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PROTAGONISMO DAS ESQUERDAS É UMA FARSA

LULA, A MASCOTE DA BURGUESIA NEOLIBERAL.

A vitória parlamentar na França, ocorrida anteontem, sinaliza uma realidade bem menos generosa para as classes populares, e que ocorre plenamente no Brasil: o suposto protagonismo das esquerdas, representado pelo atual governo Lula, é uma grande farsa.

Em primeiro lugar, esse 'protagonismo" foi tomado de empréstimo. Quem realmente está no comando são as forças neoliberais, as elites do poder econômico que armaram o inverno golpista de 2015-2020 só para criar uns bodes expiatórios, estes representados pela extrema-direita e seus "palhaços", como Javier Milei e Jair Bolsonaro, recentemente presentes num encontro ultraconservador em Santa Catarina.

As esquerdas brasileiras não retomaram o poder. Elas fizeram um acordo com os neoliberais para apenas retomar alguns espaços políticos. Embora as narrativas apontem para um "empoderamento das esquerdas" no Ocidente, criando um "tapete vermelho" nos países considerados "democráticos", a realidade dos fatos derruba todas as ilusões.

É só ver quem é que está patrocinando essa "volta das esquerdas", num processo muito estranho, com base naquele famoso ditado popular: "É bom demais para ser verdade". As mesmas elites dominantes que, pelo menos no Brasil, estão historicamente ligadas a atrocidades profundas e, no passado recente, ao clientelismo da República Velha, ao golpe de 1964 e ao AI-5 e, em 2016, ao golpe contra Dilma Rousseff, estão agora de mãos dadas com Lula.

Não se trata de um arrependimento nem de uma conversão da direita neoliberal ao esquerdismo. Se trata de um acordo no qual às esquerdas se permitirá a conquista de espaços políticos e a relativa realização de pautas sociais - dentro dos limites do "bem-estar social" aceitos pelo neoliberalismo - , o que faz ter a falsa impressão de que o esquerdismo finalmente "conquistou o poder".

Devemos lembrar que o hoje presidente dos EUA, Joe Biden, conspirou contra Dilma em 2015 e 2016. Ele era vice-presidente dos dois governos de Barack Obama. Ambos são do Partido Democrata, partido que estava no poder nos EUA quando houve o golpe que derrubou João Goulart, no Primeiro de Abril de 1964. 

No entanto, as esquerdas médias brasileiras foram dormir tranquilas quando Biden e Lula, em 2023 fizeram um acordo para "fortalecer os sindicatos trabalhistas" dos EUA e Brasil, como se isso garantisse benefícios para o proletariado do chão de fábrica. Um jornalista da mídia progressista, delirando, chegou a dizer que Biden "sempre atuou em favor das classes trabalhadoras", como se isso fosse vantajoso até para o camponês que, rudimentarmente, cultiva sua plantação com pá e facão.

Mas esse acordo não foi mais do que uma demonstração de puro peleguismo, que por baixo dos panos representa o controle político dos patrões sobre as lutas sindicais, dando sequência ao enfraquecimento das lutas dos trabalhadores imposto pelo governo Michel Temer, do qual Lula nunca se manifestou, com a firmeza e a oposição necessárias, qualquer tipo de repúdio.

Quanto aos EUA, lembremos também que o Partido Democrata tem uma política externa tão ou mais perversa do que o Partido Republicano, embora internamente os democratas dos EUA tenham uma relativa inclinação para  bem-estar social. Sob o comando do Partido Democrata, os EUA quase entraram em guerra contra o Brasil, conforme documentos dos tempos do golpe de 1964 apontam, pois estava em planejamento a terrível Operação Brother Sam, que iria causar um banho de sangue em muitos brasileiros.

Como é que, com um histórico desses, as esquerdas tiveram um caminho fácil demais para retomar o poder, em países considerados de tradição neoliberal? Como podemos acreditar que aspectos como o Estado forte, as garantias trabalhistas, a valorização do ensino e saúde públicos e a exaltação ao povo pobre passaram a ser valorizados em toda sua plenitude?

Não é verdade. O que vemos foi um acordo no qual as esquerdas apenas ganharam um limite de ação, uma autonomia que, até certo ponto, possui até uma certa liberdade de agir em prol da sociedade e do interesse público e, de certo modo, com instituições voltadas a atividades em que o benefício social e os critérios técnicos sejam aliados num processo considerado transparente e honesto.

Por debaixo dos panos, porém, as esquerdas não conquistaram o pleno poder. Elas é que tiveram que fazer concessões. Lula desmente o tempo todo que havia feito acordos para deixar a prisão, mas a realidade aponta justamente o oposto. Fiquemos com os fatos, não com o prestígio de quem diz. E vemos que Lula, mesmo se achando a "personificação da democracia", contrariou o compromisso democrático de aceitar uma diversidade competitiva na disputa eleitoral de 2022.

O próprio Lula já não tem mais serventia nem representatividade para o esquerdismo de raiz. Lula hoje virou um político a serviço de uma classe média abastada, que pode ser até flexível, pois envolve os descendentes das antigas elites opressoras que, a eles, se somaram membros das esquerdas identitárias - que nos tempos do "milagre brasileiro" correspondiam à geração pós-tropicalista do desbunde, a classe média hedonista inspirada nos hippies de Woodstock - e os "novos ricos" produzidos por loterias e outras promoções de ganho financeiro.

É um círculo relativamente amplo, mas mesmo assim ainda restrito, do apoio ao lulismo, que é uma elite que se fantasia de "classe pobre" para as estatísticas tendenciosas do governo Lula apontarem para um hipotético crescimento de consumo e compras nos supermercados, conforme alega o Consumer Insights Q1 2024 da consultoria Kantar.

Mas, fora desse círculo, pessoas que não participam dessa festa identitária veem as dívidas financeiras se acumularem feito bola de neve, há muita gente vivendo nas ruas, há gente procurando emprego e vendo as portas se fecharem por não serem candidatos "jovens, bonitos e divertidos" e, agora, pessoas saudáveis e solteiras que não trocam um fim de semana em casa pelas aventuras da badalação são definidas como incels ou, na "melhor" das hipóteses, "portadores" de um inexistente autismo.

Se existe autismo, é por parte da elite do bom atraso, sem empatia, voltada ao mais do mesmo, feliz na sua mediocridade cultural e sem ver as questões sociais em volta, se guiando apenas pela grande mídia que consome com assiduidade devota. Mas, em nome do apoio ao Lula, essa elite finge que odeia a mídia que consome e há quem, de forma atrapalhada, alegue que "nunca gostou dessa mídia nojenta e só via Netflix desde os anos 80". 

Detalhe: o canal Netflix surgiu em 2012.

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