Pular para o conteúdo principal

O ATENTADO À REDAÇÃO DO CHARLIE HEBDO E O MUNDO EM TENSÃO

STEPHANE CHARBONNIER, CARTUNISTA E EDITOR DO CHARLIE HEBDO, FOI UM DOS MORTOS.

O humorismo amanheceu triste, com o atentado ocorrido em Paris, que teve como alvo a equipe da revista francesa de humor Charlie Hebdo, que costuma satirizar tudo, sobretudo as religiões. Três jovens, fundamentalistas islâmicos, invadiram a sede da revista e, entrando na sala de redação, abriram fogo contra quem encontravam na frente.

Morreram dez jornalistas da revista, um convidado e um policial que fazia a segurança na calçada em frente ao prédio. Quatro dos jornalistas eram humoristas bastante prestigiados, entre eles o veterano Georges Wolinski, importante figura do humorismo francês da década de 1960.

Wolinski, que tinha 80 anos, foi bastante atuante nos seus desenhos em 1968, influenciou em parte a geração brasileira que criou o Pasquim. Ele veio ao Brasil em 1993 e saudou vários humoristas brasileiros, presenteando com livros autografados. Ele também criou a personagem sensual Paulette, ícone dos quadrinhos franceses.

GEORGES WOLINSKI, CABU (ACIMA, DA ESQ.), CHARB E TIGNOUS - MORTOS ENQUANTO DISCUTIAM A PAUTA DA PRÓXIMA EDIÇÃO.

Outros foram Jean Cabut, o Cabu, que faria 77 anos neste mês, o editor e cartunista Stephane Charbonnier, o Charb, de 47 anos, e Bernard Verlhac, o Tignous de 57 anos. Todos foram baleados durante a reunião de pauta.

"Vingamos o profeta", gritaram os terroristas que eliminaram os dez funcionários, abriram fogo contra outros 11 - que ficaram feridos, mas quatro deles em estado grave - e o policial que encontraram na saída. Até o momento, um suspeito foi detido e os foragidos estão sendo perseguidos pela polícia.

O periódico já foi ameaçado por grupos fundamentalistas islâmicos em 2006 e 2011, quando publicou charges satirizando o profeta Maomé. Charlie Hebdo é uma publicação conhecida também por sátiras políticas e pelo seu humor divertidamente corrosivo e iconoclasta.

O atentado comoveu o mundo inteiro e pode complicar a situação do Velho Mundo, diante da tensão do Oriente Médio e dos problemas que os países desenvolvidos sofrem com a imigração, o racismo e os movimentos direitistas. Lançou-se a campanha "Je Suis Charlie" (Eu Sou Charlie) em solidariedade à tragédia que abateu o Charlie Hebdo.

O que os atiradores não sabiam era que o policial que eles mataram era muçulmano. E, para piorar a parte deles, as organizações muçulmanas condenaram duramente o ato, até porque o profeta Maomé era uma pessoa pacifista.

Mas as coisas tendem a ficar mais complicadas, como nos EUA do atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 (junto a outros dois atentados, um deles contra o Pentágono). As políticas de controle e segurança se tornarão mais austeras, o que em si não é problema, mas haverá endurecimento contra povos étnicos e um clima de insegurança que reforçará preconceitos.

O Primeiro Mundo já sofre uma onda de desilusão, de fim dos sonhos, de futuros sombrios, de um sentimento de ceticismo e melancolia. Muito diferente do Brasil mergulhado na mediocridade em que uma seita religiosa promete, em falsas profecias, que o país será a nação mais poderosa do mundo, mesmo com toda a violência, corrupção, desigualdades sociais e mediocrização cultural.

Terão que ser feitas reavaliações, até mais do que políticas de repressão ou de reforçamento de segurança. É preciso repensar valores, conceitos, perspectivas, porque tudo está complicado. Mas, ao menos, a Europa tem a experiência secular de tragédias e infortúnios, do contrário de um Brasil, relativamente novo, "virgem" de muitas tragédias de cunho sócio-cultural e político.

Fica aqui a solidariedade aos mortos e aos remanescentes, que com muita dor irão levar adiante a publicação, ou pelo menos não há uma intenção anunciada de extinguir o periódico. Em todo caso, ficará difícil criar coisas engraçadas diante de uma tragédia vivida ali dentro, com pessoas de convívio muito recente que se foram de maneira dramática.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESTUPRO COLETIVO DERRUBA MITO DA "LIBERDADE DO CORPO"

O vergonhoso caso do estupro coletivo desmascarou uma situação que a intelectualidade "bacana" sempre abafou com falso relativismo.

O mito da "liberdade do corpo" num país do combate ao assédio abusivo.

O terrível caso ocorreu num bairro popular, na região de Jacarepaguá.

33 homens afoitos cercando uma moça de 16 anos, dopando a menina, depois a estuprando sob o registro da câmera do celular e depois publicando na Internet.

Um episódio de pura truculência, mas condicionado pela ilusão de liberdade sexual que a intelectualidade "bacana", que apostava num Brasil brega, queria para as classes pobres.

Mesmo mulheres aparentemente ativistas, dentro dessa intelectualidade, davam dois pesos e duas medidas.

Elas reclamavam contra a imagem caricatural que as mulheres, de classe média, recebiam dos comerciais de TV.

Mas consentiam que a mesma imagem fosse impunemente abordada sob o rótulo do "popular".

Reclamavam quando a imagem da mulher de classe média…

GOVERNO TEMER E A REVOLTA DOS UMBIGOS

A "revolta dos umbigos" que surgiu nas mídias sociais achou que tinha o poder pleno nas mãos.

Lutaram para ter Michel Temer no lugar de Dilma Rousseff para realizar uma agenda mais conservadora para o Brasil.

Essa agenda é um misto do programa eleitoral derrotado de Aécio Neves em 2014 com as "pautas-bombas" do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Primeiro, os "revoltados" na Internet se escondiam nas mídias sociais, se limitavam a trolar assuntos culturais ou coisa próxima e fingiam serem progressistas.

Depois, deixaram a máscara cair e iniciaram uma campanha para derrubar Dilma Rousseff.

Conseguiram o que fizeram, pois faziam parte de uma "frente ampla" às avessas, que clamavam por retrocessos políticos sob a desculpa do "combate à corrupção".

Estavam junto dos empresários em geral e, em parte, os que controlam a grande mídia.

Foram animadores juvenis de uma campanha que ludibriou a sociedade inteira, que passou …

CRIMINALIZAÇÃO DO "FUNK" É UMA PROPAGANDA ÀS AVESSAS

Um abaixo-assinado na página do Senado atingiu, anteontem, a marca de 20 mil assinaturas, diante de uma causa bastante controversa, a de criminalização do "funk".

A proposta é de autoria do empresário paulista Marcelo Alonso, que se declara pai de família e afirma estar tentando "salvar a juventude".

Deu um tiro no pé, porque a proposta acabou estimulando mais o natural coitadismo do "funk", tido como "vítima de preconceito".

A repressão policial transformou um ritmo musicalmente medíocre em "canção de protesto".

A presença de "bailes funk" em noticiários policiais transformou os ricos empresários-DJs, ávidos por dinheiro, em supostos ativistas culturais.

A criminalização transformou medíocres MCs de vozes esganiçadas em pretensos militantes.

Da mesma forma, a criminalização do "funk" fez um mero ritmo dançante e comercial virar, durante anos, um pretenso paradigma de folclore popular.

Enquanto rolava o discurso de…