Pular para o conteúdo principal

RIO DE JANEIRO E SALVADOR, REELEGENDO PREFEITOS, CONFIRMAM DECADÊNCIA


Salvador e Rio de Janeiro, cidades que já foram capitais político-administrativas do Brasil - respectivamente entre 1549 e 1763 e entre 1763 e 1960 - , demonstram suas decadências quando reelgeram seus respectivos prefeitos, Bruno Reis (União Brasil) e Eduardo Paes (PSD), representantes das elites "esclarecidas" que, só elas, foram realmente beneficiadas politicamente.

O último domingo representou, ao mesmo tempo, o ápice da burguesia bronzeada, líder de uma frente ampla social que inclui, também, os pobres remediados e os famosos milionários (tanto atores, músicos quanto subcelebridades), a chamada "elite do bom atraso", espécie de aristocracia repaginada e, quantitativamente, mais flexível.

No pleito eleitoral, tivemos até mesmo o caçula dos filhos homens de Jair Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro, como um dos vereadores mais eleitos do Brasil, com votação expressiva em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, reduto da burguesia ultraconservadora brasileira. Jair Renan conquistou 3.033 votos.

Um começo de consciência social, por outro lado, se manifestou quando genitores de crianças assassinadas foram eleitos vereadores, como a mãe de Isabella Nardoni, Ana Carolina Oliveira, tornou-se a vereadora mais votada na cidade de São Paulo, com 172.046 dos votos.

Tivemos também a polarização em Niterói - cidade com dois bairros vizinhos sem via própria de ligação, Rio do Ouro e Várzea das Moças, dependendo de rodovia estadual para se ligarem, atrapalhando o tráfego para cidades distantes da Região dos Lagos - , com o cosplei político de Eduardo Paes, Rodrigo Neves, e o bolsonarista, Carlos Jordy, disputando o segundo turno, a se encerrar no pleito do próximo dia 27.

Também aqui em Sampa, Ricardo Nunes, em sua primeira campanha para se eleger prefeito de São Paulo - sua gestão atual foi como vice de Bruno Covas, falecido por câncer em 2021 - , conseguiu competir, no segundo turno, com Guilherme Boulos, tirando a chance do extremo-direitista Pablo Marçal de concorrer para a prefeitura da mais importante capital do Brasil.

Boulos, diga-se de passagem, ancorou sua campanha na chamada "esquerda festiva", conforme pude conferir quando passo pela Avenida Paulista para ir ao trabalho. As causas identitárias foram prioridade na coligação liderada pelo PSOL e que tem o PT como integrante, a partir da candidata a vice, Marta Suplicy, na chapa do psolista. Teve até um candidato a vereador que defende, pasmem, a poluição sonora nas festas noturnas, alegando agir pelo "bem estar da população" (?!).

Mas é no Rio de Janeiro e em Salvador, cidades que já experimentaram a sina de "parques de diversões" urbanos, pagando o preço caro de colocar a diversão acima da qualidade de vida, que se observa a complexa situação do nosso país. As duas cidades já estão apagadas na projeção nacional, e sucumbiram a um provincianismo preocupante que permite, em contrapartida, a escalada da violência, tornando-se duas cidades muito inseguras para se viver.

Em Salvador, vemos a mediocridade sociocultural esperando que pessoas com notável inteligência e talento sirvam de "trampolim" para os medíocres de plantão, sempre esperando que algum mestre ou gênio lhes ofereça colo para o arrivismo daqueles que não sabem fazer ou fazem errado as coisas. Daí que a rádio que levanta a falsa bandeira do "jornalismo de verdade", a Rádio Metrópole, teve raízes num vergonhoso esquema de corrupção, com desvio de verbas da Prefeitura de Salvador que seriam para grandes obras de infraestrutura.

No Rio de Janeiro, temos o antigo ressentimento dos cariocas em terem perdido o status de capital do Brasil se convertendo, nos anos 1990, na diarreia social do pragmatismo, a "doutrina" de que " é piorando as coisas a curto prazo que iremos melhorar a longo prazo", causa defendida com espírito de intolerância por internautas cariocas, capazes de liderar "tribunais de Internet" e blogues difamatórios para derrubar a reputação daqueles que discordam desse pragmatismo.

Em ambos os casos, apesar de bastante diferentes, há um aspecto comum da ascensão das elites do poder econômico e de seus adeptos em busca de algum lugar ao Sol, seja o medíocre baiano sentando-se no colo de alguém mais competente, seja o reaça carioca embarcando numa onda para obter lucros com facilidade a partir de uma degradação social que vai da cultura à mobilidade urbana.

E aí vemos que nosso país está em situação bastante complexa. E mais complexa ainda porque o lulismo, bastante apagado nas eleições apesar de um aparente crescimento do partido nas votações do Legislativo municipal, não conseguiu fazer grandes e definitivas realizações para o Brasil. 

Uma coisa está certa: o Brasil não se tornará um país desenvolvido tão cedo. O que se deve fazer é deixar quieto mesmo e baixar a cabeça e aceitar que reconstrução do país não se faz com festa. O Brasil deveria, ao menos, sair de sua infância, antes que pague um preço caríssimo por sonhar demais.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LITERATURA DESCARTÁVEL

Nas minhas andanças cotidianas, vejo que as pessoas estão se livrando de obras que haviam sido best sellers  neste mercado analgésico que é o da comercialização de livros. Dias atrás, em Niterói, numa dessas caixas de doação de livros nos pontos de ônibus, vi muitos livros da série 50 Tons de Cinza , espécie de erotismo milenial cheio de suspense. No último dia 10, foi a vez de uma sacola deixado pela vizinhança para o recolhimento de descartáveis. Como era domingo, a sacola eu tive que pegar para botar embaixo no prédio, porque é proibido deixar material reciclável na escadaria nesse dia da semana. Por curiosidade, eu vi o conteúdo. Livros juvenis banais, desses que o calor do momento faz badalação intensa, mas o tempo condena ao esquecimento mais fúnebre, e o Floresta Encantada , "clássico" dos "livros para colorir". Tudo literatura analgésica, em que palavras como Conhecimento e Saber são praticamente inexistentes. São muitos vampiros estudantis, muitos cavaleiro...

O POPULARESCO MILIONÁRIO E A MPB PAUPERIZADA

O "HUMILDE" ÍDOLO BREGA-POPULARESCO JOÃO GOMES, CANTOR DE PISEIRO, É DONO DE IMÓVEIS COM VALOR SUPERIOR A R$ 5 MILHÕES. A campanha do “combate ao preconceito” queria nos fazer crer que a bregalização era a “cultura do povo pobre por excelência” e que seus ídolos eram coitadinhos em busca de um lugar ao Sol Tão Bonito da Música Popular Brasileira. Narrativas chorosas, que chegaram a contaminar a mídia esquerdista, lutavam para que o jabaculê musical de hoje se tornasse o folclore de amanhã. Mas a realidade mostra que os verdadeiros pobres e discriminados não estão na música popularesca facilmente tocada nas rádios, mas na MPB acusada de ser "purista", "elitista" e "higienista". Dois fatos recentes demonstram isso. Foi revelado que o cantor de piseiro João Gomes, que tentou se vender como pretensa “renovação” da MPB, apesar de sua gritante mediocridade artística, tem um patrimônio milionário com várias propriedades. Com apenas 23 anos, é dono de um...

A HIPOCRISIA DA BURGUESIA ILUSTRADA QUANTO AOS EMPREGOS PRECÁRIOS

OS LULISTAS NÃO PERCEBEM QUE O QUE CRESCEU EM EMPREGO FOI O TRABALHO PRECÁRIO, COMO O DOS TRABALHADORES DE APLICATIVOS, COM REMUNERAÇÃO PEQUENA E INCERTA? O negacionismo factual não gostou das críticas que se fez ao governo Lula sobre a priorização do trabalho precário nas políticas de emprego, enquanto o presidente fazia turnê pelo planeta deixando até o combate à fome para depois. Temendo ficar sem o protagonismo mundial que permitiria à burguesia ilustrada brasileira ter o mundo a seus pés, o negacionista factual, o porta-voz da elite do bom atraso, lutou para boicotar textos que desmascaram os “recordes históricos do Efeito Lula”, como no caso dos empregos que pagam um ou dois salários mínimos. Apesar de sua postura “democrática e de esquerda” e de sua “defesa da liberdade humana com responsabilidade” - embora se vá entender que essa defesa “responsável” inclui atos como fumar cigarros e jogar comida no lixo - , de vez em quando explode nos corações do negacionista factual o velho ...

AS RAZÕES PARA O DESGASTE DE LULA

Nos últimos dias, Lula está preocupado com seu desgaste político, marcado pela aparente ascensão de Flávio Bolsonaro nas supostas pesquisas de opinião. Perdido, Lula tenta correr contra o tempo lançando medidas e discutindo meios de reforçar a propaganda de seu governo. Lula, em entrevista há poucos dias com a mídia solidária - Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e Fórum - , afirmou, exaltando o terceiro mandato, que o quarto será "melhor que o terceiro" e que o Brasil dará "um salto estrutural" no próximo mandato, com a "transformação do país em uma nação desenvolvida, apoiada em crescimento econômico, inclusão social e fortalecimento institucional". É sonhar demais para um país que social e culturalmente está bastante deteriorado. O terceiro mandato de Lula tornou-se o mais medíocre dos três. Ambicioso, mas pouco produtivo. Com muita grandiloquência e poucas e mornas realizações. Muita festa e pouca reconstrução. Colheita sem plantação. Muito falatório...

COMO O “JORNALISMO DE ESCRITÓRIO” DESQUALIFICOU NOSSA IMPRENSA

O JORNALISMO DE ESCRITÓRIO ATUA COMO UMA EXTENSÃO MAIS OU MENOS FLEXÍVEL DA GRANDE MÍDIA. Um dos fenômenos que se ascenderam no período de Michel Temer e que não foram superados é o “jornalismo de escritório”, versão mais radical da “liberdade de empresa” que definiu os padrões da mídia venal. Um jornalismo asséptico, insosso, inodoro, supostamente neutro mas com algumas posturas “críticas” que nem de longe deixam de comprometer o status quo. Ele se vende como “o jornalismo de novos tempos”, tido como “mais responsável” e que trata a notícia como um “produto”. Interage com a overdose de informação das rádios all news, que derrubaram todas as expectativas libertadoras do passado recente, passando a ser apenas versões remix dos telejornais da TV, sendo um jornalismo que, independente da qualidade, vale mais pela excessiva quantidade de notícias que impede o ouvinte de parar para pensar. O “jornalismo de escritório” tornou-se o sonho realizado dos barões da mídia desde os tempos do AI-5, ...

LULA DEIXA A MÁSCARA CAIR SOBRE OS "RECORDES HISTÓRICOS" DO EMPREGO

A NARRATIVA DO GOVERNO LULA SEGUE HOJE RIGOROSAMENTE O MESMO DISCURSO DE "CRESCIMENTO DE EMPREGO" QUE O GOVERNO MICHEL TEMER LANÇOU HÁ CERCA DE DEZ ANOS. Uma notícia divulgada pelo portal Brasil 247 acabou soando como um "fogo amigo" no governo Lula. A notícia de que a maior parte do crescimento do emprego, definido como "recorde histórico" e classificado como "Efeito Lula", se deve a empregos com um ou dois salários mínimos. O resultado, segundo o levantamento, ocorre desde 2023, primeiro ano do terceiro mandato do petista, candidato à reeleição. Só 295 mil trabalhadores foram contratados, no período, recebendo apenas um salário mínimo. A notícia foi comemorada pela mídia esquerdista, mas traz um aspecto bastante sombrio. O de que a maioria das contratações, mesmo sob a estrutura de trabalho formal sob as normas da CLT, corresponde ao trabalho precário, em funções como operador de telemarketing  e trabalhadores de aplicativos, funções conhecida...

COPA DO MUNDO E A PAIXÃO TÓXICA PELO FUTEBOL NO BRASIL

O bordão, de valor bastante duvidoso, que atribui o futebol como “única alegria do povo brasileiro”, tem um quê de ressentimento, de baixa autoestima disfarçada de orgulho e de altivez. E diz muito dessas emoções confusas, meio presunçosas, meio dotadas de falsa modéstia, que contamina a mente do brasileiro médio, perdido entre ser maioral e ser coitado. Diante da proximidade da Copa do Mundo, o fanatismo pelo futebol, que costuma ser regionalizado, se torna nacional. E aí vemos surgirem “torcedores de ocasião” a “vestir a camisa de CBF”, não mais por histeria bolsonarista, mas por outra histeria, a futebolística. No Rio de Janeiro, o futebol vira até pauta para assédio moral. E não é pela possibilidade de um patrão torcer pelo time diferente do seu empregado, pois aí eles acham até saudável fingir briguinha por causa do time de cada um. O drama cai contra quem não curte futebol, que acaba sendo vítima de desdém e até do risco de perder o emprego. Mas no resto do Brasil, se esse risco ...

O PREOCUPANTE PRECONCEITO SOCIAL NAS CONTRATAÇÕES DE EMPREGO

As empresas estão construindo suas graves crises e não percebem. Vivendo o imediatismo do prestígio, da visibilidade e da busca pelo lucro fácil e rápido, as empresas cometem um erro gravíssimo ao rejeitar currículos e a contratar gente com mais visibilidade do que talento, criando riscos de decadência a médio prazo. O escândalo do Banco Master não nasce da noite para o dia. Durante anos, o banco controlado pelo hoje presidiário Daniel Vorcaro viveu uma rotina harmoniosa de lucros abusivos, dentro de um clima de paz profissional que parecia eterno, até denúncias virem à tona gerando incidentes como os que vimos nos noticiários. O mercado de trabalho não consegue perceber que talento vem da alma e não de uma aparência atraente. Não vem de influenciadores capazes de gesticular e falar coloquialmente, mas isso é insuficiente para assumir tarefas técnicas como as de Analista de Redes Sociais, função que, desgastada, mudou seu nome para Analista de Marketing Digital. Não receber currículos ...

O FALSO ENGAJAMENTO DO POP COMERCIAL E DO BREGA-POPULARESCO

ACREDITE SE QUISER, MAS ULTIMAMENTE MUITA GENTE PENSA QUE "LUA DE CRISTAL", SUCESSO DE XUXA MENEGHEL, É UMA "CANÇÃO DE PROTESTO". O pop comercial de hoje vive seu complexo de superioridade. Seus fãs, dotados de muita arrogância, chegam a fazer ataques contra a música de qualidade. Acham que a chamada “música de sucesso” é superior só porque atrai um grande público jovem e que se sustenta pela forte presença nas redes sociais e nas páginas de celebridades (e subcelebridades). Embora se baseie estruturalmente no pop dançante dos anos 1980 e 1990, esse pop comercial, nos últimos anos, tenta iludir a opinião pública com um falso engajamento e uma falsa militância que fez até as pessoas, no Brasil, acreditarem que sucessos da axé-music e do pop infantil brasileiros fossem “canções de protesto”. E muita gente boa, de nossa crítica musical, embarca nessa armadilha. Do Bad Bunny ao BTS, de Xuxa Meneghel ao grupo As Meninas, a atribuição de falso engajamento sociopolítico e ...

AS ESQUERDAS MÉDIAS E A GOURMETIZAÇÃO DA MÚSICA BREGA-POPULARESCA

CENA DO MINIDOCUMENTÁRIO  MEXEU COMIGO , SOBRE A CENA DO ARROCHA EM SERGIPE. Diferente da porralouquice de gente como o professor baiano Milton Moura e seus “pagodes impertinentes” e do “filho da Folha” Pedro Alexandre Sanches brincar de ser “bom esquerdista”, ressurge um movimento de intelectuais e jornalistas que querem fazer renascer o “combate ao preconceito” da bregalização, agora sob o verniz da “objetividade”. A postura generalizada do “capitalismo musical” do músico baiano Rodrigo Lamore, colunista do Brasil 247, e as leituras do colunista Augusto Diniz da Carta Capital, numa linha parecida com a de Mauro Ferreira no portal G1, refletem essa onda de ‘“imparcialidade” na análise sobre música brasileira. No caso do Rodrigo Lamore, ele tenta generalizar a condição de “mercadoria” da música, como se não pudesse haver a função social, artística e cultural na atividade musical. Parece papo de ressentido. Se nomes popularescos, só para citar os da axé-music (o ensaísta também é mú...