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EMMA WATSON E O ATRASO BRASILEIRO


Diz um ditado popular que não se deve definir o conteúdo do livro pela capa. E isso mostra uma situação em que o caso mais retrógrado e atrasado não é aquele que as vãs aparências dão a impressão de ser.

Vejamos. No Rio de Janeiro, uma musa afeita a causar polêmicas e provocações e usa sua aparente sensualidade como "militância" participa de um evento em que outras mulheres usam os peitos nus como afirmação de seu modo de ser feminino.

Já em Davos, na Suíça, uma antiga estrela infanto-juvenil comparece a um evento considerado bastante conservador, em que os grandes capitalistas discutem, de acordo com seus interesses, os destinos do mundo. A atriz foi dar um discurso pregando a igualdade social entre homens e mulheres.

Certamente o incauto brasileiro irá acreditar que o contexto brasileiro é o mais moderno, o mais avançado e vai definir a distinta senhora, da qual descrevemos, como "militante feminista" e "corajosa desafiadora" da supremacia machista.

Por outro lado, o mesmo incauto pode acreditar que a ex-estrela mirim é metida a ativista, quer se autopromover e ainda aparece num evento comandado pelos homens mais ricos do mundo, responsáveis pelas maiores desigualdades sociais do planeta.

Não faltam motivos para o incauto acreditar nessas situações aparentes. Há até mesmo, no Brasil, um movimento de intelectuais "bacanas" que produziram até monografias, documentários e grandes reportagens - tomando emprestado até técnicas como a História das Mentalidades (abordagem da História que evoca os anônimos) e Novo Jornalismo (reportagem narrada como se fosse romance).

No entanto, a sua interpretação está errada. A aparência pode sugerir que a tal senhora, a funqueira Renata Frisson, a Mulher Melão, seja a "transgressora" da situação, enquanto a atriz Emma Watson fez o papel de "caretona" na ocasião, o Fórum Econômico Mundial. No entanto, é o inverso. E podemos aqui explicar por quê.

MULHER MELÃO EMPASTELOU O ATIVISMO FEMININO

O movimento pelo topless teria sido uma forma das mulheres pedirem o direito de poderem ficar nuas em praias, para se bronzearem, ou uma maneira de mostrar a importância do corpo feminino e sua correspondente beleza.

A manifestação, chamada ToplessInRio e ocorrida no último dia 20, na praia de Ipanema, seria uma forma de chamar a atenção da sociedade para a legalização e regulamentação da prática de topless nas praias brasileiras, sendo organizado por ativistas envolvidas com a causa.

O grande problema é que enfiaram a Mulher Melão no evento. Ela se destacou na mídia, inclusive estrangeira, menos por simbolizar alguma militância feminista e mais por simbolizar um sensacionalismo e um exibicionismo pitoresco. Infelizmente, sub-celebridades conquistaram a difícil técnica da produção de visibilidade.

A Mulher Melão, que se comportou de maneira presunçosa no evento, do contrário das outras manifestantes, serenas e discretas. A funqueira dá a impressão de estar competindo com Solange Gomes e a Mulher Filé o título de Miss Arrogância.

Parecia que a Mulher Melão era "dona" do toplessaço, se aproveitando de sua imagem sensacionalista, mas a verdade é que ela empastelou o ativismo feminino. Apesar de se autoproclamar "feminista", uma praxe entre as funqueiras, ela, a exemplo de suas pares, são orientadas pelos empresários (homens e machistas) a adotarem uma imagem de "mulheres-objetos".

Com isso, a manifestação das mulheres de topless foi bastante comprometida em seu propósito real, prejudicada pelo sensacionalismo de uma figura grotesca que só estava ali para vender o seu "corpo-mercadoria" e usar o evento para vinculá-lo à sua imagem. As demais mulheres saíram ofuscadas e continuam sofrendo a opressão do mesmo mundo machista que criou a Mulher Melão.

A ANTIGA HERMIONE E SEU DISCURSO FEMINISTA

Mais uma vez, Emma Watson deu um belo exemplo de visão futurista, apesar de usar como "vitrine" um evento conservador como o Fórum Econômico Mundial. Seu discurso sobre a solidariedade dos homens à luta das mulheres poderia muito bem ser difundido no Fórum Social Mundial, um evento paralelo.

Emma reprova o falso feminismo niilista que prega o "ódio aos homens", que no Brasil ganha matizes machistas porque são "mulheres-objetos" como Solange Gomes e a Mulher Melão que simbolizam essa causa infeliz.

A atriz franco-inglesa defende, em seus discursos, que os homens e mulheres poderiam conviver com equilíbrio e que os homens podem lutar contra o machismo e contra a opressão e injustiça que outros homens impõem às mulheres.

Certa vez, a atriz de Game of Thrones, a inglesa Maisie Williams (que curiosamente faz aniversário junto com Emma, em 15 de abril), definiu o feminismo de Emma como "de Primeiro Mundo", informando que nos países pobres ou emergentes a situação é bem pior, devido à violência sofrida pelas mulheres nesses países.

A visão de Maisie - que a mídia brasileira definiu como "discordância" ao feminismo de Emma - , no entanto, se soma ao debate promovido por Emma, que também não ignora que esse "ódio aos homens" venha justamente do "ódio às mulheres" promovido pelo machismo.

EMMA FOI MAIS MODERNA E PROGRESSISTA

A conclusão que temos é que Emma Watson foi mais moderna e bem mais progressista nesse caso comparativo, em que a essência de seu discurso e a sobriedade de sua personalidade fazem um grande diferencial.

Já a Mulher Melão não passou de uma oportunista, fazendo marketing barato de seu corpo siliconado, cujo simulacro de ativismo feminista a ninguém convence. E, como expressão da imagem de "mulher-objeto", ela se tornou mais uma militante do machismo que foi usada pelos machistas para dissolver um ato feminista através do sensacionalismo grotesco.

E mais uma vez o Brasil sucumbiu ao atraso. O pior cacoete do Brasil é querer ser "moderno" com o atraso, sendo futurista na aparência e retrógrado na essência. Afinal, até para assimilar certas modernices o Brasil é o último a saber e, quando assimila novidades, dilui sempre com aquilo que tem de velho e ultrapassado.

Daí que o "feminismo" da Mulher Melão não passa de um ato machista que tentou bagunçar a mobilização feminista das demais mulheres. A funqueira perdeu e o Brasil perde ainda mais com ela.

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