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CLASSE DOS MÚSICOS DEVERIA REAGIR QUANDO A MÍDIA CHAMA GRUPOS VOCAIS DE "BANDAS"

SER MÚSICO DE UMA BANDA NÃO É TAREFA FÁCIL.

Tem vezes que certas instituições ou classes adotam posturas um tanto bovinas, relativizando certos absurdos alegando que "os tempos são outros". É o caso de agora chamar qualquer grupo vocal de "banda", numa tradução equivocada do termo inglês band, que no caso dos grupos vocais deve ser traduzido não como "banda", mas como "conjunto" ou, quando muito, "bando".

A classe dos músicos fica indiferente à atitude da mídia em geral, principalmente a de celebridades e a mídia voltada para o público juvenil, de chamar grupos vocais de "bandas", dentro daquela percepção um tanto apressada e confusa dos conjuntos musicais.

Dói nos olhos e nos ouvidos quando alguém chama, por exemplo, o Menudo de "banda". O grupo foi marcado por ter somente cantores-dançarinos, que nem sequer compunham as músicas. Pior: vários de seus sucessos tinham apenas uma base de teclado,

Mas o Brasil tem essa vocação kafkiana de aceitar absurdos com uma comodidade bovina. A classe dos músicos, a mesma que protestou unida contra o arbitrário então presidente Wilson Sândoli, vindo dos tempos da ditadura, aceita que grupos vocais sejam impunemente definidos de "bandas" pelos jornalistas medíocres que povoam a grande mídia.

Recentemente vi um histórico da apresentadora Adriane Galisteu na revista Caras e a publicação definiu que ela integrou a "banda" Meia Soquete. Só que era um grupo vocal, desses que o pop juvenil cria aos montes. Nem de longe era banda, porque as cantoras só cantavam, nem responsáveis pelas músicas elas eram.

BANDA? - NÃO SE VÊ INSTRUMENTISTA ALGUM ENTRE OS INTEGRANTES DO MENUDO.

Ninguém sabe o duro que faz um instrumentista. O público leigo, que não vê diferença entre grupos de cantores-dançarinos e grupos de instrumentistas (ainda que tenha um ou dois cantores que não toquem instrumentos, mas sempre tem, pelo menos, outros dois instrumentistas), pensa que o instrumentista obteve seu talento pela varinha (instrumento?) da fada madrinha.

Não é assim. O instrumentista desenvolve seu talento de maneira dura. É uma trabalheira ter que passar horas e horas ensaiando um acorde e errando, tentando memorizar notas musicais e repeti-las de maneira exemplar.

O músico tem trabalheira da hora que escolhe a marca do seu instrumento - tem que ser aquela que lhe garanta a qualidade sonora desejada - , um amplificador que não pife nem entre em curto-circuito e umas horas de ensaios, às vezes pagando dinheiro para alugar um estúdio.

Ter que escolher horários disponíveis para estudo, muitas vezes depois de uma jornada de trabalho, aliando a sua disponibilidade de tempo com a possibilidade de evitar incomodar a vizinhança, isso é um cálculo de tempo danado, e tudo para ensaiar uma porção de acordes para ver se inicia uma carreira como instrumentista.

Não é fácil, leva tempo e exige muita concentração e dedicação. Mesmo dentro do punk rock, onde as pessoas tocam instrumentos "na cabra-cega", sem saber um acorde sequer, há a necessidade de memorizar esses poucos acordes, afinal terão que tocar as mesmas músicas várias vezes, e isso requer ensaios, por mais toscos os arranjos e acordes criados.

E aí, com toda essa trabalheira, os grupos de músicos têm que competir com aqueles que apenas cantam e dançam, e que apenas têm o trabalho de ensaiar uma coreografia decidida por outrem. Aí é que entra o desastre.

Imagine um promotor de eventos que escolhe "dez bandas" e metade delas é de meros conjuntos vocais. Isso representa a desvalorização séria e grave do músico profissional. E não adianta chamar aquele cantor-dançarino de "músico" que isso não cola. Como "instrumentista", ele é simplesmente inútil.

E como reclamar para os ativistas que representam os músicos no Brasil? Será que eles reagirão com indiferença? Ou arrumarão desculpas tipo "são outros valores"? Ou apelarão para o "deixa pra lá"? Grupos de instrumentistas, que são as verdadeiras bandas, dão um duro danado para serem passados para trás por marionetes de coreógrafos. Não dá para relativizar.

Os instrumentistas têm o seu trabalho. Se agrupando, formam bandas. Eles é que são bandas. Grupos de cantores e dançarinos, quando muito, podem ser até considerados "corais", termo muito pretensioso (para o prestígio que a definição "coral" tem na música erudita), mas mil vezes mais realista.

Se definirmos grupos como Menudo e Pussycat Dolls como "corais" ou "coros" medíocres, ainda faz muito sentido. Porém, quando eles são definidos como "bandas" - mais "moderno", mas gravemente errado - , isso representa um acinte ao trabalho daqueles que lutam para aprender algum instrumento musical.

Deveria haver movimentos diversos, reações nas mídias sociais e tudo, para impedir que jornalistas impunemente chamem de "bandas" meros grupos vocais. Isso é um desserviço à informação musical e um atestado de que nossa grande mídia está tomada de gente incompetente, contratada com mão-de-obra barata e exercendo funções sem qualquer especialidade.

Deve-se reagir contra o emburrecimento cultural, em vez de relativizá-los e arrumar desculpas tipo "são outros tempos" e blá blá blá. Independente da mudança dos tempos, não dá para sermos bovinos diante de absurdos e outros desastres.

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