Pular para o conteúdo principal

REFORMA DA PREVIDÊNCIA IMPEDIRÁ APOSENTADOS DE "CONHECER" PAUL LAFARGUE


As reformas do governo de Michel Temer só serão implantadas para valer em 2017.

Hoje o ano político praticamente se encerrou, a casa está bagunçada, não há como botar a tal "ponte" para funcionar.

E, além disso, os projetos de reformas prometidos podem ser implantados por um sucessor eleito indiretamente.

Afinal, Temer é um condenado político e investigado pelo STF por irregularidades na chapa eleitoral com Dilma Rousseff.

Se for comprovada oficialmente a participação dele nas irregularidades de campanha, Temer será afastado do poder.

E, pelo rumo das investigações, ainda que pela complexidade do processo, mesmo assim os ventos soprarão em vantagem tendenciosa.

Tudo indica que, se Temer for afastado, seu sucessor será escolhido pela via indireta, por parlamentares do Congresso Nacional.

Mas aí a plutocracia poderá escolher um tucano para levar adiante as reformas trabalhistas.

Embora com um "sotaque" próximo do PSDB e um pouco afastado da ala radical do PMDB (como o carioca, famoso pelo modus operandi autoritário).

Talvez mais próximo do programa eleitoral de Aécio Neves para 2014 do que das "pautas-bombas" de Eduardo Cunha.

E aí entra a reforma previdenciária, que pretende adotar como idade mínima a de 65 anos de idade.

Mas haverá mecanismos jurídicos que farão com que, dependendo do caso, a aposentadoria possa ocorrer mais tarde.

Isso é muito mal.

Numa época em que idosos e pessoas de meia-idade vivem numa crise existencial, em que uma grande maioria de grisalhos não têm a qualidade vivencial das gerações anteriores, seria necessário aposentar-se aos 60 anos para reaprender a vida.

Entre os 45 e 60 anos, se perde a intimidade com o lazer, a espontaneidade com a vida e a humildade de aprender e conhecer coisas novas.

Salvo exceções honrosas e admiráveis, a maioria dos coroas e idosos de hoje têm mais que aprender com a vida e as transformações bem mais complexas do que há 50, 60 anos atrás.

Antes idosos e pessoas de meia-idade tinham uma estabilidade maior que os dispensava de mudar seus comportamentos e avaliações da vida de maneira drástica.

Hoje um homem de meia-idade que queria ser "idoso demais" aos 50 anos tem que cair na real aos 60, "rejuvenescer um pouco" e ir para os shows de Paulo Ricardo e pôr um CD da Legião Urbana em seu carro.

Os sessentões de hoje estão mais para Frank Black do que para Frank Sinatra, mais para Lollapalooza do que dos bailes de gala do Copacabana Palace.

Precisam pendurar, em muitas ocasiões de lazer, seus paletós e os dolorosos sapatos chiques de saltos duros, vendo o ridículo de parecer "elegante demais" na marra.

Falo dos sessentões de classe média alta para cima.

Já nos das classes populares, que trabalham mais e se desgastam mais, o aprendizado da vida poderia ser de outra maneira, aproveitando o lazer de forma mais relaxante e proveitosa para a mente.

A aposentadoria seria uma forma de viver o que o jornalista Paul Lafargue (1842-1911), genro de Karl Marx, definia, para o horror dos moralistas de direita, como o "direito à preguiça".

Lafargue, na verdade, procurava mostrar as vantagens do ócio, complementando o trabalho do sogro nos questionamentos da alienação no trabalho.

Se Marx descrevia o trabalho exaustivo e opressivo e os baixos benefícios obtidos pelos trabalhadores, Lafargue questionava a rejeição do lazer como forma de aprimoramento pessoal.

Em épocas de reacionarismo político ferrenho e agressivo, é desaconselhável citar Marx, e, quanto mais, seu genro "vagabundo".

Só que mesmo os empresários workaholics têm que rever os seus valores, pressionados pelas transformações sociais de hoje.

A maioria dos empresários aparece mais vezes usando camisetas, bermudas e tênis, escrevem mensagens nas redes sociais com a linguagem de estudantes universitários, ouvem músicas mais joviais e já não falam tanto de política em festas sociais (granfino falando de política é um desastre).

Precisam alternar uma festa de gala para cada três ou cinco convescotes dos mais animados.

Precisam mostrar que não são necessariamente cultos, mas descontraídos, perdendo o vínculo monótono dos paletós, camisas de colarinho e sapatos de couro.

Isso não os fará mais humanos, porque a ganância financeira, por exemplo, continua de pé. Mas mostra o quanto os homens de negócios, e os profissionais liberais que vão na carona, precisam sair do ranço dos escritórios, consultórios e eventos formais.

Ver a vida não como uma extensão dos negócios.

E, seguindo a tendência geral dos sessentões de hoje, independente de status econômico, eles falam muito mais dos filhos do que dos pais já geralmente falecidos.

Talvez necessitassem da "preguiça" lafargueana para repensar a vida e trazer a experiência da juventude para dialogar com a velhice, não como etapas diferentes e hostis entre si, mas como etapas integradas e quase unificadas.

A aposentadoria dos 55 anos para mulheres e 60 anos para os homens seria uma chance para repensar a vida e fazer renascer a juventude espiritual que aliviaria e animaria as consciências humanas.

Com a reforma previdenciária, não haverá energias para repensar a vida, diante do retardamento do fim da vida profissional.

A terceira idade ficará ainda mais difícil, mais dolorosa e sem sabedoria, como a maioria dos idosos e "coroas" que haviam sido jovens nos tempos da ditadura militar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DOUTORADO SOBRE "FUNK" É CHEIO DE EQUÍVOCOS

Não ia escrever mais um texto consecutivo sobre "funk", ocupado com tantas coisas - estou começando a vida em São Paulo - , mas uma matéria me obrigou a comentar mais o assunto. Uma reportagem do Splash , portal de entretenimento do UOL, narrou a iniciativa de Thiago de Souza, o Thiagson, músico formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) que resolveu estudar o "funk". Thiagson é autor de uma tese de doutorado sobre o gênero para a Universidade de São Paulo (USP) e já começa com um erro: o de dizer que o "funk" é o ritmo menos aceito pelos meios acadêmicos. Relaxe, rapaz: a USP, nos anos 1990, mostrou que se formou uma intelectualidade bem "bacaninha", que é a que mais defende o "funk", vide a campanha "contra o preconceito" que eu escrevi no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... . O meu livro, paciência, foi desenvolvido combinando pesquisa e senso crítico que se tornam raros nas teses de pós-graduação que, em s...

MÚSICA BREGA-POPULARESCA CRESCEU DEMAIS E SUFOCA RENOVAÇÃO NA MPB

"EMEPEBIZAR" O SOM BREGA-POPULARESCO, COMO NO CASO RECENTE DO ÍDOLO DO PISEIRO, JOÃO GOMES, SOA FORÇADO E CANASTRÃO E NÃO RESOLVE A CRISE QUE VIVE A MÚSICA BRASILEIRA DE HOJE. Uma demonstração de que vivemos numa situação de devastação cultural é o crescimento das várias tendências da música popularesca, numa linhagem que começou com os primeiros ídolos cafonas e hoje se desdobrou em fenômenos como o piseiro, a sofrência, o trap e o arrocha. Depois que vieram críticos musicais alertando sobre a gravidade da supremacia popularesca nos anos 1990 - com Ruy Castro e os finados Arnaldo Jabor e Mauro Dias mostrando sua contundente e nem sempre agradável lucidez - , houve uma reação articulada pelo tucanato cultural, envolvendo setores da USP ligados ao PSDB, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo e, é claro, o empresariado da Faria Lima. Eles montaram uma narrativa que toma emprestado jargões da militância terceiro-mundista, usados de maneira leviana e tendenciosa pela intele...

A VERDADE SOBRE A “INTERAÇÃO” ENTRE MPB E POPULARESCOS

JOÃO GOMES E JORGE DU PEIXE, DA NAÇÃO ZUMBI - O "coitado" da situação não é o que muita gente imagina ser. Ultimamente, ou seja, nas últimas semanas do ano passado, a mídia noticiou com certo entusiasmo as apresentações da banda de mangue beat Nação Zumbi com a participação do cantor brega-popularesco João Gomes, que agora virou um queridinho de setores da imprensa cultural, da intelectualidade e de setores da MPB mainstream. João virou o hype da vez, desfilando ao lado de descolados de plantão. Dançou com Marisa Monte, fez dueto com Vanessa da Mata e Gilberto Gil e até com som de arquivo de Luís Gonzaga. E fez até pocket show em uma livraria, para reforçar esse novo marketing do popularesco pretensamente cool. Isso lembra o que foi feito antes com Zezé di Camargo, vinte anos atrás. Então lançando o filme Os Dois Filhos de Francisco, do finado diretor Breno Silveira, Zezé e seu irmão Luciano gravaram um disco duetando com artistas de MPB e circulou nos meios artísticos e inte...

O BRASIL CONTINUA CULTURALMENTE DEGRADADO

WAGNER MOURA EM CENA DE O AGENTE SECRETO , FILME DE KLEBER MENDONÇA FILHO. A premiação dada ao filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho como Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Ator para Wagner Moura, no Globo de Ouro (Golden Globe Awards, em inglês) pode ser animador para nosso cinema e incentiva reflexões a respeito de políticas culturais para o nosso país. Mas isso não significa que o Brasil esteja em um excelente cenário cultural. Nosso cenário cultural está péssimo, deteriorado. O que preocupa é que casos pontuais como os de O Agente Secreto e outro filme, Eu Ainda Estou Aqui, de Walter Salles Jr., não dão o diagnóstico total de nossa cultura, já que temos uma cultura de qualidade, sim, mas ela dificilmente rompe as bolhas sociais de seu público específico. Os dois filmes são mais exceção do que regra. Mas exceção é uma van que todos querem que tenha a superlotação de um trem bala de trinta metros de comprimento. Todos querem soar como exceção a si mesmos. E aí, no caso d...

“COMBATE AO PRECONCEITO” ENFRAQUECEU LUTAS POPULARES NO BRASIL

PRETENSO ATIVISMO SOCIOPOLÍTICO, O "FUNK" ENGANOU AS ESQUERDAS, QUE ENDOSSARAM NARRATIVAS PRODUZIDAS PELOS GRUPOS GLOBO E FOLHA. A campanha do “combate ao preconceito”, que gourmetizou os fenômenos popularescos sob a desculpa de ser o “popular com P maiúsculo”, foi uma guerra cultural tramada pela Globo e Folha para enfraquecer as lutas populares no Brasil e permitir a retomada reacionária de 2016. Mordendo a isca, a mídia alternativa, seduzida pelo capataz freelancer de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, que passeou pelas redações da imprensa de esquerda para fazê-la pensar culturalmente “igual à Ilustrada”, quase faliu ao empoderar supostos fenômenos populares que são patrocinados pelo latifúndio, pelas grandes corporações e pelas oligarquias midiáticas. A bregalização, ao ser vista como um pretenso ativismo sociopolítico, sob a desculpa da “provocatividade” e da “reação contra o bom gosto”, desviou as classes populares da participação do projeto progressista de L...

NAÇÃO WOODSTOCK REJEITARIA “EVIDÊNCIAS” E OUTROS SUCESSOS “DESCOLADOS”

Anteontem fiquei abismado quando uma moça, presumivelmente com 19 anos estava no celular ouvindo “Lula de Cristal”, sucesso de Xuxa Meneghel, nas redes sociais. Gente com idade para entrar na faculdade pensando que sucessos popularescos como este, da lavra de Sullivan & Massadas, são “vanguarda”. Mas isso é fichinha para uma sociedade que chama “Evidências”, na versão de Chitãozinho & Xororó, de “clássico” e acha que João Gomes, ídolo do piseiro, é “a nova sensação da MPB”. Vivemos uma catástrofe cultural e muita gente vai dormir tranquila com esse triste cenário. Ainda temos uma sutil repaginação do É O Tchan que, diante da má repercussão da adultização de crianças, tem que agora se vender para o público universitário, tentando parecer ‘cult’ para um país em que muitos adoram “tomar no cool”. Ver que canções comerciais como "Evidências", "Lua de Cristal", "Ilariê", "Xibom Bom Bom", "Dança do Bumbum", "Segura o Tchan",...

MERCADO REABILITA MPB, MAS TENTA JUNTÁ-LA AO BREGA-POPULARESCO

  NO INTERIOR, A MPB ENCONTRA DIFICULDADES DE ACESSO DEVIDO À SUPREMACIA DOS RITMOS POPULARESCOS LOCAIS. A reabilitação da MPB entre o público médio ocorre muito gradualmente e de maneira tímida. Sinaliza uma possibilidade de nomes como Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de outros como Zé Ramalho, Milton Nascimento e Elis Regina, serem aceitos largamente por um público que, antes, dependia das trilhas de novelas para ouvir alguma MPB mais acessível. No entanto, se esse processo é um progresso diante da intolerância do "combate ao preconceito" em relação à MPB - que o "deus" da intelectualidade "bacana", Paulo César de Araújo, definia jocosamente como "MPBzona", fazendo um trocadilho entre a suposta grandiloquência e a palavra "zona", sinônimo de "bagunça" - , ele também não é gratuito, pois a supremacia brega-popularesca quer usar a MPB para uma associação forçada, visando interesses ...

ASSALTO NA OSCAR FREIRE É UM RECADO PARA “ANIMAIS CONSUMISTAS”

No último dia 14, um assalto seguido de tiroteio ocorreu numa padaria no entorno da Rua Oscar Freire, no bairro de Cerqueira César, na Zona Sul de São Paulo, próxima à Avenida Paulista. A padaria é a Lé Blé Petit, situado na rua próxima, a Rua Padre João Manuel. O que assusta é que o incidente ocorreu numa tarde bem movimentada, no horário pouco antes de 16 horas. Houve correria no local. Três ladrões fugiram, embora um deles tenha sido baleado e outro, atropelado. Alguns bens roubados foram recuperados. O fato nos põe a pensar fora do velho moralismo elitista costumeiro. Afinal, a sociedade burguesa, e falamos da burguesia enrustida, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, comete seus abusos. Ganha dinheiro demais, embora finja ser pobre, e já está batendo o ponto na defesa da reeleição de Lula, até porque este virou um político pelego. Essa elite bronzeada quer demais para si. Acha que, só por ter liberdade para consumir e se divertir, pode abusar da dose. Já transfor...

"FUNK" FOI PROMOVIDO A "GRANDE COISA" DEVIDO AO ETNOCENTRISMO DA BURGUESIA

A preocupante glorificação do "funk", agora retomada por uma exposição sobre o gênero no Museu da Língua Portuguesa, mascara a realidade de um gênero que é meramente comercial, sem objetivos artísticos nem culturais, mas que insiste em narrativas falsamente libertárias que não possuem sentido lógico algum. A exposição tem o nome pretensioso e oportunista de "Funk - Um grito de ousadia e liberdade", e serve apenas para mostrar o quanto a intelectualidade "bacana", espécie de think tank  da burguesia ilustrada, investiu em muito etnocentrismo para glorificar esse gênero da música brega-popularesca. O "funk" era somente um pop dançante comercial, feito para puro entretenimento. É marcado pela relação hierárquica entre o DJ, o "cérebro", e seu porta-voz, o MC. Sua principal caraterística é o rigor estético não-assumido e nivelado por baixo. No "funk", não há arranjadores nem compositores no sentido criativo do termo. Uma batida pa...

O SENTIDO EXTREMAMENTE GRAVE DE UMA ACUSAÇÃO CONTRA QUEM REJEITA O “FUNK”

O "FUNK" NÃO FICARIA MELHOR SE SEUS RESPONSÁVEIS E SEU PÚBLICO FOSSEM DE ETNIAS GERMÂNICA E HOLANDESA. Os casos de Thiagsson e Fernanda Abreu revelam o desespero e a paranoia de quem apoia o “funk” e não consegue convencer através de argumentos equilibrados. Forçando a barra, os apoiadores do “funk” agora deram para acusar de “racistas” quem rejeita o ritmo. Isso é tão leviano quanto um vizinho denunciar à polícia um cidadão que levou dois dias para devolver uma furadeira usada para a reforma da casa. Acusar os críticos do “funk” de racistas é de uma gravidade extrema. Afinal, trata-se de um juízo de valor leviano, baseado no etnocentrismo daqueles que defendem o “funk” é que já possuem um padrão pré-determinado de pobreza, uma pobreza ao mesmo tempo “pobre” e “higiênica” dentro de um padrão de “periferia” que envolve favelas, bares decadentes e velhos, ruas sem asfalto, uma miséria tornada espetáculo em todo o imaginário do brega e do “popular demais” em várias de suas verte...