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AS "CARTAS" QUE TENTARAM SALVAR A DITADURA MILITAR

 


 AS CARTAS INVARIAVELMENTE COMEÇAVAM COM A SAUDAÇÃO "QUERIDA MAMÃE" OU "MÃEZINHA QUERIDA".

Durante a crise da ditadura militar, o Espiritismo brasileiro começou a se projetar demonstrando ser um dos braços religiosos do regime ditatorial, empenhados em combater e enfraquecer a Teologia da Libertação da Igreja Católica, que estava denunciando os crimes da repressão militar.

Um modismo foi criado para promover sensacionalismo, alimentado pela imprensa policialesca e pela mídia de fofocas, duas frentes "noticiosas" de baixo conceito, mas que foram as primeiras a se identificarem com as "energias elevadas" desse Catolicismo medieval redivivo.

As "cartinhas mediúnicas" dos ditos "entes queridos" foram um fenômeno difundido nos anos 1970 e que enganou milhares de pessoas, estimulando a prática da "masturbação com os olhos", que é quando o ato de se comover e chorar se torna um divertimento premeditado, uma verdadeira recreação, principalmente de pessoas mais velhas.

Essa onda das "cartas mediúnicas" era comparável às fraudes de materialização que o "bondoso médium" de Uberaba participou e planejou nas décadas de 1960 e 1970. Suspeita-se que o "médium" teria sido mandante e mentor das fraudes de uma farsante, Otília Diogo, que apenas era habilidosa no ilusionismo circense. Fotos comprovam que o "médium" que se autoproclamava "lápis de Deus" ou "carteiro de Deus" estava por dentro dos bastidores desse espetáculo infeliz de tão fraudulento.

As "cartas mediúnicas" foram uma tentativa de criar uma cortina de fumaça para a crise da ditadura militar, nos anos 1970. Era uma atividade fraudulenta, marcada pela "leitura fria", interpretação subliminar de gestos e detalhes dados em um depoimento de um parente ou amigo vivo de uma pessoa morta, e por pesquisas bibliográficas. 

As cartinhas sempre tiveram um estilo padronizado e um roteiro pré-determinado, apenas "variando" conforme o suposto morto. Começavam quase sempre saudando "Mãezinha querida" ou "Querida mamãe" e o roteiro consistia quase sempre na mesma narrativa: o "espírito" ia para um umbral (que parecia um misto de caverna e terreno baldio), era socorrido para uma "colônia espiritual" (concebido à semelhança de um hospital) e, depois, fazia um mershandising religioso pedindo a "união em torno do Cristo".

A onda dessas "cartinhas marcadas" - como dizia um ex-discípulo do "médium" de Uberaba que, após o caso Otília Diogo, rompeu com ele e criou outra religião - tinha uma mensagem subliminar. A ideia da "vida após a morte" era abordada de forma equivocada e igrejeira e, além disso, como um atenuante para as mortes causadas pela ditadura militar.

Melhor explicando: se as "pessoas comuns" estariam bem "no outro lado da vida", os mortos da repressão militar "estariam em situação melhor ainda", o que significava que o DOI-CODI poderia ser visto como "a porta de entrada para o paraíso", após "as dores intensas da provação necessária (sic)".

Note-se que o modismo durou alguns anos e, de repente, a onda de "cartas mediúnicas" acabou em meados dos anos 1980, só continuando a ocorrer "eventualmente" por iniciativa de outros "médiuns", sempre oferecendo sensacionalismo combinado com mershandising religioso.

No caso das "cartas mediúnicas" do "médium" de Uberaba, esse fenômeno de notório apelo sensacionalista foi uma tentativa de distrair a população diante da crise grave que o regime ditatorial sofria, uma crise política e econômica que devastou o Brasil na época. As cartas não eram um consolo verdadeiro, mas uma "cortina de fumaça" para promover a resignação da população com a ditadura militar e evitar o crescimento dos movimentos pela redemocratização do Brasil.

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