrência de homicídios.


Há uma estranha "diferenciação" social, na qual as cidades com maior ocorrência de homicídios estão associadas ao interior ou às classes populares.

Enquanto as áreas mais violentas da lista são creditadas ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste, as menos violentas se concentram em torno do Sudeste e o Sul.

Na lista das mais violentas, duas capitais de Estado aparecem, ambas nordestinas: São Luís e Fortaleza.

Estranhamente, não há uma sombra do Rio de Janeiro, seja o Estado, seja a capital.

Em 2015, chegou a ocorrer um assassinato de um ambulante, por linchamento, por um grupo de pessoas de classe média em Ipanema, motivado por uma discussão banal.

Também no mesmo ano, um grupo de cinco jovens trabalhadores, sem antecedentes criminais, foi confundido com criminosos e eles foram mortos a queima-roupa num subúrbio carioca.

Assassinatos por bala perdida ocorrem constantemente e a ex-Cidade Maravilhosa nunca aparece no ranquim de cidades mais violentas do Brasil.

Enquanto isso, a Bahia e o Rio Grande do Norte são sempre visados nas listas.

Assim como Sergipe, que muitos turistas definem como um dos Estados mais tranquilos do país.

Na lista das mais violentas, a cidade de Altamira, no Pará, e Lauro de Freitas (vizinha a Salvador, com a qual reparte o Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães), aparece em segundo.

O Estado potiguar não aparece na lista das 30 cidades mais violentas, mas observa-se que Natal aparece no topo do ranquim mundial com quase 70 homicídios por grupo de 100 mil habitantes.

Já a lista das cidades menos violentas enfatiza São Paulo, com relativo destaque para os interiores de Minas Gerais e Santa Catarina.

Das cidades menos violentas, as catarinenses Jaraguá do Sul e Brusque aparecem, respectivamente, em primeiro e segundo lugar.

Recentemente, porém, foi noticiado que uma jovem de 19 anos, Roberta Keller, desaparecida há vários dias, teve o corpo queimado identificado como seu.

Ela teria sido assassinada por ter contraído dívidas com traficantes de drogas locais.

Foi justamente na "pacífica" Brusque.

CHARGE DE CARLOS LATUFF DENUNCIA A VIOLÊNCIA NO COMPLEXO DO ALEMÃO, NO RIO DE JANEIRO. APESAR DISSO, A CIDADE NÃO APARECE NAS LISTAS DA VIOLÊNCIA.

O que chama a atenção é a suposta redução de homicídios registrada no Rio de Janeiro, que, segundo o Atlas da Violência, foi de 31,6%.

A visível tragédia nos complexos do Alemão e Maré, que ocupam os noticiários diariamente, não é suficiente para colocar a capital fluminense entre as mais violentas do Brasil.

Em 15 anos, o Complexo do Alemão registrou 2,6 mil mortes. E isso apenas são dados oficiais.

Consta-se que interesses turísticos maquiam os dados e fazem com que a violência carioca "desapareça" dos noticiários em boletins policiais engavetados nas delegacias.

Mas também há ocorrências que as facções criminosas que dominam as favelas não deixam que sejam denunciadas.

Ficamos até perguntando se o mero fato de registrar ocorrências policiais fazem uma cidade ser mais ou menos violenta.

Há outros fatores como a agilidade para capturar criminosos.

Em 2016, um grupo de ladrões assaltou, numa noite de sábado, uma estação de rádio em Aracaju, e em menos de uma semana todos os envolvidos foram detidos e presos.

No mesmo período, no Rio de Janeiro, um ex-dirigente de escola de samba foi assassinado, numa tarde de segunda-feira, em Madureira, e o primeiro suspeito levou três semanas para ser preso.

Tudo bem, vão dizer que é por causa da dimensão urbana do Rio de Janeiro, etc e tal. Aracaju é pequena e pode-se capturar um criminoso "logo ali".

Mas a situação carioca mostra que a outrora Cidade Maravilhosa vive também um clima de pistolagem, além de outros fenômenos criminosos que assustam a população.

Hoje mesmo os noticiários falam que a violência deixa escolas públicas fechadas por tempo indeterminado, e o atual ano letivo já descontou 68 de 75 dias sem aula.

Ou seja, as aulas realizadas só duraram sete dias úteis.


Diante de tanto horror, fica-se pasmo por que o Rio de Janeiro nunca é considerado a capital mais violenta do Brasil.

Há intensa violência em lugares como Rocinha, Quintino, Pavão-Pavãozinho, Bangu etc.

Houve até assalto, na manhã movimentada de uma quinta-feira, numa loja de relógios e joias no Barra Shopping, principal complexo comercial da Zona Oeste carioca.

Nos últimos anos, houve até assassinato, em pleno meio-dia de grande movimento, na estação de metrô na Uruguaiana.

No Rio, vemos turistas sendo assassinados nas ruas, casas comerciais roubadas à luz do dia, tiroteios assustando quem se desloca entre o Galeão e o Centro do Rio, fora os roubos e mortes feitos na calada da noite.

Apesar disso, o Rio de Janeiro não aparece como a capital mais violenta do Brasil.

Isso cheira a uma armação movida a interesses turísticos estratégicos. É triste saber que, em nome do turismo, se invista em tanta maquiagem de dados.

Além disso, as listas de cidades mais ou menos violentas refletem um certo elitismo e seus critérios são duvidosos.

Norte e Nordeste estavam se recuperando economicamente depois de décadas de coronelismo, enquanto o Sul e Sudeste se estagnaram em retrocessos sociais movidos pela acomodação.

A lista pode também ser uma propaganda depreciativa contra os nordestinos e nortistas.

Apenas áreas como Pará e Goiás coincidem com a realidade concreta da violência, sobretudo por conta da criminalidade goiana e pelos conflitos de terras paraenses.

Mas ver o Rio de Janeiro, com sua violência de arrepiar os cabelos de qualquer um, ausente no ranquim das cidades mais violentas, isso é um disparate.

Pelas ocorrências que saltam aos nossos olhos, o Rio de Janeiro já é considerado a capital mais violenta do Brasil.

A violência que ocorre em Portão, bairro mais perigoso de Lauro de Freitas, na Bahia, é apenas um arremedo do que já ocorre constantemente nos subúrbios cariocas e na Baixada Fluminense.

Não deixa de ser irônico ver que o portal G1, junto ao jornal Extra, começa uma série de reportagens sobre a violência preocupante no Complexo do Alemão.

Isso quando o Rio de Janeiro se encontra ausente de qualquer lista de cidades mais violentas do país.

Essa ausência não faz os cariocas viverem tranquilos. Talvez fosse preciso desenhar aos pesquisadores como é a violência que há tempos atinge o Grande Rio.

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