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LULA VIROU O URSINHO CARINHOSO DA FARIA LIMA



Pouco importam as narrativas da sociedade “democrática” de que Lula governa para os mais pobres, de que o Brasil vive um período sociocultural glorioso e que nunca a combinação de liberdade e dignidade humanas atingiram um grau de quase perfeição no Brasil.

São narrativas exageradas. Claro que desejamos ter coisas boas e viver uma sociedade melhor, mas desconfiemos desse clima de euforia pós-Covid e pós-Bolsonaro. Até porque Lula até hoje não se decidiu se a reconstrução do Brasil ainda vai ocorrer ou se ela foi concluída. Dependendo da circunstâncias, dá para adotar um discurso contraditório, desde que as ideias conflitantes sejam separadas e distribuídas para casa situação.

A realidade, todavia, desafia as narrativas desse novo isentão que é o negacionista factual, um isentão pós-Monark que se considera “democrático” e “responsável”, mas que mede a “verdade” pelo prestígio de quem diz e pelo compartilhamento de tal ideia.

O negacionista factual, que hoje blinda o governo Lula, não admite críticas ao presidente. Ou, se admite, elas devem se limitar ao manjado e ao inócuo e, sobretudo, quando o contestador exibe o crachá de “bolsonarista”, único segmento social autorizado a fazer duras críticas ao Lula.

Mas os fatos que, como ondas violentas batendo no cais, ameaçam as confortáveis narrativas que garantem o sono tranquilo da elite do bom atraso, não conseguem ser sufocados por muito tempo. Enquanto a “boa” sociedade e o negacionista factual que atua como um jagunço digital tentam manter Lula sob a sombra do antigo mito, o presidente cada vez mostra seu peleguismo político, governando para os ricos e não rompendo com o legado nefasto de Michel Temer.

A queda de popularidade de Lula é um fato que as supostas pesquisas de opinião mostram apenas em parte. Essa baixa popularidade é muito pior do que os levantamentos do Quaest, Datafolha e similares mostram. O povo não é ingênuo e não trata Lula como um fetiche, um mágico que, quando erra, transforma o erro em acerto.

Nada disso. O povo pobre se sentiu traído e abandonado, quando viu Lula apressado em fazer a política externa, adiando para uns meses depois a urgência do combate à fome, maior plataforma eleitoral do petista. A velha ideia das viagens com o dinheiro público dos brasileiros fez os pobres da vida real ficarem irritados e revoltados com o presidente.

Lula também fez muitos artifícios. Eu chamo de “governo dos simulacros”, pois há simulação de realizações manifesta em diversos meios: o relatorismo, o pesquisismo, as cerimônias, as opiniões, as propagandas e a blindagem nas redes sociais, inclusive com o patrulhamento dos negacionistas factuais e seu “intelectualismo de Tik Tok”.

Lula finge fazer tretas com a Faria Lima. Típica briguinha do tipo Emilinha x Marlene. Lula finge “não dar a devida atenção” para a classe média abastada, mas na prática ela é sua prioridade maior. Lula quer que a realidade “conheça” as atividades do governo, mas a verdade é que se há essas atividades, elas são menos gloriosas do que se imagina e se situam em atos óbvios e protocolares, nada que um Sarney ou FHC tenham sido incapazes ou indispostos a fazer.

Ver que Lula, depois de falar grosso contra Roberto Campos Neto, foi passar pano nos juros altos e, da mesma forma, o presidente lavou as mãos em relação ao fim da escala 6x1 do trabalho, é constrangedor. Pouco importa se as opiniões pessoais de Lula sinalizam concordância com as vontades do povo, se ele se demonstra impotente para derrubar os preços altos e a precarização do trabalho, então ele atua como um grande e vergonhoso pelego político.

Apostando no diálogo entre a raposa e a galinha, Lula acaba provando que não é mais do que um ursinho carinhoso da Faria Lima. Falta pulso firme de Lula para tudo, e nós não temos paciência para ver um político agir de forma tão molenga. Antes fosse um medíocre político de direita que, mesmo agindo de forma medíocre, estimula o povo a ir às ruas. Com Lula, as pessoas acabam vivendo na zona de conforto enquanto os movimentos sociais saem desacreditados e sem poder de pressão, diante dessa “democracia” burguesa.

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