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CAROS AMIGOS DEIXA DE TER VERSÃO IMPRESSA


Por ironia, enquanto se planeja a volta às bancas do Jornal do Brasil, histórica publicação que desde 2010 não tinha versão impressa, a mídia alternativa tem uma perda nas bancas.

Depois de reduzir seu formato, a revista Caros Amigos deixa de circular este mês, oito meses após comemorar 20 anos.

Fundada por antigos jornalistas de Realidade, em abril de 1997, a revista teve como novidade um jornalismo que há muito não se fazia na grande imprensa.

Um jornalismo honesto, crítico e bastante informativo.

É certo que a editoria de cultura deixava a desejar nos últimos dez anos, com as esquerdas complacentes ao jabá popularesco.

Fora isso, porém, as pautas eram excelentes, e abriram caminho para o crescimento do jornalismo verdade, de linha progressista e analítico dos fatos que a grande mídia jogava sob seu tapete.

Foi a partir de Caros Amigos que o império grão-midiático começou a ruir e forneceu combustível para a Internet, que continuará abrigando o jornal.

Em tempos de mídia instigante como as turmas do Brasil 247 e O Cafezinho, revelando jornalistas como Leonardo Attuch, Leonardo Stoppa, Miguel do Rosário, Wellington Calazans e outros, Caros Amigos agora é um portal de Internet.

Segue aqui o texto integral do último editorial da versão impressa, cuja edição praticamente se dedica a fazer retrospectiva e despedida da publicação.

Espera-se que Veja também tenha o mesmo destino.

******

EDITORIAL DE CAROS AMIGOS - EDIÇÃO FINAL, DEZEMBRO DE 2017

É o pior editorial que um jornalista pode escrever: anunciar o fim de um projeto acalentado por 20 anos. A revista Caros Amigos resistiu o quanto pôde, mas não resistiu ao golpe, ao cerco ideológico do governo ilegítimo, ao aprofundamento da crise deste ultraneoliberalismo que pune a nação com vingança, ódio e descaramento institucional contra os avanços e conquistas sociais. Circula esta, sua última edição, também diante de um mercado editorial em profunda transformação, com queda nas vendas em todos os nichos, e o avanço das mídias digitais, dominadas por grandes corporações e assoladas por fake news e ações de rapina ideológica. Mas também é da necessidade de bom jornalismo nesses tempos de “mídias da confusão” e ambiente digital bruto que a editora vai manter o site de Caros Amigos e continuar oferecendo nas bancas republicações de suas edições temáticas, produzidas ao longo dessa jornada.

A última edição de Caros Amigos aproveita para olhar para este contexto da era digital e suas “novidades”. A guerrilha virtual das fake news, robôs e novos hábitos de busca e consumo de informação, como os da plataforma de vídeos YouTube, que cria celebridades de conversas banais e por vezes racistas e discriminatórias e é contudo, sonho de fama das novas gerações. Como questiona o teórico da contemporaneidade Massimo Canevacci, em uma das reportagens, não era pra ser assim — para ele, a era digital cria a “personalidade digital autoritária” de um “fascismo sem controle”.

Esta edição tem ainda a história dos jornais da resistência, publicações que desafiaram ditadores, governos, censura e mesmo o mercado, para manter acesa a chama por um mundo mais justo e plural. E, ainda, artigos sobre a democratização da mídia e análise dos governos petistas e seus laços com projetos neoliberais, seus impactos na geopolítica na América Latina. Além das colunas dos colaboradores, que também se despedem de Caros Amigos, alguns deles, sem falhar em nenhuma das 248 edições. Fique aqui registrada uma profunda admiração e nosso agradecimento. A todos que passaram pelas páginas e redação de Caros Amigos, jornalistas, articulistas, são tantos; aos anunciantes que acreditaram na marca e ajudaram na sobrevivência, FNAE, CNTE, entre outros. Também aos caríssimos e fiéis leitores. Valeu a caminhada!


A revista se vai nesse vendaval de mudanças tecnológicas e seus impactos nas relações sociais, na comunicação de massa, na reorganização das sociedades e mercado. O site vai manter a chama dessa batalha no ciberespaço selvagem e sempre manipulável das novas plataformas e atores da informação. Embora de outra forma, o sonho continua.

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