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CHITÃOZINHO & XORORÓ REBAIXARAM OBRA DE TOM JOBIM À PIEGUICE DOS ANOS 1950


Na falta de renovação da MPB autêntica, perdida em intermináveis tributos e em autorreverências, surgem também oportunistas que sempre querem tirar uma casquinha do melhor cancioneiro, na falta de um repertório autoral que seja, ao menos, suportável.

Nos últimos meses, é notícia na mídia o "tributo" feito pela dupla breganeja Chitãozinho & Xororó, pasmem, dedicado ao mestre Antônio Carlos Jobim. Canastrões, os dois irmãos paranaenses, que começaram a carreira deturpando a música caipira para os moldes piegas dos Bee Gees (com os quais os dois duetaram certa vez), tentam pegar carona na Bossa Nova.

A dupla é mais grife do que algo realmente relevante. O que significa uma "embalagem" bastante sofisticada e uma blindagem que inclui desde a grande mídia até internautas troleiros. Fenômeno da Era Collor, Chitãozinho & Xororó ainda são ideologicamente conservadores e eleitores do PSDB.

Vale destacar que a crítica musical anda condescendente com o disco oportunista, que não se somará às homenagens ao músico carioca, que faleceu há pouco mais de 20 anos, em dezembro de 1994, depois de cerca de quatro décadas de carreira.

O jornalista Mauro Ferreira, de O Dia, por exemplo, na tentativa de estabelecer um denominador comum entre seus conhecimentos musicais e as pressões do jabaculê (que exigem respeito a "artistas" de sucesso, verdadeiras mercadorias à venda), classificou o álbum da dupla como "bom". Muita generosidade.

Se o tributo à Bossa Nova gravado, anos atrás, por Roberto Carlos e Caetano Veloso, soa como uma daquelas cansativas homenagens das quais foi reduzida a MPB autêntica de hoje, algo bastante "velho", sobretudo pelo que hoje Roberto Carlos representa como celebridade e cantor, não será uma dupla breganeja, por sinal influenciada pelo RC mais conservador, que resolverá a situação.

Pelo contrário. Chitãozinho & Xororó conseguiram eliminar todo aquele estado de espírito bossanovista, em vez de somá-lo a uma estética caipira. Se fosse um nome da música caipira autêntica, o tributo a Tom Jobim soaria uma sincera adaptação do espírito bossanovista à cultura do campo, com um belíssimo resultado.

Mas, com a desafinação da dupla paranaense - o que não lhes daria o mérito de gravar o autor (junto ao precocemente falecido Newton Mendonça) de "Desafinado" - , maquiada por um trabalho que só parece sofisticado porque outros músicos e arranjadores foram chamados para "embelezar" o trabalho, a dupla retrocedeu em vez de avançar o legado bossanovista.

Chitãozinho & Xororó rebaixaram a obra de Tom Jobim à pieguice anterior ao advento da Bossa Nova, que remete às canções chorosas comerciais dos anos 1950, perdidas na bolerização generalizada, inspirada não na força original dos boleros (que Eydie Gormé e o Trio Los Panchos conseguiram captar bem, assim como Nat King Cole), mas por uma deturpação hollywoodiana do ritmo.

É bom deixar claro que "Chega de Saudade" é um verdadeiro manifesto contra a mesmice sentimentaloide dos boleros estereotipados, das falsas serestas, de todo um romantismo embolorado que fazia sucesso nas áreas rurais e suburbanas sob influência do coronelismo radiofônico que lançou a música brega da qual Chitãozinho & Xororó tornaram-se alguns de seus ícones.

É só observar o poema de Vinícius de Moraes nessa canção-manifesto, dando um basta na "saudade" dos falsos boleros, da "distância" amorosa das falsas serestas, criando um estado de espírito alegre, ensolarado, vibrante, que tanto poderia ser em Ipanema como poderia ser em Ouro Preto ou Rondonópolis, mas a Bossa Nova se situava na Zona Sul carioca e assim se fez.

Esperamos até agora uma nova Bossa Nova, um novo Clube da Esquina ou alguém melhor que pudesse homenagear Tom Jobim à altura do seu saudoso talento. Mas, por conta de uma mídia e um mercado autoritário, temos que aguentar uma dupla breganeja deturpando o repertório do compositor com arranjos piegas e um oportunismo a ser divulgado em turnê para todo o país.

Com isso, Chitãozinho & Xororó jogaram uma pá de cal na Bossa Nova, dando a ela uma aura que nada tem a ver com o gênero, mas que também está muito longe de representar a digna leitura caipira do repertório do Antônio Brasileiro.

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