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ULTRACOMERCIALISMO E O 'WISHFUL THINKING' DOS INTELECTUAIS AO "FUNK"

SÓ NA MENTE ETNOCÊNTRICA DA INTELECTUALIDADE "BACANA" É QUE O "FUNK" SE EQUIPARA AO MODERNISMO DA GERAÇÃO DE 1922.

Isso é que dá o "bom etnocentrismo" da intelectualidade "bacana".

A intelligentzia insistiu tanto com essa falácia do "combate ao preconceito", abrindo caminho para o crescimento do "popular demais", que a música brasileira hoje vive a fase do ultracomercialismo.

O preconceito continua existindo e até cresceu, mas mudou de alvo: agora é a MPB autêntica, a música de qualidade, que é alvo de violenta discriminação dos jovens que deveriam zelar por ela.

Antes a MPB autêntica, de nomes como Edu Lobo, por exemplo, empolgava até os secundaristas, como eram chamados os hoje alunos do ensino médio.

Hoje Edu Lobo é esnobado até por alunos de Doutorado, mais afeitos a analisar o "popular demais" com devaneios pretensamente etnográficos ou libertários.

O "funk" foi beneficiado durante anos por essa choradeira intelectual, rasga de seda disfarçada de abordagem objetiva de documentários, reportagens e monografias.

O "funk" foi defendido através do wishful thinking dos intelectuais "bacanas" que viam no ritmo referências culturais e sócio-políticas que, na verdade, nunca existiram.

Daí o wishful thinking, o pensamento desejoso de intelectuais burgueses que queriam que acreditássemos que o "funk" era um caleidoscópio de referências.

Diziam, falaciosamente, que o "funk" tinha "de tudo": rebelião popular, Modernismo, psicodelia, punk, Contracultura, Tropicalismo, Pop Art, Women's Lib, Simone de Beauvoir, etc etc e etcetera.

Você vê as apresentações e ouve o som do "funk" e verá que nada disso existe como referência.

Até quando Bruno Ramos, da Liga do Funk - o ingrato que cospe na Globo que lhe dá apoio - , cita Arrigo Barnabé, é por questão de conveniências e circunstâncias tendenciosas.

O "funk" nunca foi vanguarda. Sempre foi retaguarda e sempre trabalhou para retomar os padrões das classes populares cariocas para antes de 1904.

Daí o ufanismo das favelas.

Esse ufanismo é muito estranho, porque o "funk" vende a imagem de "progressista" fazendo apologia da pobreza.

É um discurso que engana as esquerdas e culmina na comemoração dos funqueiros ao lado dos barões da grande mídia.

MC DIGUINHO E JOJO TODDYNHO, INTÉRPRETES LIGADOS A POLÊMICAS ENVOLVENDO O "FUNK".

O "funk" é a cereja do bolo de todo o processo de bregalização e deterioração cultural, que a "santíssima trindade" dos intelectuais "bacanas" (Paulo César de Araújo, Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna) pregava com seu proselitismo aos demais intelectuais e ativistas brasileiros.

Dos primeiros ídolos cafonas ao mais novo funqueiro-ostentação, apelou-se, com muita persistência, para substituir o folclore musical brasileiro pelo jabaculê, sujeitando a cultura popular à "ditabranda do mau gosto".

Hoje se empurra o "funk" e o "sertanejo universitário" para a juventude em geral, a ponto de quem rejeitar esses ritmos ser vítima até de cyberbullying.

As esquerdas ignoram, mas os sociopatas adoram o "popular demais". Ninguém faz bullying na Internet para defender nomes como Sylvinha Telles, Elizeth Cardoso ou Rafael Rabello.

Os valentões digitais, os mesmos que querem ver o ex-presidente Lula na cadeia daqui a uma semana, são os que mais defendem o "funk", o brega, o "sertanejo", a obra de Sullivan & Massadas.

Mas o wishful thinking dos intelectuais "bacanas", que chegou a retirar uma entrevista de Waldick Soriano defendendo a ditadura militar e o machismo, fez o tal "popular demais" do brega-popularesco prevalecer.

Agora, o que vemos de "cultura de verdade" são ninharias e frivolidades, para não dizer coisas piores.

Depois da polêmica do sucesso "Que Tiro Foi Esse?" da Jojo Toddynho, que nem veio dela - a funqueira, ao menos, tentava introduzir a gíria sure shot (atitude acertada) no imaginário "pop" brasileiro - , veio uma letra proibidona de outro nome do "funk", MC Diguinho.

Diguinho repercutiu com o sucesso "Só Surubinha de Leve", despejando os seguintes versos:

"Taca bebida, depois taca pica e abandona na rua".

E mais:

"Só uma surubinha de leve com essas f... da p..." e "Pode vir sem dinheiro, mas traz uma piranha, aí!"

A repercussão foi negativa. MC Diguinho foi logo acusado de apologia ao estupro e depreciação das mulheres.

Felizmente, há uma parte do "funk" que é reconhecidamente machista.

Os antigos apologistas tentam quebrar a cabeça e são obrigados a dizer que o "funk" não é "um só" como era o discurso de antes.

Agora têm que admitir que existem "funks" que eles defendem e outros que não podem mais defender.


Até porque vieram incidentes que derrubaram aquele "mundo ideal" sonhado pelo discurso da intelectualidade "mais legal do Brasil".

A hipersexualização das mulheres siliconadas, antes uma obsessão, agora está em baixa, com "desembarque" de muitas "boazudas" que hoje são obrigadas a "pegar mais leve".

A antiga mania de "mostrar demais" gerou um subproduto nefasto, que desafiou a vista grossa da intelectualidade.

Esse subproduto eram os estupradores, os punheteiros ao ar livre, os assediadores persistentes, os tarados compulsivos.

Não dava mais para a "boazuda" confundir o Instagram com o espelho de sua casa, como era o discurso cinco anos atrás. Ela tinha que admitir que se exibia para machos afoitos.

E aí temos dramas e protestos diversos, contra a hipersexualização e o machismo.

No caso de MC Diguinho, uma garota, Yasmin Formiga, reprovou a temática de "Só Surubinha de Leve" e botou o refrão desse hit num cartaz, enquanto ela aparecia com o olhar tristonho e maquiada como se tivesse sofrido uma grave agressão sexual.

Escreveu a garota, nas redes sociais:

"Sua música ajuda para que as raízes da cultura do estupro se estendam. Sua música aumenta a misoginia. Sua música aumenta os dados de feminicídio. Sua música machuca um ser humano. Sua música gera um trauma. Sua música gera a próxima desculpa. Sua música tira mais uma. Sua música é baixa ao ponto de me tornar um objeto despejado na rua".

A má repercussão fez o sucesso do MC Diguinho ser retirado das mídias digitais, sobretudo o Spotify.

Nos tempos em que os universitários, em vez do "Lepo Lepo" do Psirico, ouviam o "Lero-Lero" de Edu Lobo, não havia escândalos desse tipo.

Os escândalos eram outros, menos doentios, e as polêmicas, menos gratuitas.

Como Sérgio Ricardo quebrando o violão, Caetano Veloso discursando irritado e Jards Macalé comendo flores, tudo em festivais de música.

A Marília que os universitários ouviam não era a Mendonça. Era outra, valiosa até no sobrenome: Marília Medalha.

João Bosco e Vinícius eram o cantor mineiro João Bosco (ativo até hoje) e o saudoso poeta Vinícius de Moraes.

Em vez de Pablo Vittar com sua voz desafinada, tínhamos (e continuamos tendo) um primor de performance e talento vocal, Ney Matogrosso.

Vivemos hoje uma época de ultracomercialismo musical brasileiro, com a bregalização indo às últimas consequências.

A intelectualidade "bacana" continua "guevarizando", mas já não tem mais a unanimidade de antes.

Ainda assim, conseguiram o que queriam, privatizando a cultura popular e substituindo artistas por fetiches comportamentais, com talento entre o mediano e o ruim.

Num contexto em que até a canastrice de Chitãozinho & Xororó virou "sinônimo de sofisticação", a música brasileira vive uma situação triste.

Se as forças progressistas temem que o Brasil como um todo vire um Caldeirão do Huck, vale um aviso.

A música brasileira de hoje se transformou totalmente num Caldeirão do Huck. O "tiro" pode acabar sendo a vitória de um plutocrata nas eleições de 2018.

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