O Brasil tem dessas estranhas peculiaridades. No exterior, a overdose de informação é um fenômeno no qual a sobrecarga de notícias contribui para o desgaste mental do receptor, que é impedido de parar para pensar e refletir sobre o que foi noticiado, restando a ele apenas estar de acordo com a linha editorial do veículo emissor. No Brasil, porém, a overdose de informação, em vez de ser chamada pelo nome, é vista como “liberdade de informação”.
Digo isso porque, na postagem anterior, causou estranheza um jornalista não curtir jornalismo sobrecarregado. Mas a verdade é que não somos uma ilha cercada de noticiários ao redor. Temos nossas vidas e seria muito chato se tivéssemos que ficar só recebendo notícias, sem falar que isso seria estéril, pois se a vida fosse refém de noticiários, nenhum fato seria produzido, pois ninguém viveria, só consumiria noticiários e, sem vida, também os noticiários morreriam por falta de notícias.
É hipócrita essa sociedade que vê as coisas de maneira fragmentada. Ao mesmo tempo que defende o prazer comum de dormir a manhã inteira, defende o consumo de uma overdose de notícias. O negacionista factual é um meritocrata da notícia, para ele a overdose de informação soa como música, ele que vê os fatos não de forma autônoma mas como produtos de narrativas trazidas por gente de prestígio e poder.
E o papo de "liberdade de informação" ou "liberdade de imprensa" se dissolve quando a mídia venal anda "empolgada demais" com o produto "jornalismo", vide a multiplicação de rádios noticiosas que apenas seguem a lógica da elite empresarial. E aí a "liberdade de imprensa" acaba se tornando "liberdade de empresa", derrubando toda aquela utopia da "salvação da lavoura".
A overdose de informação serve de alerta para o que quer o poder midiático que, sob o pretexto da liberdade de expressão ou de imprensa, investe num bombardeio de notícias que acaba padronizando as agendas temáticas e fazendo do público ouvinte uma espécie de “gado opinativo”. O prestígio do comunicador e a hierarquização da opinião corrompem o debate e fazem com que eu veja aberrações como nos tempos do Orkut.
Na página da Band News Fluminense, eu fiquei abismado com o clima de tietagem do público ouvinte, que destoa da expectativa de um público mais objetivo e debatedor. Os comentários se limitavam, pasmem, a pedidos de aumento de duração dos programas, duplicando o horário. Imagine 48 horas de programação num espaço de 24 horas!
É pura falta de objetividade, o que mostra o quanto a overdose de informação não traz esclarecimento e não aumenta, em qualidade, a obtenção de conhecimento. A notícia acaba se tornando um entretenimento como qualquer outro. E, mais ainda, uma mercadoria de consumo a mais a não fazer diferença no nosso cotidiano.
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