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BRASIL QUER EXPURGAR SEU LADO SOMBRIO, MAS PRESERVA SEU LEGADO

VALORES CULTURAIS DERIVADOS DA DITADURA MILITAR TENTAM RESISTIR FORA DE SEUS CONTEXTOS, COMO A BREGALIZAÇÃO E O OBSCURANTISMO RELIGIOSO.

O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros militares acusados de planejar um golpe de Estado, que começou ontem, nos leva a pensar de como a “boa” sociedade cria os monstros que depois tenta renegar.

Estamos sofrendo boicotes de negacionistas factuais por revelar que boa parte dos apoiadores de Lula descende de famílias que, com suas “marchas” e “institutos”, clamaram pelo golpe que derrubou João Goulart em 1964. Ninguém quer que se saiba o que aconteceu no verão passado. Para todo efeito, a burguesia ilustrada “sempre foi pobre e esquerdista” e é “socialista desde 1500”, 318 anos antes do nascimento de Karl Marx.

Temos que viver no reino da fantasia, brigar com os fatos e manter a memória curta. É verídico, mas soa ofensivo dizer que a “boa” sociedade que apoia Lula consentiu e até defendeu a ascensão do bolsonarismo. E agora temos que “esquecer e perdoar” enquanto a velha sujeira, com todo o seu fedor e toda a podridão, está escondida sob o tapete.

Até o golpe de Michel Temer contra Dilma Rousseff em 2016 e seu pacote de maldades que precarizou o trabalho foram esquecidos. Quando muito, somente críticas pontuais, rápidas e superficiais. Mas nenhum esforço é feito para combater o legado de Michel Temer. Tudo ficou na cola de Jaír Bolsonaro, um “ator” mas não um roteirista do golpismo de 2016.

A elite do atraso, vendo os estragos que fez com o golpe de 2016, principalmente durante a pandemia de 2020, resolveu se repaginar. Como Michel Temer é um político “profissional”, ele foi poupado de críticas e a “boa” sociedade botou tudo na conta de Jair Bolsonaro, um subproduto desse golpe. 

E aí o pacote de maldades de Temer foi mantido parcialmente e até a retórica de “aumento do emprego”, via precarização, do temeroso governante foi “ressignificada por Lula e até incluída nos “recordes históricos “ de seu fantástico relatorismo. E como uma narrativa negativa, num espaço de pouco mais de cinco anos, passou a se tornar positiva, mesmo com salários precários e rotinas como a escala 6x1.

O lulismo atual está contaminado de pessoas que foram colloridas em 1990, tucanas entre 1994 e 2002 e sabotaram o projeto progressista de Lula nos primeiros mandatos. Hoje esse pessoal se diz “esquerdista desde 1500” e, se há 25 anos era fanaticamente privatista, hoje passou a gostar de dinheiro público, quando usado para patrocinar seus projetos.

E o legado do culturalismo golpista, com seus ídolos cafonas e seus derivados popularescos, suas mulheres-objetos, seus "médiuns" falsamente altruístas, seus craques de futebol milionários e fanfarrões, a supervalorização servil de estrangeiros medianos como Michael Jackson, além de uma perspectiva da vida comparável à de um parque de diversões, todo esse astral digno do "milagre brasileiro" acabou sendo preservado, assim como valores meritocráticos e hierarquizados herdados do governo Michel Temer.

Daí a contradição do Brasil festivo, no seu contexto atual, querer expurgar seu lado sombrio, seja o passado autoritário da ditadura militar, seja a submissão vira-lata aos EUA, seja a supremacia social, cultural e econômica à Faria Lima. Mas de que adianta expurgar tudo isso se mantém o legado, absorvendo praticamente tudo que foi produzido a partir desses poderes?

Até a reação dos negacionistas factuais a críticas ao governo Lula, promovendo um boicote organizado a tais textos, remete ao reacionarismo censor da ditadura militar, o que faz a gente criar o neologismo "AI-SIMco", relativo à combinação de uma positividade tóxica ao contexto do Lulismo 3.0.

O endeusamento a Michael Jackson, próprio do viralatismo vassalo aos EUA, o uso da decadente gíria "balada", um jargão originário da juventude rica da Faria Lima, a bregalização musical herdada dos "anos de chumbo", tudo isso põe um impasse para o futuro do Brasil, que parece sofrer da síndrome do aluno que odeia o professor e segue seus ensinamentos. Um "ódio" assim mais parece devoção do que repúdio.

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