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DENÚNCIA: "PSICOGRAFIAS" TERIAM ANTECIPADO A FARRA DOS 'FAKES' NO BRASIL

HUMBERTO DE CAMPOS - FALSAMENTE CREDITADO A UMA FALSA PSICOGRAFIA COM LEMA IDÊNTICO AO DE JAIR BOLSONARO.

Os espíritas autênticos, que não compartilham da orientação conservadora da religião que hoje, sutilmente, se aproxima das pautas ultraconservadoras dos evangélicos pentecostais (como a Igreja Universal do Reino de Deus), fazem uma denúncia.

Ela é bastante polêmica, porque envolve um "médium" (não quero citar o nome, porque traz muitos, digamos, dissabores) que oficialmente é tido como "símbolo de bondade, paz, fraternidade e amor ao próximo".

Digamos, um pioneiro "homem de bem", um pretenso "homem chamado Amor" que seduziu e enganou a todos ao pedir que as pessoas oprimidas aceitassem as desgraças "em silêncio, sem queixumes", procurando se distrair, na agonia extrema, "olhando árvores, flores e passarinhos".

Sim, ele - que até setores das esquerdas, lamentavelmente, o definem como "homem simples" e "símbolo indiscutível da paz e da fraternidade" - é relacionado à literatura fake, para desespero de seus apaixonados seguidores.

Considerado "o maior psicógrafo do Brasil", ele na verdade teria feito trabalhos fraudulentos, com a ajuda do presidente da federação associada, de sua equipe editorial e de consultores literários diversos.

Até uma "médium" tão ligada a esse figurão religioso - famoso por ter usado uma peruca e vestir ternos cafonas - acabou "entregando" a farsa, divulgando uma carta na qual o "iluminado médium" agradecia editores da FEB (a tal "federação") por fazerem revisões editoriais de um livro.

Este livro é uma falsa coletânea de poemas "trazidos do além", publicado em 1932, quando o Brasil não estava preparado para atividades consideradas paranormais (e continua não estando).

O livro era tão antiquado quanto seu "médium" que se chamava "Parnaso" quando o Parnasianismo já era um rio já seco de águas passadas. O Modernismo, que derrubou o movimento parnasiano, já estava no mainstream cultural e ocupando posições administrativas em instituições públicas.

O tal do "Parnaso" pode ser um habilidoso amontoado de pastiches literários, mas o "médium" não fez sozinho: editores diversos, consultores literários e até outros redatores ajudavam nos arremedos poéticos.

Por acidente, houve uma confusão de pastiche, em que um suposto Antero de Quental, poeta português, soava como um plágio do poeta simbolista brasileiro, Augusto dos Anjos.

Olavo Bilac e Auta de Souza também "sofriam" nos créditos, associados a poemas tão medíocres que nem de longe lembram sequer a sombra de seus estilos pessoais.

Casimiro de Abreu era creditado a um poema que apenas imita seu estilo em paródia, mas que em determinado trecho fala em "alegria para sofrer", algo absolutamente impensável para um poeta ultrarromântico.

Em seu tempo, o autor Humberto de Campos fez uma crônica cheia de ironias em relação a esse livro bisonho.

O "bondoso médium" (cujas imagens são coladas em memes piegas com cenário de céu ou de jardins que ilustram suas horrorosas frases) não gostou da resenha e aproveitou a morte de Humberto para inventar um sonho para forjar uma falsa parceria.

Os livros "espirituais" que passaram a levar o nome de Humberto de Campos são um horror. Nem de longe lembravam o delicioso estilo do escritor nascido na antiga Miritiba, cidade do Maranhão que depois foi rebatizada com o nome de seu nativo ilustre.

O caso gerou um processo judicial em 1944, movido pelos herdeiros de Humberto, que deu em nada.

O juíz substituto da época, o então famosíssimo João Frederico Mourão Russell, pareceu um misto de Sérgio Moro com a primeira-turma do Supremo Tribunal Federal.

Ele não parece ter entendido bem a questão e liberou o "médium" para fazer o que quiser. Considerou a ação judicial "improcedente". Lembra o que Alexandre de Moraes fez com Jair Bolsonaro no caso do comentário racista.

O "médium" só teve o cuidado de inventar um pseudônimo (de uso externo, porque dentro da sua religião, continuava valendo a usurpação do nome do escritor), chamado "Irmão X".

Em 1957, o "médium" resolveu seduzir o filho de Humberto, um produtor de TV com o mesmo nome que apareceu ao lado de Hebe Camargo em uma foto publicada na Internet, num evento de reunião doutrinária com práticas de Assistencialismo, incluindo uma caravana.

Houve assédio moral, mas com um toque de sedução, também, quando, num abraço "fraternal", o "médium", dominando Humberto de Campos Filho, ensaiou um falsete que deixou a vítima bastante confusa, como que num transe hipnótico.

Esse "abraço fraterno" foi uma manobra bastante maliciosa de dar fim aos processos judiciais contra o "médium".

Muita gente, infelizmente, adora esse "médium", erroneamente associado a uma pretensa síntese de virtudes humanas.

O "médium", na imaginação fértil de seus seguidores seduzidos pela imagem sorridente do velhinho de peruca e óculos escuros, virou um pouco de tudo, pretensamente.

Foi de suposto "repórter do além" a pretenso "filósofo". Falso ativista, suposto filantropo, pretenso intelectual, e, ultimamente, um risível profeta com erros geográficos e sociológicos diversos.

Mas para quem lançou o livro-patriotada usando o nome de Humberto, o ridículo Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, faz sentido.

Esta patriotada literária, num contexto em que os "heróis do penta" (cuja ocorrência foi seguida do falecimento do "médium") apoiam Jair Bolsonaro, é uma verdadeira aberração literária.

Como livro de história, este livro de 1938, feito sob encomenda do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), na pessoa do sr. Lourival Fontes, é risível. Nivela-se aos piores livros didáticos de História do Brasil, o que derruba a tese de ser uma "revelação do mundo espiritual".

Nele o "médium" deixou escapar uma visão racista, que definiu negros e índios como se fossem "selvagens". Mas, botando a responsabilidade no Humberto, que não está aqui para reclamar, o "iluminado homem bom" pôde salvar sua pele de tão incômoda situação.

Em outras obras, o "médium" também manifestou posições machistas e homofóbicas, no primeiro caso, num comentário irônico, recomendando às mulheres de "exercerem seu feminismo no lar e na prece". Lembra muito o caso da "bela, recatada e do lar" de Marcela Temer.

No segundo caso, definiu o homossexualismo - que é conhecido hoje como causa LGBTT, diante da amplitude de seus tipos - como uma "confusão mental".

Mas o que chama a atenção em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho é que este lema ganhou um equivalente mais simplificado em ninguém menos que Jair Bolsonaro.

Sem falar que a ideia de um país dominando o mundo, por mais que se falem em enunciados bonitos como "paz e fraternidade", é sempre muito perigosa.

Lançado em 1938, o título do livro lembra muito mais um equivalente de um projeto fascista como na Alemanha e na Itália, que usavam também verniz religioso.

Nos 80 anos do livro-patriotada e às vésperas de uma "data-limite" de uma suposta profecia do "médium", seu lema "maravilhoso" se encaixa, perfeitamente, com o lema bolsonarista "Brasil, acima de tudo, Deus acima de todos".

É como se o lema do "médium" fosse traduzido para o lema bolsonarista para os iniciantes, famosos por sua ignorância, entenderem a coisa com maior facilidade.

O "médium", com sua apropriação "psicográfica" de grandes autores mortos (creditados em obras que não são a sombra do que eles fizeram em vida), também é comparado com o "mito" pelas confusões que provocou, neste caso com o famoso plano terrorista de 1987.

A experiência criou uma visão oficial de "mediunidade" que é cheia de graves equívocos e cujo resultado é abaixo do medíocre.

As esquerdas devem se lembrar melhor do que Léo Gilson Ribeiro, um dos fundadores de Caros Amigos, declarou na revista Realidade, em 1971, em ironia sobre as pretensas psicografias: "O espírito sobe, o talento desce".

Sem a Justiça para averiguar com isenção tais obras - o prestígio religioso recebe a mesma blindagem do prestígio político e econômico, um "médium espírita" é tão blindado quanto um grande banqueiro - , as falsas psicografias criaram uma péssima escola de mediunidade.

Vai qualquer espertinho se trancar numa sala, cria uma mensagem da própria mente, aproveitando de fontes impressas ou de depoimentos de familiares observados, e cria-se uma mensagem religiosa qualquer.

Pela pretensa superioridade que isso representa, devido às mensagens "positivas", criou-se uma farra de fakes que cresceu e abriu caminho para as fake news e para as identidades fake nas redes sociais.

Sempre tem um morto da moda, um falecido recente ou uma antiga personalidade histórica, em mensagens duvidosas que só fazem propaganda religiosa, com o papo chato de "paz entre irmãos" que não resolve as tensões humanas e nem estimula o diálogo entre divergentes.

Não é por acaso que o WhatsApp é, ultimamente, o maior reduto dos "médiuns espíritas", pela grande e indissociável sintonia que possuem, seja pelo ultraconservadorismo religioso, seja pelas atividades fake produzidas.

E o coitado do Humberto de Campos teve obras originais desaparecendo dos catálogos literários, enquanto os livros fake ganham, a cada temporada, novas edições.

É um cenário surreal que só mesmo no Brasil tem sentido, diante da idolatria ao "médium" de peruca e óculos escuros, que atinge níveis preocupantemente obsessivos.

Ainda mais quando essa idolatria é, mais uma vez, reforçada por mais uma obra dramatúrgica piegas, desta vez uma peça com o nome de Um Cisco, cuja estreia se deu justamente na Curitiba de Sérgio Moro, uma das cidades-reduto de bolsonaristas e onde o ex-presidente Lula permanece preso.

O tal "médium" não era para ser adorado, mas contestado, investigado e repudiado, diante das confusões que ele fez.

Ele não poderia ser um "espírito de luz", porque suas ideias sempre investiam nas trevas do sofrimento em silêncio, da caridade duvidosa, do moralismo mais retrógrado.

Até porque a sua "linda profecia" do Brasil como "coração do mundo" e como "pátria do Evangelho" nunca foi mais do que o prenúncio de um lema bolsonarista.

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