MORRISSEY E AMANDLA STENBERG MOSTRAM O QUANTO O BRASIL ESTÁ DEFASADO


O que um cantor inglês de 56 anos, ex-vocalista de uma das maiores bandas dos anos 1980, tem em relação a uma atriz negra de 17 anos que se tornou conhecida pelo blockbuster juvenil Jogos Vorazes (The Hunger Games)?

Diretamente, nada, a não ser a brilhante sensatez que, em diferentes ocasiões, Morrissey e Amandla Stenberg deram em seus depoimentos, que mostram que, em relação ao Brasil afogado na areia movediça do provincianismo nos últimos 25 anos, o mundo está a mil léguas na frente do nosso país tão narcisista.

Vamos primeiro à Amandla. Ao ver uma foto da modelo Kylie Jenner - integrante da "milionária" família Jenner-Kardashian que se tornou um dos principais clãs de sub-celebridades da atualidade - no Instagram, usando trancinhas feitas no estilo da cultura negra, a jovem atriz - conhecida por ser amiga íntima de Kiernan Shipka, de Mad Men - , fez o seguinte comentário:

"Adereços de negros são bonitos. Mulheres negras não são. Mulheres brancas são modelos de virtude e desejo. Mulheres negras são objetos de fetichismo e brutalidade que, no mínimo, parece ser a mentalidade que envolve a beleza e a feminilidade negras em uma sociedade construída com padrões eurocêntricos de beleza".

Stenberg acrescenta: "Enquanto as mulheres brancas  se sentem glorificadas por alterar seus corpos, engrossando seus lábios e bronzeando suas peles, as mulheres negras se sentem envergonhadas, embora essas mesmas caraterísticas existem nelas naturalmente".

Kylie, irritada, escreveu um comentário curto: "Ruim se eu não fizer, ruim se eu fizer... Vá se tratar com Jaden ou algo parecido", reagiu a modelo, como se ela atribuísse à Amandla uma frustração pelo fato de seu antigo par na festa de debutantes, o ator Jaden Smith, filho de Will Smith, ser amigo de longa data da morena, uma das maiores recordistas em fotos nos portais de famosos estrangeiros.

Amandla, no entanto, estava criticando a apropriação oportunista de brancos na cultura negra. A gente observa isso quando o pop comercial tenta explorar estereótipos dos negros pobres, não raro grotescos, que fazem com que a música se tornasse monótona, rasteira, excessivamente erotizada e sem personalidade.

A atriz explicou a sua posição através desse argumento: "A apropriação ocorre quando um estilo leva a generalizações racistas ou estereótipos onde ele se originou, mas é considerada como de alta moda, uma coisa legal ou divertida quando os privilegiados a trazem para si mesmos".

Que puxão de orelha Amanda Stenberg daria para funqueiros e "pagodeiros" brasileiros, assim como o "pagodão" baiano que, em nome de exaltar a negritude, explora caricaturas racistas e idiotizadas dos negros locais, e o que a bela atriz poderia ajudar a compreender o problema da periferia estereotipada e da negritude deturpada ao gosto das elites acadêmicas e do mundo da moda!

Vamos agora para o caso de Morrissey. Numa entrevista à revista norte-americana Spin, o cantor britânico descreveu seu habitual repúdio ao comercialismo pop, preocupado com a subordinação absoluta ao marketing. Ele deu o seguinte depoimento, que expressa profundo ceticismo, citando dois astros pop britânicos, Ed Sheeran e Sam Smith:

"Não há bandas ou cantores que se tornam bem sucedidos sem carregar marketing. Não existem histórias surpreendentes de sucesso. Tudo é rigorosamente controlado, óbvio e previsível e tem exatamente o mesmo conteúdo. Então, estamos agora na era dos astros pop comercializados, o que as gravadoras controlam totalmente as paradas de sucesso, e consequentemente o interesse público se perdeu. É muito raro que uma gravadora faz algo para o bem da música. Assim, somos alimentados à força tal como Ed Sheeran e Sam Smith, o que, pelo menos, significa que as coisas não podem ficar piores que estão. É triste, no entanto. Não há espontaneidade agora, e tudo parece ser irrecuperável".

Diante de tal declaração, ficamos pasmos ao ver o quanto o mundo gira e acontece, com seus questionamentos em torno da mediocrização, enquanto aqui nossos "admiráveis intelectuais" - como a moçada festiva que escreve seus textos no blogue Farofafá - acham que são "provocativos" e "revolucionários" defendendo o milionário establishment da bregalização cultural.

Aqui a negritude é ferida com caricaturas sutilmente (mas cruelmente) depreciativas do "funk" e do "pagodão" baiano, e ninguém percebe, até pelo fato de que o racismo é "autopraticado" por pessoas negras que se submetem a esse papel ridículo.

Ver negras funqueiras posando como se defecassem no chão e ver negros baianos de sunga no palco, dando sorrisos patéticos e rebolando de forma assanhada, é algo deprimente e tenebroso, um gravíssimo preconceito daqueles que se autoproclamam "contra todo tipo de preconceito" e que, no fundo, impulsionam desordeiros digitais a ofenderem a classuda e admirável Maria Júlia Coutinho.

Ver que a música brasileira perde espontaneidade, e que ídolos bregas antigos levam mais de 25 anos tentando saber que norte darão em suas carreiras, também é algo triste e preocupante. Ver ídolos primeiro se contentarem em fazer o papel de mercadorias humanas para depois bancarem os "grandes artistas" é triste, porque eles sempre têm uma dívida de gratidão com a imagem humilhante de mercadorias que eles aceitaram ser no começo de carreira.

O Brasil está muito atrasado culturalmente. Muito, muito, muito atrasado. E é chocante que há quem acredite que o nosso país tem condições para se tornar a vanguarda planetária no futuro. Não tem. Até pelo fato de que muitos de nossos intelectuais não têm a coerência e a sensatez que um cantor inglês e uma atriz norte-americana mostraram em seus depoimentos recentes.

Nosso país ainda precisa aprender a ter autocrítica.

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