Pular para o conteúdo principal

EM 1961, BOLETINS DE PROGRAMAÇÃO DE TV SE CONTRADIZIAM EM DADOS

ROY ROGERS ERA EXIBIDO NA TV BRASILEIRA NOS IDOS DE 1961.

A televisão brasileira ainda estava incipiente há cerca de 55 anos. Sua popularidade crescia, em relação a 1950, as atrações se multiplicavam e se aperfeiçoavam em qualidade, e o videoteipe era implantado aos poucos pelas emissoras. O rádio, por sua vez, via a popularização dos aparelhos portáteis que, graças ao transístor, foram lançados em 1960.

Mas ainda havia muito o que fazer e até o que acabou não sendo feito, como a preservação de um grande acervo de programas, que se perderam em sucessivos incêndios e, às vezes, por fitas desgravadas. Se fosse preservado, o acervo serviria como um referencial para recuperarmos a qualidade de nossa programação televisiva, que anda extremamente ruim, até na TV "fechada".

Pesquisando sobre o ano de 1961, eu vejo casos curiosos, como o do "desencontro" de listas de programação das emissoras de TV da época, como se observa no exemplo da Guanabara, o antigo Estado composto apenas do município do Rio de Janeiro.

LISTA DE PROGRAMAÇÃO PUBLICADA EM DIFERENTES JORNAIS CARIOCAS, EM 05 DE ABRIL DE 1961.

Observa-se que, naquela época, o Rio de Janeiro só tinha três emissoras de TV: TV Tupi (canal 6), TV Continental (canal 9) e TV Rio (canal 13). A TV Rio era associada à TV Record paulista. A TV Globo carioca estava apenas no papel e Sílvio Santos, hoje empresário do SBT, mal começava a estrear seu programa Vamos Brincar de Forca na TV Paulista.

Mesmo assim, conforme lembrou certa vez Artur Xexéo, havia mais qualidade e variedade em três emissoras de TV da época do que em cem emissoras de pacotes avançados da TV paga. Mas isso não impedia que certas trapalhadas acontecessem na divulgação de boletins de programação.

É o que se vê em três jornais cariocas que pude pesquisar: o Jornal do Brasil, que hoje só existe na Internet, e os extintos Diário Carioca e Correio da Manhã. O Globo não pude pesquisar por restrições orçamentárias e O Dia não disponibilizou arquivo antigo na Internet. E, por restrições de tempo, não consultei a lista enviada para a Última Hora.

Nota-se que a única emissora que mandou um boletim uniforme foi a TV Rio, no qual apenas faltou, no Diário Carioca, a menção do último programa, posterior ao das Atrações Mauá, a segunda edição do programa de reportagens (Reportagem Ducal, segundo o Jornal do Brasil).

Há apenas algumas diferenças de menção, como a citação do patrocinador nos programas jornalísticos, o Telejornal Pirelli, apresentado pelo conhecido Léo Batista, hoje na Globo, e Reportagem Ducal, feita somente pelo Jornal do Brasil.

Quanto às demais emissoras - mesmo a conceituada TV Tupi Rio - , a menção da programação apresenta algumas variações em horários, nomes e programas. Na grade infantil, por exemplo, as variações ocorrem da seguinte maneira:

- Na TV Tupi, o Jornal do Brasil e o Correio da Manhã anunciam para as 18h30, o programa infantil Guguta e Tião, enquanto o Diário Carioca credita, para o mesmo horário, o programa No Reino da Música. Para as 19 horas JB e CM creditam o mini-programa Vamos Brincar, enquanto credita o musical Canção de Nana para as 19h05. DC ignora Vamos Brincar e credita Canção de Nana para as 19 horas.

- O seriado Roy Rogers, sucesso da TV dos EUA transmitido na época aqui pesquisada pela TV Rio, só diverge quanto ao horário de exibição. No Jornal do Brasil, o programa é creditado para 19 horas, enquanto o Diário Carioca credita para 19h10 e o Correio da Manhã, 18h50.

- O programa de Hebe Camargo transmitido na época (05 de abril de 1961) só tem seu nome correto creditado pelo Correio da Manhã: Hebe Comanda o Espetáculo, nome adotado para o programa transmitido na TV Continental, onde a famosa apresentadora foi contratada.

Há um fato a averiguar, sobretudo num país de memória curta como o Brasil, em que muita gente, feito uns bobos alegres, quando falam da década de 1960, em vez de averiguar o ano exato, ficam tolamente descrevendo "anos 60", "década de 1960" ou "meados dos anos 60", como se não houvesse diferença entre o mundo em 1960 e o mundo em1969.

A Volante do Pallut foi um programa de reportagens (a volante era uma viatura que fazia reportagens de rua) da Rádio Continental, que em 1959 ganhou versão na emissora televisiva do mesmo nome - que, como rezam as concessões de então, eram dadas a emissoras de rádio, daí o sentido extensivo de radiodifusão para a TV - , tendo marcado a trajetória da referida emissora do Canal 9 carioca.

Todavia, os três jornais (Jornal do Brasil, Diário Carioca e Correio da Manhã) creditam a Volante do Pallut como um programa da TV Tupi, com os três jornais dando como informação de horário a de 14h05. Resta algum samaritano esclarecer se o programa havia migrado na época para a Super Rádio Tupi e TV Tupi, porque até agora não consegui encontrar um dado a respeito disso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS ESQUERDAS COMPLICAM SEU CONCEITO DE “DEMOCRACIA” NO CASO DO IRÃ

COMPLEXO DO LÍDER SUPREMO AIATOLÁ ALI KHAMENEI, EM TEERÃ, DESTRUÍDO PELO ATAQUE. O LÍDER FOI MORTO NA OCASIÃO. A situação é complicada. Não há heróis. Não há maniqueísmo. Apenas vivemos situações difíceis na política internacional, depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu bombardear o Irã e matar o líder supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, sua filha, seu genro e seu neto, entre outras vítimas. Outro ataque atingiu uma escola de meninas em Teerã, matando 148 pessoas, entre elas muitas crianças. O governo iraniano decretou 40 dias de luto após o bombardeio que matou Khamenei. O ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, também foi morto no atentado à sede do governo daquele país. Outros ataques ocorreram. Depois do atentado, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, prometeu vingança como “direito legítimo” e o governo do Irã já realizou os primeiros ataques contra Israel. Já no Irã, assim como na Índia e no Paquistão, seguidores e opositores de Khamenei fizeram manifestações. ...

O QUE FIZERAM COM O LANCHE DA RAPAZIADA?

Nutricionistas alertam, em vários perfis nas redes sociais, que os alimentos industrializados, que fazem parte do cardápio do lanche de muitas pessoas, principalmente as mais jovens, estão sendo adulterados de tal forma que seus sabores anunciados se tornam uma grande mentira. Cafés, biscoitos, sorvetes, salgadinhos e chocolates são alvo de fraudes industriais que fazem tais alimentos se tornarem menos saborosos e, o que é pior, nocivos à saúde humana, ao serem desprovidos dos ingredientes que, em tese, seriam parte integrante desses produtos. São marcas de café que, em vez de oferecerem realmente café, servem uma mistura que inclui cevada, pó de madeira e até insetos transformados em pó, ingredientes queimados para dar a impressão de, estando torrados, parecerem "café puro". Uma marca como Melitta chega a não ter sabor de café, mas de cevada de péssima qualidade misturada com diversas impurezas. O que assusta é que esses supostos cafés, terríveis cafakes  de grife cujo lobby...

POR QUE OS BRASILEIROS TÊM MEDO DE SABER QUE FEMINICIDAS TAMBÉM MORREM?

ACREDITE SE QUISER, MAS ADULTOS ACREDITAM, POR SUPERSTIÇÃO, QUE FEMINICIDAS, AO MORREREM, "MIGRAM" PARA MANSÕES ABANDONADAS E SUPOSTAMENTE MAL-ASSOMBRADAS. Um enorme tabu é notado na sociedade brasileira, ainda marcada por profundo atraso sociocultural e valores ultraconservadores que contaminam até uma boa parcela que se diz “moderna e progressista”. Trata-se do medo da sociedade saber que os feminicidas, homens que eliminam as vidas das mulheres por questão de gênero, também morrem e, muitas vezes, mais cedo do que se imagina.  Só para se ter uma ideia, um homem em condições saudáveis e economicamente prósperas no Brasil tem uma expectativa de vida estimada para cerca de 76 anos. Se esse mesmo homem cometeu um feminicídio em algum momento na vida, essa expectativa cai para, em média, 57 anos de idade. A mortalidade dos feminicidas, considerando aqueles que não cometeram suicídio, é uma das mais altas no Brasil. Muita gente não percebe porque os falecidos cometeram o crime m...

A FARIA LIMA É MUITO MAIOR DO QUE ESCÂNDALOS FINANCEIROS SUGEREM SER

As pessoas cometem o erro de fugir de narrativas consideradas incômodas. Vivendo uma felicidade tóxica, ignoram armadilhas e riscos graves. O Brasil ainda não resolveu muitos entulhos da ditadura militar e, o que é pior, parte dos entulhos culturais virou objeto de nostalgia. Ultimamente, foram divulgados escândalos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, cujo impacto é comparável ao do esquema de tráfico sexual do falecido bilionário Jeffrey Epstein. Os escândalos começam a respingar sobre políticos e celebridades e há rumores atribuindo envolvimento tanto do filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, quanto da família Bolsonaro. Mas quem pensa que a Faria Lima seria uma pequena máfia envolvida apenas em episódios como a lavagem de dinheiro do PCC e, agora, com o escândalo do Banco Master, está enganado. A Faria Lima, infelizmente, exerce um poder sobre a sociedade brasileira com muito mais intensidade do que se pensa. A Faria Lima "desenhou" o Brasil em 1974, ...

DOUTORADO SOBRE "FUNK" É CHEIO DE EQUÍVOCOS

Não ia escrever mais um texto consecutivo sobre "funk", ocupado com tantas coisas - estou começando a vida em São Paulo - , mas uma matéria me obrigou a comentar mais o assunto. Uma reportagem do Splash , portal de entretenimento do UOL, narrou a iniciativa de Thiago de Souza, o Thiagson, músico formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) que resolveu estudar o "funk". Thiagson é autor de uma tese de doutorado sobre o gênero para a Universidade de São Paulo (USP) e já começa com um erro: o de dizer que o "funk" é o ritmo menos aceito pelos meios acadêmicos. Relaxe, rapaz: a USP, nos anos 1990, mostrou que se formou uma intelectualidade bem "bacaninha", que é a que mais defende o "funk", vide a campanha "contra o preconceito" que eu escrevi no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... . O meu livro, paciência, foi desenvolvido combinando pesquisa e senso crítico que se tornam raros nas teses de pós-graduação que, em s...

LULA AINDA NÃO ENTENDE OS MOTIVOS DE SUA QUEDA DE POPULARIDADE

O Partido dos Trabalhadores (PT) decidiu encomendar uma pesquisa para entender os motivos da queda de popularidade de Lula. A ideia é compreender os níveis de desaprovação que, segundo as supostas pesquisas de opinião, são muito expressivas. O negacionismo factual também compartilha dessa dúvida. Afinal, o negacionista factual se recusa a entender os fatos, ele acha que suas opiniões, seus estereótipos e suas abordagens vêm primeiro, não suportando narrativas que lhe desagradam. Metido a ser objetivo e imparcial, o negacionista factual briga com os fatos, tentando julgar a realidade conforme suas convicções. Por isso, os lulistas não conseguem entender o óbvio. Lula fez um governo medíocre, grandioso por fora e nanico por dentro. O terceiro mandato foi o mais ambicioso dos três mas, pensando sem sucumbir a emoções a favor ou contra, também foi o mais fraco dos três governos do petista. Lula priorizou demais a política externa. Criou simulacros de ações, como relatórios, opiniões, discu...

A PEGADINHA DE FALSOS ESQUERDISTAS

FIQUEM ESPERTOS - APESAR DE ESTAR JUNTO A LULA (CENTRO), LINDBERGH FARIAS (DE CAMISA POLO) E MARCELO FREIXO (D), O PREFEITO CARIOCA EDUARDO PAES (DE CAMISA AZUL MARINHO E CALÇA CINZA) É UM POLÍTICO DE DIREITA, QUEIRAM OU NÃO QUEIRAM LULISTAS E BOLSONARISTAS. Nesta foto acima, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, aparece na inauguração de um túnel que integra um novo complexo viário no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste carioca. Ele aparece ao lado do presidente Lula, o que faz muita gente crer, principalmente os bolsonaristas, que o prefeito carioca é um figurão da esquerda política local, certo? Errado. Erradíssimo. Eduardo Paes é um político de direita, mas que usa o esquerdismo como sua marquise ideológica. De valentões de Internet a políticos arrivistas, passando pelos intelectuais pró-brega, por tecnocratas ambiciosos e por latifundiários nordestinos, há uma parcela da direita brasileira que, mesmo incluindo antigos apoiadores da ditadura militar, passou a apoiar "i...

TRANSFÓBICO, RATINHO É SUBPRODUTO DO "OPINIONISMO DE FM"

Na semana passada, o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, cometeu transfobia ao comentar no seu Programa do Ratinho, do SBT, no último dia 11 de março, a nomeação da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados. Disse o apresentador: "Não achei muito justo, não. Com tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans? A Erika Hilton. Ela não é mulher, ela é trans". Ratinho até tentou dizer que "não é contra mulher trans", mas fez um comentário bastante grotesco e cheio de clichês machistas: "Se tem outras mulheres lá, mulher mesmo... Mulher para ser mulher tem que ser mulher, gente! Eu respeito todo mundo que tem comportamento diferente. Tá tudo certo! Agora, mulher tem que ter útero, tem que menstruar, tem que ficar chata três quatro dias". Erika Hilton, que é uma das parlamentares mais atuantes em prol do interesse das classes populares, decidiu processar o apresentador, e anunciou sua ...

“COMBATE AO PRECONCEITO” E “BRINQUEDOS CULTURAIS “ FIZERAM ESQUERDAS ABRIREM CAMINHO PARA O GOLPE DE 2016

AS ESQUERDAS MÉDIAS NÃO PERCEBERAM A ARMADILHA DOS "BRINQUEDOS CULTURAIS" DA DIREITA MODERADA. Com um modus operandi que misturava fenômenos de “quinta coluna” de um Cabo Anselmo com abordagens “racionais” de think tanks como o IPES-IBAD, o “combate ao preconceito”, campanha trazida pela mídia a partir da Rede Globo e Folha de São Paulo, enganou as esquerdas que tão prontamente acolheram os “brinquedos culturais”. Para quem não sabe, “brinquedos culturais” são valores e personalidades da direita moderada que eram servidos para o acolhimento das esquerdas médias sob a desculpa de representarem a “alegria do povo pobre”.  Muitos desses valores e pessoas eram oriundos da ditadura militar, mas as gerações que comandam as esquerdas médias, em grande parte gente com uma média de 65 anos hoje, era adolescente ou criança para entender que o que viam na TV durante a ditadura simbolizava esse culturalismo funcionalmente conservador, embora “novo” na aparência, sejam, por exemplo, Gret...

COMO A FARIA LIMA TRAVOU A RENOVAÇÃO DA CULTURA ROCK NO BRASIL

O portal de rock Whiplash enumerou dez bandas que poderiam representar a renovação do Rock Brasil , hoje em momento de crise a ponto de bandas como Paralamas do Sucesso, Titãs e Barão Vermelho, que durante anos nos brindou com canções novas, fazerem revival de suas carreiras. Bandas boas de rock brasileiro existem. A cultura rock respira fora do esquemão ou mesmo das redes sociais. Mas o grande público foi entregue à supremacia da música brega-popularesca, que em vez de representar, como sonhava o “filho da Folha” Pedro Alexandre Sanches, a “reforma agrária na MPB”, virou um coronelismo musical dos mais perversos. Se um cantor do Clube da Esquina quiser tocar em Goiás, por exemplo, tem que cantar com o ídolo breganejo de plantão. No entanto, desde os anos 1990 o radialismo rock, que deveria ser uma bússola para a formação cultural de quem curte e faz rock, decaíram de vez. A programação se reduziu a uma fórmula que, na época, poderia ser conhecida como “Jovem Pan com guitarras”, mas ho...