Pular para o conteúdo principal

NUNCA FUI UM FÃ DE NOTICIÁRIOS PROLONGADOS DE RÁDIO FM


Hoje em dia, o rádio FM está praticamente morto, sendo apenas uma vitrine comercial que retransmite o que webradios, podicastes e camais do YouTube administrados pela grande mídia produzem. O rádio FM, com toda a pretensão publicitária, com todo o lobby do poder midiático e com toda a blindagem de internautas, não conseguiu substituir o rádio AM nem em herdar seu carisma e seu legado históricos.

A chamada “aemização” das FMs, com programas de locutor, jornalismo prolongado e jornadas e transmissões esportivas, além de contar com o ranço jabazeiro e o comportamento superficial das FMs comerciais, não tinham a criatividade das antigas AMs e, quando tentavam imitar a linguagem de AM, como em muitas transmissões de futebol, soavam velhas e mofadas, como que perdidas em algum arquivo do começo dos anos 1970.

A “invasão AM” nas emissoras FM foi um bonapartismo radiofônico da qual houve muitas expectativas: a liberdade de opinião, o direito à informação, a prestação de serviço etc. Foi uma utopia na qual a maioria das pessoas apostou, acreditando que noticiário prolongado, jornadas esportivas e programas de locutor nas ondas de FM eram a salvação do planeta.

Tudo parecia perfeito. O mundo cabendo dentro de um estúdio de FM. Jornalistas que prometiam desvendar até os segredos do universo. Um aparelhinho radiofônico conduzindo debates importantes. Botecos atuando como fóruns de grandes debates. Locutores atuando como se fossem um poder paralelo, como se o quarto poder substituísse os outros três. Ouvintes se sentindo sábios apenas porque passam mais de duas horas ouvindo notícias em FM.

Sou jornalista, mas nunca me iludi nem fui fã de noticiário prolongado em FM. Sintonizava o rádio FM para puvir música. Eu preferia um gilette press, boletins curtos que davam uma noção mínima do que acontecia de relevante no Brasil e no mundo. Mas considerava que o rádio AM é que seria espaço para noticiários longos, esportes etc, evidentemente sem o quixotismo que as FMs desse filão expressaram.

A postura pode estranhar muita gente. Um jornalista não querer ouvir noticiário longo em FM? Vão me chamar de alienado, de não estar em busca de informações aprofundadas etc. Mas eu tenho um motivo muito simples para esta posição inusitada que rompe com protocolos e etiquetas corporativas.

E porque não se lê rádio FM.

Não se pode cobrar uma abrangência ou uma sobrecarga de informações nas ondas de FM, como se suas rádios fossem a mesma mídia do jornal impresso. A mídia escrita é insubstituível, no sentido de que a leitura é um ato peculiar, que não pode ser substituído por uma programação sobrecarregada de notícias e comentários, despejados a toda hora sem permitir que a pessoa pare para pensar.

Enfiar um mundo inteiro para dentro de um estúdio de FM é impossível, mas o recorte desse mundo para jogar coisas mais importantes não resolve as coisas. Além disso, mesmo eu sendo jornalista eu tenho minha vida, não vou viver só recebendo notícias. E prefiro ler jornais, ver a Internet e ler um livro se eu quiser me aprofundar sobre o assunto.

Preciso comer, beber, passear, dormir, descansar, ver paisagens, ouvir música. E conhecer música de qualidade é também se informar, e é mais empolgante e instigante do que ficar remoendo, via rádio FM, a mesma agenda noticiosa que a TV exibiu trocentas vezes na véspera. 

Além disso, o que se viu foi a ascensão do showrnalismo, da mesma forma que o agenda setting passou a viver sua reputação de hit-parade de FM. E vamos combinar que as rádios all news - que eu apelidava de “ounius” - eram extended versions dos noticiários de TV que pouco somavam à agenda temática de jornalões e TVzonas. 

Houve e há bons jornalistas nessas rádios, não há dúvida, mas acho um exagero jogar notícias 24 horas por dia. Podia intercalar notícias e música. Notícias jogadas uma atrás da outra soam como uma overdose de informação, isso não nos deixa respirar, não dá para parar para pensar diante dessas máquinas de jogar notícias.

Esse é o problema. E o pior é o marketing oportunista de certas rádios, que tratavam os ouvintes como se eles não tivessem opinião e só passariam a tê-la se ouvirem os programas comandados por locutores jornalistas. No interior é até pior, como se viu em Salvador, com locutores broncos e matutos que mal tinham um precário diploma de ensino médio e queriam dar seu pitaco até na apresentação do Balé Bolshoi.

Outra coisa é o estrago que se causou com a religião do “opinionismo” que essa mídia produziu. Como um Frankenstein, o noticiário prolongado, combinando opinionismo e o prestígio dos seus locutores jornalistas, acabou herando influenciadores que passaram a mentir, im artifício para quem quer dar a opinião da forma que meramente lhe agrada.

O jornalismo prolongado de FM acabou tratando a notícia como mercadoria e toda aquela utopia de racionalidade e livre pensamento ruiu de vez. A ilusão de que a qualidade da informação se dava pela quantidade de tempo transmitida também se desfez. E o opinionismo gerado abriu caminho para as fake news e isso acabou matando o jornalismo.

Dá até para comparar com a MTV, priorizando reality shows. As FMs passaram a priorizar notícias e esportes, tornando a programação uma grande mesmice. Pelo jeito, o rádio FM matou o astro da imprensa escrita.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LITERATURA DESCARTÁVEL

Nas minhas andanças cotidianas, vejo que as pessoas estão se livrando de obras que haviam sido best sellers  neste mercado analgésico que é o da comercialização de livros. Dias atrás, em Niterói, numa dessas caixas de doação de livros nos pontos de ônibus, vi muitos livros da série 50 Tons de Cinza , espécie de erotismo milenial cheio de suspense. No último dia 10, foi a vez de uma sacola deixado pela vizinhança para o recolhimento de descartáveis. Como era domingo, a sacola eu tive que pegar para botar embaixo no prédio, porque é proibido deixar material reciclável na escadaria nesse dia da semana. Por curiosidade, eu vi o conteúdo. Livros juvenis banais, desses que o calor do momento faz badalação intensa, mas o tempo condena ao esquecimento mais fúnebre, e o Floresta Encantada , "clássico" dos "livros para colorir". Tudo literatura analgésica, em que palavras como Conhecimento e Saber são praticamente inexistentes. São muitos vampiros estudantis, muitos cavaleiro...

O POPULARESCO MILIONÁRIO E A MPB PAUPERIZADA

O "HUMILDE" ÍDOLO BREGA-POPULARESCO JOÃO GOMES, CANTOR DE PISEIRO, É DONO DE IMÓVEIS COM VALOR SUPERIOR A R$ 5 MILHÕES. A campanha do “combate ao preconceito” queria nos fazer crer que a bregalização era a “cultura do povo pobre por excelência” e que seus ídolos eram coitadinhos em busca de um lugar ao Sol Tão Bonito da Música Popular Brasileira. Narrativas chorosas, que chegaram a contaminar a mídia esquerdista, lutavam para que o jabaculê musical de hoje se tornasse o folclore de amanhã. Mas a realidade mostra que os verdadeiros pobres e discriminados não estão na música popularesca facilmente tocada nas rádios, mas na MPB acusada de ser "purista", "elitista" e "higienista". Dois fatos recentes demonstram isso. Foi revelado que o cantor de piseiro João Gomes, que tentou se vender como pretensa “renovação” da MPB, apesar de sua gritante mediocridade artística, tem um patrimônio milionário com várias propriedades. Com apenas 23 anos, é dono de um...

COMO O “JORNALISMO DE ESCRITÓRIO” DESQUALIFICOU NOSSA IMPRENSA

O JORNALISMO DE ESCRITÓRIO ATUA COMO UMA EXTENSÃO MAIS OU MENOS FLEXÍVEL DA GRANDE MÍDIA. Um dos fenômenos que se ascenderam no período de Michel Temer e que não foram superados é o “jornalismo de escritório”, versão mais radical da “liberdade de empresa” que definiu os padrões da mídia venal. Um jornalismo asséptico, insosso, inodoro, supostamente neutro mas com algumas posturas “críticas” que nem de longe deixam de comprometer o status quo. Ele se vende como “o jornalismo de novos tempos”, tido como “mais responsável” e que trata a notícia como um “produto”. Interage com a overdose de informação das rádios all news, que derrubaram todas as expectativas libertadoras do passado recente, passando a ser apenas versões remix dos telejornais da TV, sendo um jornalismo que, independente da qualidade, vale mais pela excessiva quantidade de notícias que impede o ouvinte de parar para pensar. O “jornalismo de escritório” tornou-se o sonho realizado dos barões da mídia desde os tempos do AI-5, ...

“DO YOU WANNA DANCE?” E O VIRALATISMO BRASILEIRO

"DO YOU WANNA DANCE?" VERSÃO COM RAMONES - Nada a ver com "A meia-luz ao som de Johnny Rivers". Este ano fazem 50 anos do primeiro disco dos Ramones e vi no Instagram um vídeo de um filme de comédia estudantil, em que a banda novaiorquina, em sua saudosa formação original, interpretava a música “Do You Wanna Dance?”, que no Brasil tem uma trajetória surreal. Aqui a canção é uma balada - música lenta, gente, não o jargão da Faria Lima para definir festas noturnas - cantada por um crooner juvenil lançado nos anos 1960, Johnny Rivers, marcado por gravar covers . A versão de Johnny Rivers para “Do You Wanna Dance?” fez sucesso estrondoso no Brasil a ponto de muitos pensarem que foi criação original do cantor. Mas não é. E nem foi a versão mais destacada lá fora, onde Rivers era mais conhecido por outro cover, “Secret Agent Man”, de 1963. A superestimada versão, na verdade, é composição original do cantor Bobby Freeman, que interpretou a canção em 1958 e tinha como títu...

QUANDO O MERCADO DE TRABALHO SE TRANSFORMA NUMA GRANDE PIADA

Já descrevemos a “invasão” de comediantes e influenciadores digitais que fez com que a função de Analista de Redes Sociais se transformasse numa grande piada. As empresas que adotam esse procedimento, iludidas com o prestígio de suas bolhas sociais, acabam se queimando a médio prazo, fazendo esta função ser entendida de maneira confusa e negativa pela sociedade. Sim, porque muita gente acaba achando que ser Analista de Redes Sociais é contar piada no intervalo do cafezinho e gravar propagandas para o Instagram, sempre caprichando na linguagem corporal e nos gestos, mas sem apresentar algo que fosse minimamente relevante. Junte-se a isso a atitude suicida das empresas em rejeitarem currículos e o desastre parece impossível hoje, mas será inevitável amanhã. O mercado de trabalho parece se comportar como se fossem um monte de lojinhas da Faria Lima (não a avenida, mas o “principado” da burguesia brasileira), só aceitando quem traz prestígio e visibilidade, não necessariamente talento. A g...

A PERIGOSA AMBIÇÃO DE LULA

LULA QUER TUDO DE TUDO E VISA A CONSAGRAÇÃO PESSOAL, E ISSO É MUITO PERIGOSO. Antes de fazermos nossas análises, devemos lembrar que as críticas feitas ao Lula não seguem o prisma bolsonarista com seus clichês “contra a roubalheira”. As críticas aqui seguem um tom de objetividade e é por isso que o negacionista factual prefere as narrativas do bolsonarismo, que são fáceis de desmontar. As nossas críticas são mais complexas e realistas, daí que o negacionista factual, o “isentão democrático”, prefere, neste caso, promover o boicote a textos como os nossos. Dito isso, vejo mais com apreensão do que com esperança as promessas de Lula para a sua reeleição. Ele promete tudo de tudo, como em 2022. Faz pouco, como se viu no terceiro mandato, mas diz que fez mais do que foi feito. E hoje ele parece mais ambicioso do que há quatro anos, sem falar que em 2022 ele prometeu reconstrução apostando num inadequado clima de festa. Há um narcisismo enrustido em Lula, que faz promessas mirabolantes. Ele...

OFICINA DE IDEIAS OU DE MOVIMENTOS BRAÇAIS?

A má repercussão da função de Analista de Redes Sociais e similares, um trabalho que poderia ser técnico e no entanto se torna mais um trabalho impertinente, com o empregado fazendo umas duas campanhas para o cliente da tal empresa de Comunicação, ou então indo para algum lugar para gravar propagandas para o Instagram. Vemos o quanto essas empresas, que se comportam como se fossem consultorias de fundo de quintal, "oficinas de ideias" que mudam de nome a cada seis ou oito meses, dependem de influenciadores ou comediantes para projetar suas imagens, e fica fácil apelar para eles para obter visibilidade e prestígio. O trabalho acaba ficando longe de qualquer propósito técnico. Em tese, um analista de redes sociais deveria ter atribuições de Publicidade e Propaganda, algum apuro que pudesse administrar a imagem do cliente, estudando seu desempenho nas redes sociais e suas maneiras para conquistar o público específico. Em vez disso, o que se tem? Uma ligeira análise do desempenho...

LULA AINDA CUSTA A ENTENDER SEU DESGASTE

Lula não consegue entender seu desgaste e o aumento da margem de desaprovação. Esquece ele que sei governo foi medíocre, que sua prioridade em viajar primeiro para o exterior irritou o povo pobre, que os relatorismos dos “recordes históricos” da série “Efeito Lula” estavam longe de refletir a realidade e que suas alianças “democráticas” com a burguesia, mesmo de maneira “pragmática”, fizeram o povo se afastar dele. Para piorar, Lula, depois de admitir que o salário mínimo de R$ 1.621 é um valor baixo, metade do valor equivalente adotado no Chile e no Uruguai, pisou na bola ao declarar que os próximos aumentos salariais só ocorrerão no mesmo cronograma atual. Animado, Lula e sua equipe anunciaram o que pretendem fazer, deixando só para 2030, último ano do hipotético quarto mandato, um valor superior a R$ 2 mil. O aumento previsto será assim: R$ 1.812 em 2028, R$ 1.913 em 2029 e cerca de R$ 2.020 em 2030, ultrapassando pela primeira vez a marca dos R$ 2 mil. Muito pouco para os preços de...

'MICHAEL' E A SUPERVALORIZAÇÃO BRASILEIRA DO "REI DO POP"

A repercussão do filme Michael , de Antoine Fuqua, dedicado à vida do falecido ídolo pop Michael Jackson, é alvo de muita controvérsia. A produção é protagonizada por Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho do também cantor Jermaine Jackson, um dos três remanescentes do Jackson Five (Tito Jackson faleceu em 2025 e só resta, além de Jermaine, Jackie e Marlon) e de sua banda derivada, os Jacksons. O filme tornou-se um sucesso de bilheteria, sobretudo no Brasil, onde o "Rei do Pop" é superestimado, mas a crítica chamou a atenção de que a narrativa do longa, autorizada pelos familiares de Michael, explora demais o mito do cantor e não traz uma abordagem realista dele. Em que pese o fato de parte das críticas feitas ao filme serem bastante negativas, Michael reforçou, para o público brasileiro, é notório o mito que o finado cantor tem no nosso país, mais do que nos Estados Unidos, onde o ídolo, falecido em 2009 quando iria retomar a carreira, passou os últimos anos como uma su...

LULA PAGA CARO PELO PRAGMATISMO

No seu medíocre terceiro mandato, Lula só foi fazer as coisas na última hora, pressionado pela queda de popularidade. Nos dois primeiros anos deste mandato, Lula preferiu viajar pelo mundo e fazer discursos, enquanto a ficção dos relatorismos falava em "recordes históricos", supostas realizações que, de tão fantásticas, fáceis e imediatas demais, parecendo ter surgido da noite para o dia, causavam desconfiança nas classes populares, que não viam essas realizações se concretizarem no seu cotidiano. Ontem Lula fez um discurso para o Dia do Trabalhador. As comunicações do seu governo se limitam ao âmbito da publicidade, não sensibilizando o povo que está revoltado com dívidas e com alimentos caros, enquanto o salário mínimo só aumenta em índices bastante precários, que não acompanham o crescimento dos preços. Lula tenta agradar, defendendo o fim da escala 6x1 no trabalho e retomou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas dos brasileiros, permitindo a liberação de até 20%...