CASO ED MOTTA CONTINUA RENDENDO


Ed Motta não é Deus, não é profeta visionário, não é artista revolucionário e nem salvador da Pátria. Mas o bom é que ele sacudiu o país, embora tenha virado "vidraça" pelo fato de que ele não quis falar português para a plateia brasileira.

Ele lançou questões sobre a mediocridade musical, num caso raro. Já tivemos o exemplo de João Gilberto, que também desagradou expondo ao ridículo a plateia que só quer comer e beber, tratando a música como reles trilha sonora para sua embriaguez burguesa meio chique, meio grosseira.

Ninguém quer expor a turma da MPBebum ao ridículo. O pessoal que não tem ideia do estrago que um Michael Sullivan (para a "turma simplória", este pode ser Deus, né?) fez para a Música Popular Brasileira, se acha cheio da razão quando um músico reclama dos chiliques da plateia.

Chega a ser risível que o pessoal caia na gozação porque Ed Motta só quer falar em inglês para a plateia. Afinal, os brasileiros que o esnobam também despejam seu inglês: em vez de "bicicleta", "entrega a domicílio", "apartamento", "vibração" e "moda", agora falam bike, delivery, flat, vibe e fashion.

Até a palavra bullying não tem, até hoje, um equivalente em português. Eu até chamava esse fenômeno de "implicância" e seus praticantes (bullies), "implicantes", mas recentemente veio a ideia de defini-los como "valentonismo" e "valentões".

Mas como eu não tenho a visibilidade de um Luciano Huck, a minha sugestão não vale. Ele lançou com Tutinha a gíria "balada", que era um reles jargão de clubbers paulistas, e a gíria pegou pelo país e atingiu os supostos haters do apresentador narigudo. Sim, agora são haters, não detratores. Manuel foi pro céu. "É Brasil, véi".

Mas no Brasil em que uma parcela de supostos detratores de Luciano Huck fala das suas gírias e segue os seus hábitos (mui detratores, hein?), o pessoal não consegue entender por que um músico expõe suas convicções pessoais.

Quem o pessoal imaginaria que Ed Motta fosse? Sambista? Repentista? Violeiro? Não que fosse ruim ele poder ser um deles, mas é opção dele fazer soul music com inclinações jazzísticas? Se é isso que seu coração manda, que mal tem isso?

E os "maravilhosos" astros do "sertanejo", "pagode romântico" e axé-music que só sabem dar "alô" para a plateia, mas não conseguem fazer uma música que preste? Musicalmente, eles são tão "espontâneos" quanto bonecos de papai noel movidos a bateria que se movem diante de várias lojas no Natal.

Ed Motta não deu a sua visão definitiva do que deve se comportar um músico brasileiro. Ele deu sua visão pessoal. Daí o seu mérito. Foi sua escolha assim, porque é seu estilo, pelo menos ele é um artista musicalmente verdadeiro, como poucos no Brasil. Isso é que o pessoal não entendeu.

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