GILMAR MENDES E A ESPETACULARIZAÇÃO DO JULGAMENTO DILMA-TEMER


O segundo dia de julgamento de irregularidades eleitorais da chapa Dilma-Temer foi morno, no que se diz ao propósito de avaliar a possibilidade ou não de cassar a ex-presidenta e o então vice e atual presidente da República.

Valeu mais pela discussão entre o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o também ministro do Superior Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o relator do processo, o também ministro do TSE, Herman Benjamin.

Mas, como presidente da casa, Gilmar Mendes exagerou.

Sendo um dos que mais querem obter protagonismo nos possíveis desfechos políticos futuros, Gilmar se comportou como se fosse um astro de TV.

Mais parecia um animador de programa de auditório discutindo com um convidado.

Gilmar, de 62 anos - a mesma idade de, por exemplo, os músicos remanescentes do The Clash e os integrantes dos Buzzcocks, e a que encerrou a vida de Kid Vinil - , há muito destoa dos critérios exigidos de um verdadeiro jurista.

É um símbolo de uma geração que não viveu seu idealismo na juventude e transferiu as pendências juvenis para a meia-idade.

Uma geração que se torna mais zen da parte dos que fazem punk rock ou vivem de cultura hippie, surfe, grêmios estudantis e rádios de rock do que quando atua em profissões liberais, empresariais, jurídicas ou executivas.

Não estamos falando de exceções, que existem, mas elas, infelizmente, são apenas minoria.

A maioria das pessoas "de liderança" nascidas nos anos 1950 mal consegue fazer um zine, quanto mais uma monografia, no que se diz à produção de conhecimento.

É bem mais hardcore do que Kid Vinil, que havia sido zen, e de Serginho Groisman, um sujeito boa praça.

A impressão que se tem é que os boas-praças estavam fazendo punk rock, zines, skate, surf, poesia underground.

Os "punks" estavam nos bailes de gala do Copacabana Palace ou nos almoços formais do Iate Clube, tentando entender a Nova York dos anos 1940 e a Paris da Belle-Èpoque.

Nada mais "punk" do que um empresário nascido na primeira metade dos anos 1950 querer achar que viveu os anos 1940 ou fingir que foi adulto em 1958.

E nada mais "punk" que um jurista temperamental que prefere agir de forma controversa e se alimentar de polêmicas e atitudes tendenciosas.

É muita tensão, estresse, atitudes irrefletidas, pavio curto e uma falta de paciência para parar para pensar e avaliar seus próprios atos.

E isso não é exclusivo de Gilmar Mendes nem de setores do Judiciário, porque esse comportamento se reflete também nos membros do Legislativo aliados do governo Michel Temer.

É o "espírito do tempo", de travessuras em terno e gravata, de parte daqueles que teimaram em derrubar uma presidenta eleita democraticamente por vagas acusações sem provas.

Gilmar se destacou discutindo com o relator Herman Benjamin.

O presidente do TSE não escondeu seu desejo de protagonismo histórico.

"Essa ação só existe graças ao meu empenho, modéstia às favas. Vossa Excelência (Herman) só está brilhando no Brasil todo, na TV, graças a isso", disse Gilmar ao colega.

Herman, que afirmou preferir o anonimato, queria analisar o conteúdo das delações premiadas, mas Gilmar discordou.

Achou que o relator queria "atrasar o processo" e o chamou de "falacioso".

Numa ironia, Gilmar disse que Herman "teria que manter o processo aberto" e trazer as delações da JBS na semana que vem, com as delações do ex-ministro da Fazenda do governo Lula, Antônio Palocci.

Evidentemente que esse processo todo de julgamento da chapa Dilma-Temer é caótico, uma coisa bem hardcore, porque não lembra um processo jurídico criterioso, rigoroso e imparcial.

O cenário político, midiático e jurídico se tornou "punk" no sentido de agir com rebeldia às leis e à imparcialidade jurídica e legal.

A ideia é apenas apagar as marcas do PT do cenário político nacional e também de desfazer as conquistas sociais das classes populares.

Herman e Gilmar trocaram farpas e ironias rompendo com o que se esperava de um julgamento com um mínimo de seriedade, com todo o tendenciosismo que se observa hoje.

Isso tirou o foco do julgamento, o que fez "esfriar" a coisa do lado do objetivo do evento, que são as irregularidades da chapa Dilma-Temer.

Suponhamos que fosse possível apreciar ligeiramente as delações da Odebrecht e JBS, algo muito controverso e juridicamente incorreto, mas plausível numa situação dessas.

E suponhamos que isso seja feito com um pingo de civilidade possível, sem briguinhas. Talvez o processo pudesse andar com maior rapidez, e na esperança de poder cassar o mandato de Michel Temer.

Mas tudo isso está muito, muito bagunçado. E tudo começou na forma com que se produziu a indignação contra o governo Dilma Rousseff, ceifado pela metade.

E aí faz sentido o espetáculo todo do julgamento, que mais parecia um trabalho de primeiro ano do curso de Direito.

Gilmar queria fazer um show, exagerando a sua condição de presidente do TSE e comandante do julgamento, na ânsia de ser um protagonista histórico dos rumos políticos atuais e vindouros.

Não só ele, mas Rodrigo Maia, os irmãos Marinho, o Movimento Brasil Livre, Merval Pereira, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Jair Bolsonaro, Fernando Henrique Cardoso ou até mesmo Michel Temer querem o protagonismo histórico.

Cada um com sua ambição em deixar uma assinatura em algum desfecho socio-político nos próximos dias.

Não se trata de colocar o povo brasileiro como protagonista no processo, pois a plutocracia não quer isso.

O povo brasileiro, apesar dos esforços das passeatas, foi relegado, nesse teatro político, a atores substituídos por dublês que podem variar de grupos como o MBL até os black blocs.

Temer tem chances medianas de perder o mandato, aparentemente fortes, mas neutralizadas pelo empenho do presidente de salvar sua própria pele.

E ainda há a possibilidade da plutocracia impedir o ex-presidente Lula de ser candidato em 2018.

A plutocracia quer eleições indiretas (protagonismo do Poder Legislativo), mas se ceder à pressão das diretas, vão tentar promover um "não-político" para arrancar para si o voto popular.

E tudo isso sob as pregações persuasivas da grande mídia, não só a Globo, como a Band, Abril, Folha, Isto É etc.

O caminho ainda está fechado para as classes populares, que veem à frente a efetivação das retrógradas reformas do governo Temer.

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