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COMO A FARIA LIMA PÔDE PRESERVAR, SEM DOR, O LEGADO CULTURAL DA DITADURA MILITAR?

NOS ANOS 1970, O EMPRESARIADO TENTAVA CONVENCER A DITADURA MILITAR DE QUE SE PODE PROTEGER OS INTERESSES DAS CLASSES DOMINANTES SEM CAUSAR DOR.

O que funqueiros, “médiuns espíritas”, ônibus com pintura padronizada, subcelebridades, cantores brega-popularescos, programas de TV policialescos ou de fofocas e a domesticação do público roqueiro pela 89 FM têm em comum? Simples, tudo isso vem, de certa forma, de um culturalismo tramado pelas elites da Faria Lima, como opção menos dolorosa para a realização dos propósitos conservadores da ditadura militar, em 1974.

O período de 1974, ano da crise do “milagre brasileiro” - que só não atingiu a classe média abastada, hoje base de apoio do lulismo - a 1979, época da crise política da própria ditadura, merece ser estudado com atenção e cautela. Afinal, é nesse período que a ditadura militar, aparentemente, se torna mais amena, mas a coisa não se deu de graça.

Afinal, nesse período, quando episódios como a Crise do Petróleo no Oriente Médio em 1973 e as mortes realizadas de forma “autônoma demais” pelo DOI-CODI, atingindo o jornalista Vladimir Herzog e o sindicalista Manuel Fiel Filho, exigiram uma mudança de estratégia da ditadura, que seguia torturando e reprimindo, mas teria que promover a tal distensão política, não porque passou a ser democrática. Afinal, o Pacote de Abril do governo Ernesto Geisel, com seus parlamentares “biônicos” (não eleitos, mas. nomeados pela ditadura), mostrava que a “redentora” continuava autoritária, censora e repressiva.

A Faria Lima teria agido para atuar nas causas e fenômenos citados no primeiro parágrafo, de forma direta ou indireta. A pintura padronizada dos ônibus foi feita por um ex-aluno da UFPR da gestão de Flávio Suplicy de Lacerda, que foi ministro da Educação do general Castelo Branco e ameaçou privatizar as universidades públicas, causando a revolta estudantil que fez história no triênio 1966-1968. A elite do Banco Itaú vestiu a camisa (ou farda) dos ônibus padronizados de Curitiba e implantou em São Paulo.

Os “médiuns” são religiosos ultraconservadores de discursos suaves e aos quais se associa uma hipotética filantropia que não passa de fachada para seu obscurantismo religioso e que só comove a classe média abastada, essencialmente paternalista. São blindados pela mídia empresarial e até pelas classes dominantes. Um “médium” de Uberaba, falecido em 2002, foi um protegido dos latifundiários do Triângulo Mineiro e outro de Salvador, recém-falecido, foi impulsionado ao estrelato com ajuda do então governador Antônio Carlos Magalhães.

A domesticação dos pobres pelo assistencialismo “espírita” ou ecumênico, que nem de longe consegue resolver de fato as desigualdades sociais, ganha respaldo, mesmo num outro contexto, na espetacularização da pobreza pelo culturalismo brega-popularesco, dos primeiros ídolos cafonas ao “funk”. A Faria Lima se empenha em domesticar o povo brasileiro e a bregalização é uma ferramenta para transformar pobres revoltados em pessoas resignadas e obedientes, a “afogar suas mágoas” na bebedeira ou no divertimento hedonista popularesco.

A Faria Lima está por trás de todo esse desenho social que o Brasil passou a ter desde os anos 1990, quando o povo passou a ser caricatura de si mesmo e a cumprir “espontaneamente” os papéis designados pelo mercado, pelos publicitário e pela grande mídia.

Mas se a Faria Lima, a elite empresarial mais influente de São Paulo e, por extensão, do Brasil, queria suavizar a ditadura militar e envolver a população brasileira num universo de consumo e divertimento, isso não significa que essa aparente liberdade seja desprovida de censura.

Tivemos, na época, o pedido da mídia em geral em substituir a avaliação pela Censura Federal, por demais moderada, pela autocensura dos meios de comunicação. Apesar da imagem de "libertária" que certos jornalões tentaram atribuir a essa iniciativa, ela foi motivada quase sempre apenas para agilizar os trabalhos, sem discordar do controle ideológico do órgão censor federal.

Tivemos o começo da censura acadêmica, com o banimento do pensamento crítico nos cursos de pós-graduação sob a desculpa de ser “opinativo demais”. Essa censura acadêmica protegia a hierarquia dos professores de prestígio e os acordos financeiros por trás das teses de pós-graduação, que passaram a aceitar teses consideradas “inofensivas ao sistema”.

Em muitas dessas iniciativas, as classes dominantes são parceiras da Faria Lima nesse processo que se deu para criar condições psicológicas que dispensassem a repressão ditatorial, garantindo a anestesia sociocultural da população.

Com isso, foram criadas raízes para a chamada “democracia neoliberal” do período de Ernesto Geisel e que fora alguns intervalos, atravessou os governos Collor e FHC e tentou se ressignificar nos governos de Lula, primeiro sabotando a agenda cultural de 2003-2010, depois mergulhando no atual mandato do petista.

E aí vemos o "AI-SIMco" que discrimina o pensamento crítico, demoniza a verdadeira arte, ridiculariza os solitários em busca de amor próprio, tudo para impor uma estética de "parque de diversões" tida como "libertária" nesse país confuso que é o Brasil de hoje. Tudo porque a Faria Lima deu sempre um jeito para que o legado da ditadura militar seja, em parte, acolhido pelas esquerdas woke, bastando apenas estar desprovida da cosmética do raivismo.

Assim, as classes dominantes não só têm seus interesses protegidos na pós-ditadura como conseguiriam tais interesses sem precisar de apelar para a violência física. Enfim, o Brasil passa a ter seu poder suave (soft power) para evitar os efeitos colaterais da repressão física prolongada. Basta apenas transformar o Brasil num parque de diversões e, pronto, as elites continuam faturando alto e a juventude woke achando que vive num paraíso de liberdade. Quanta ilusão.

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