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A PERIGOSA BANALIZAÇÃO DO TERMO "JORNALISTA"

CID MOREIRA NUNCA FOI JORNALISTA E ISSO NÃO É DEMÉRITO ALGUM.

A preocupante qualidade de nosso jornalismo é um fato e um grande mal-entendido foi divulgado no dia em que faleceu o grandioso locutor Cid Moreira, conhecido por ter apresentado o Jornal Nacional e por ser um dos maiores locutores de textos bíblicos do Brasil.

Mesmo fontes da imprensa séria cometeram um equívoco de definir Cid Moreira como um "jornalista", em textos obituários que, muito provavelmente, teriam sido escritas por gente com menos de 50 anos e com uma visão de mundo com a qualidade comparável à de um youtuber. Efeito danoso das contratações precárias que se sucederam às demissões que tiraram gente experiente das redações de nosso país.

Fiquei abismado quando mesmo páginas como UOL e, pasmem, até O Globo, deram notícias como "morre o jornalista Cid Moreira", coisa que a realidade nunca mostrou, e isso não é demérito algum à carreira renomada e digna do icônico locutor. Chamar Cid Moreira de "jornalista" é algo como falar que Frank Sinatra foi "um dos maiores guitarristas do mundo".

Até no humorismo temos que ter um mínimo de discernimento. E digo isso num momento em que humoristas tentam invadir outros mercados, sobretudo de Comunicação, posando de "jornalistas" pela desculpa primária de que "também comentam os fatos do dia". 

Há uma diferença entre "comediante" e "humorista". O comediante é apenas um intérprete de humor, ele não é necessariamente um criador de humor. Humorista é que é criador de humor. Um comediante pode ser um humorista, desde que ele seja também o criador de suas performances humorísticas. Chico Anysio e Jô Soares foram exemplos clássicos.

Mas houve quem, na imprensa do entretenimento - considerada uma das piores do Brasil, movida pelas fofocas do meio dos famosos - , definisse como "humorista" as modelos que serviam apenas como "escada" em esquetes humorísticas de programas de TV, o que é um grande erro. Até como comediantes elas eram discutíveis, mas mesmo assim ainda vai, pois elas participavam da performance de comédia produzida pela esquete.

Definir Cid Moreira como "jornalista" é um grave equívoco, porque, na verdade, ele nunca foi um "âncora" jornalístico, mas um apresentador e leitor de textos à maneira do radialismo do passado, e era notável que, com todo seu talento gigantesco, Cid falhava nas suas limitações em não poder improvisar sobre a leitura de um texto.

É muito conhecida a reação de Cid Moreira toda vez que havia um erro de edição ou de texto durante o Jornal Nacional da Rede Globo. Sem a habilidade de improviso, Cid se limitava a dizer, em tom seco: "Desculpe a nossa falha".

Lembremos que o papel de Cid Moreira é anterior ao fenômeno do anchorman popularizado pela rede de notícias CNN, nos EUA dos anos 1980. Cid é um locutor à maneira antiga, um locutor noticiarista que lia textos escritos por outros autores. Nunca foi um jornalista, pois Cid nunca produziu textos próximos do que se define como "jornalísticos".

Me lembro, nos anos 1990, dos terríveis "programas de locutor" das rádios FM de Salvador, com seus locutores com escolaridade precária e formação social matuta que se atreviam a comentar até sobre aquilo que não entendiam e que adoravam posar de cara feia, caneta numa das mãos e a outra mão apoiando uma folha de papel, para se autoproclamarem "jornalistas", criando um mercado de opinionismo barato do qual o canastrão jornalístico Mário Kertèsz é apenas um exemplo gourmetizado da coisa.

A banalização do termo "jornalista" também produziu, nos últimos 20 anos, gente do nível de Allan dos Santos, Monark, Carla Zambelli, Kim Kataguiri e tantos outros que surfaram na perigosa glamourização do Jornalismo de tempos atrás - que chegou a blindar até um feminicida do meio, Pimenta Neves - para rebaixar, depois, o "quarto poder" a um perigoso ninho de notícias falsas que se tornaram "filhos indesejados" de uma suposta e abusiva "liberdade de opinião".

Com isso, todo mundo virou "jornalista", o que permitiu com que a nossa grande imprensa demitisse, de maneira criminosa, um sem-número de jornalistas experientes, com responsabilidade social e visão diferenciada do mundo.

Até no humorismo houve comediantes de estandape, mesmo aqueles que não parodiavam o Jornalismo (foco que era mais específico em programas como CQC e Casseta & Planeta), pegando carona no Jornalismo para roubar emprego de quem precisa. Sócio de grupo humorístico de estandape posando de "jornalista" para obter um empreguinho de "analista de mídias sociais" só para ganhar o dinheiro da pensão alimentícia da ex-mulher e seu filho, livrando sua fortuna pessoal de tamanhos gastos.

Chamar qualquer um de "jornalista" soa como, por exemplo, eu colocar pregos na parede e ser considerado um "mecânico" por causa disso. Eu apareço segurando uma máquina perfuradora e sou logo definido como um "mecânico"? Com toda certeza, não.

Dizer que Cid Moreira nunca foi um jornalista não é um demérito. Isso não vai diminuir o prestígio do renomado locutor, mas apenas delimitar o que ele realmente fez e evitar elogiar pelo que não fez. É apenas admirá-lo pela atividade que Cid realmente realizou, e não inventar, a título de sensacionalismo emocional e afetivo, algo que ele, de fato, nunca fez.

Portanto, chamar Cid Moreira de "jornalista" vai contra o Jornalismo brasileiro por tentar informar sobre uma qualidade que nunca existiu no renomado apresentador. E isso é muito preocupante, num contexto de degradação cultural em que vive o nosso país. 

Falta uma compreensão melhor e mais adequada do que realmente é Jornalismo, antes que até humoristas sejam confundidos com jornalistas. Aí será o fim do mundo, o Jornalismo reduzido a uma piada.

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