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QUANDO A ESQUERDA SE ENVOLVE EM INCIDENTES DE DIREITA


Curiosos incidentes que relacionam esquerdistas a eventos ou posturas direitistas. Não, não estamos falando daquele esquerdista profissional vindo da Folha de São Paulo que foi se passar por "jornalista livre" sob a mesada de George Soros e ainda cobrindo manifestações do PT, mas de outras situações.

Semana passada, a cantora Beth Carvalho, considerada sambista de esquerda, reagiu ao saber que teve seu sucesso "Vou Festejar", uma das famosas composições de seu amigo Jorge Aragão, usada para a manifestação direitista da semana passada.

A música "Vou Festejar", com letra irônica, é conhecida pelos seguintes versos: "Você pagou com traição / A quem sempre lhe deu a mão". As manifestações anti-PT são conhecidas também por usar outros hinos nada direitistas, a pretexto de forjar um protesto "popular".

Exemplos são "Brasil", de Cazuza, que, para desespero de seu amigo Lobão, seria provavelmente um esquerdista hoje, "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores", canção "subversiva" de Geraldo Vandré, e "Que País é Este?", que Renato Russo compôs em 1978, num claro protesto contra a ditadura militar que os movimentos direitistas querem "resgatar".

Beth reagiu ao uso do seu sucesso, publicando a seguinte nota:

"Gostaria de saber de quem foi a INFELIZ ideia de colocar a música “Vou Festejar” (de Jorge Aragão, Neoci Dias e Dida), gravada com a minha voz, em um carro de som da passeata do dia 16/08 organizada pelo movimento #Vem Pra Rua?

Tal movimento está em dissonância absoluta tanto com os meus posicionamentos políticos, como com o que esta música representa historicamente.  Não poderia ser usada em hipótese alguma.

Para que fique bem claro, eu, Beth Carvalho sempre me posicionei ao lado de líderes como Che Guevara, Fidel Castro, Hugo Chavez, Leonel Brizola, João Pedro Stédile. Inclusive, a música “Vou Festejar”, gravada primeiramente em 1978, sempre representou movimentos de esquerda e de abertura política como as Diretas Já e o segundo turno de Lula contra o Collor em 1989.

Para completar a dissonância, os maiores mestres culturais da minha vida são em sua maioria negros e pobres – Nelson Cavaquinho, Cartola, Candeia. E, não tolero a homofobia que vem sendo explicitada nestas passeatas.

Desta forma gostaria de manifestar meu absoluto REPÚDIO e insatisfação.

Acho que o uso de “Vou Festejar” é inclusive uma evidência clara da total despolitização ou intenção de despolitizar do movimento #Vem Pra Rua. Minha voz e meu samba não os representa nem hoje, nem ontem, nem nunca. Tomarei as providências cabíveis e exijo uma retratação pública".

PROGRESSISTA, MAS NEM TANTO

Já Hildegard Angel, jornalista e socialite que é filha da estilista de moda Zuzu Angel e irmã do estudante e guerrilheiro Stuart Angel, assassinados pela ditadura militar (Zuzu foi vítima de um estranho "acidente de carro"), é conhecida por muitas atitudes progressistas admiráveis.

No entanto, ela, que se relaciona também com a alta sociedade - só de uns anos para cá sua famosa coluna na imprensa deixou o ranço ortodoxo que lembrava os tempos de Jacinto de Thormes misturado com a modernidade comportada de Zózimo Barroso do Amaral (que não chegava ao astral "bossa nova" de Imbrahim Sued), tem seus surtos elitistas de fazer a direita ficar de cabelos em pé.

Não, não estamos comparando com aquele ex-prefeito de Salvador que virou empresário de rádio, dublê de radiojornalista e que agora finge que é "intelectual de esquerda" com sua emissora que, apesar do nome metropolitano, é matuta de doer.

O que aconteceu é que Hildegard Angel andou reclamando da farta presença de gente pobre nas praias de Copacabana, Arpoador, Ipanema e Leblon. Eu também senti isso quando passava por ônibus nesses lugares, mas, em que pese a perda do glamour, os pobres têm o direito de irem a essas praias. Só que as elites, como Hildegard, não admitem isso.

Ela fez uns comentários dizendo que as linhas da Zona Norte deveriam deixar de circular na Zona Sul e chegou a publicar uma nota pedindo para que fossem cobrados ingressos para entrar nas praias. O texto teve má repercussão e foi apagado.

Quanto aos ônibus, ela e as elites podem ficar contentinhos porque o subsecretário de Planejamento da Prefeitura do Rio de Janeiro, Alexandre Sansão (que parece vilão de ficção científica, com a diferença que não faz ficção científica), decidiu esquartejar, em outubro, 33 linhas de ônibus, incluindo redução de itinerário de linhas da Zona Norte, que passarão a ir só até o Centro.

Tentando arrumar desculpas de ordem técnica - Sansão é o típico tecnocrata que pensa a "realidade" em aplicativos de computador e simulações virtuais - , o subsecretário pretende criar o maior projeto de "limpeza social" ao dificultar a população da Zona Norte a ir direto de ônibus para a Zona Sul, sendo obrigada a fazer baldeação por BRTs usando um Bilhete Único que não funciona.

Afinal, os trajetos da Zona Sul têm duração igual ou menor (se depender do congestionamento) que a validade do cartão eletrônico da Rio Card, o que fará com que o povo das periferias tenha que pagar mais para ir à Zona Sul e ainda por cima aguentar ônibus superlotados, porque Sansão quer tirar mais ônibus de circulação e colocar apenas cinco linhas "troncais".

Voltando à Hildegard - que eu vi pessoalmente na reunião da filial carioca do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão do Itararé, da qual tive que sair cedo por causa do ônibus para Niterói - , ela foi infeliz nessa postura tão lamentável. Como esquerdista, ela deveria ao menos respeitar a liberdade dos pobres. O que eles merecem não é ficar longe da Zona Sul, mas ter melhorias de vida.

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