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O LOBBY DA FOLHA EM PROL DA NOVELA 'A VIAGEM'

 OTÁVIO FRIAS FILHO - O VERDADEIRO ESPÍRITO OBSESSOR QUE VIBRA PELO SUCESSO DE 'A VIAGEM'.

Vamos combinar que o sucesso da atual reprise de A Viagem não se dá pelos méritos naturais. Como dramaturgia, é uma obra menor de Ivani Ribeiro e, entre as novelas de diversos autores produzidas pela Rede Globo, trata-se de um dramalhão dotado de um carcomido moralismo religioso muito mal disfarçado, mas que cai muito bem no gosto da burguesia ilustrada que domina as narrativas em todo o Brasil.

Nesse tempo em que um famoso "médium" charlatão de Salvador, ultimamente apoiador do bolsonarismo, faleceu, o Espiritismo brasileiro, ou seja, o Catolicismo medieval de botox e creme antirrugas, encontrou sua oportunidade para tentar crescer e se tornar uma espécie de "neopentecostalismo do bem". As homenagens piegas que o charlatão recebeu, algumas delas evocando o "encontro" dele com o "médium" picareta de Uberaba, são de uma pieguice gosmenta que, infelizmente, contagia muita gente boa.

E isso reforça a ascensão dessa religião carcomida que cheira a fedor de mofo acumulado desde o século 12, piorando as coisas que já estão complicadas nesse Brasil cujas aberrações se tornaram o "novo normal" desde abril de 1964, indo deste a precarização do trabalho a esse obscurantismo religioso travestido de "espiritualismo racional-futurista".

E tudo isso diante de um país desprevenido que passa pano nos "médiuns", já existindo um tal "Joao sem Deus" para pagar os pecados dos demais. Nos anos 1970 já tivemos um "João sem Deus", com as iniciais correspondentes às consoantes da palavra "caixa", mas o AI-5 não só abafou suas atitudes macabras - como um apoio radical à ditadura militar de fazer o Brilhante Ustra ficar de queixo caído - , como transformou numa pretensa unanimidade religioso-filantrópica.

Nem mesmo podemos recorrer aos semiólogos que, tão facilmente, são capazes de desmontar bombas semióticas em fenômenos da Polônia, da Espanha e da Coreia do Sul ou mesmo nos escritórios do presidente dos EUA, Donald Trump, mas têm medo de desmontar paióis mais explosivos do que a bomba atômica representados pelo "querido médium" de Uberaba. Já bastam os jornalistas investigativos trocarem canetas e teclados pelas flanelas para passar pano no pretenso "maior médium do Brasil".

Tudo isso é mais assustador do que filme de terror. E a burguesia ilustrada e setores da classe média razoavelmente abastada que se deslumbram com "médiuns" e "temáticas espíritas", estão se deslumbrando com esses cantos-de-sereia religiosos, vindos de uma religião fraudulenta que, pelo natural hábito de falta de concentração que faz os brasileiros terem preguiça de leitura e não prestarem atenção nas músicas que parecem ouvir, transforma os "contatos com os mortos" numa atitude fraudulenta e grosseiramente fingida.

O Espiritismo brasileiro torna-se, então, uma religião extremamente pior do que as seitas evangélicas neopentecostais, pois é um obscurantismo religioso mascarado pelo discurso melífluo de seus "médiuns" e palestrantes e pela promessa de "progresso humano" que faz o gado bovino e humano dormirem tranquilos. Não é uma religião focada no povo pobre, que, muito desconfiado, recebe quieto as precárias doações festejadas pelos paternalistas "espíritas".

E aí vemos o quanto há um grande lobby em torno de A Viagem, que agora faz a Rede Globo pensar em reprisar uma novela com temática semelhante, Além do Tempo, com o fim de fazer o Espiritismo brasileiro ser a "Igreja Universal da burguesia ilustrada", tentando neutralizar a força dos neopentecostais com um movimento falsamente ecumênico, que é esse "kardecismo que traiu Allan Kardec".

E de onde vem esse lobby? Vem das Organizações Globo, a princípio, apesar do eventual "fogo amigo" que fez contra o "médium da peruca" de Uberaba, acusando-o de blindar o tal "João sem Deus" doando uma propriedade em Abadiânia, Goiás. A Globo, depois da falência da TV Tupi - derrubada pelas "energias de luz" da primeira versão da novela A Viagem - , tornou-se a penúltima trincheira dos "espíritas", continuando a integrar o tráfico de influência, não mais como o reduto principal, mas como um reduto complementar.

O principal reduto hoje do Espiritismo brasileiro é a Folha de São Paulo, respaldado também por setores "secundários" da mídia empresarial - SBT, Isto É, Band, Terra, O Estado de Minas, Contigo, Ana Maria, Flipar, entre outros - , e diz a lenda que um dos donos da Folha / UOL, Luís Frias, está apoiando o Espiritismo brasileiro na esperança de receber uma "psicografia" creditada ao falecido irmão Otávio Frias Filho lhe designando como o "herdeiro natural" do espólio da empresa da Rua Barão de Limeira. Atualmente Luís e outros irmãos disputam a herança deixada por Otávio.

A fixação da Folha de São Paulo com o Espiritismo brasileiro nos últimos anos, após o falecimento de Otávio, se vê em eventuais matérias entusiastas dedicadas à religião, com uma frequência que chega a destoar do verniz de modernidade que o periódico da família Frias mostra desde que foi implantado o Projeto Folha. Uma religiosidade piegas e cafona, cheirando a mofo tóxico de tão velha, que normalmente faria sentido num SBT ou numa revista de fofocas dos anos 1970, veiculada por um jornal e um portal de Internet (UOL, endossado pelo seu derivado BOL), normalmente palcos do Carnaval brega-identitário brasileiro.

A Viagem também integra o "saudosismo de fachada" que tentou gourmetizar a bregalização musical de nomes como Michael Sullivan, É O Tchan e Chitãozinho & Xororó (este através da cover de "Evidências", do bolsonarista José Augusto) e da supervalorização de eventos medianos estrangeiros, como o seriado Chaves e ídolos como Michael Jackson e Guns N'Roses. Esse "saudosismo" é uma parte do viralatismo cultural enrustido que toma conta das redes sociais.

A Viagem nem de longe é uma das melhores novelas do Brasil. Seu enredo é fraquíssimo. Quando muito, a parte mais "divertida" está na falsa canastrice de Guilherme Fontes, um excelente ator, na raiva trash no papel de um espírito obsessor. Se fosse explorar um revival de novela, melhor teria sido explorar a reprise de Que Rei Sou Eu?, esta sim uma excelente novela.

Quanto à ciranda da Folha de São Paulo e seu culturalismo vira-lata, vemos o quanto a empresa dos Frias honra seu legado oculto da ditadura militar. Ela já blindou a 89 FM, a "rádio rock" controlada por um figurão da ditadura militar e já promoveu o "funk carioca" como um falso movimento cultural surgido de valores socioculturais manipulados pela TV nos tempos da ditadura militar.

Agora, com a tentativa do Espiritismo brasileiro, a repaginação do velho Catolicismo medieval trazido para o Brasil pelo movimento jesuíta português - a ponto do Padre Manoel da Nóbrega ser "reutilizado" como um "pensador espírita" - , a Folha de São Paulo se une a dois "médiuns", um mineiro que apoiou escancaradamente a ditadura militar e um baiano que virou amigo e parceiro de Jair Bolsonaro, para erguer o obscurantismo religioso que promete fazer o Brasil dominar o mundo com a tal da "Pátria do Evangelho".

Essa farsa de "Pátria do Evangelho" só é apoiada pela burguesia metida a boazinha que trata o povo pobre como um bando de animaizinhos domésticos sem importância. Mas esse projeto perigoso vai restaurar o Império Bizantino em solo brasileiro e reestruturar o velho poder católico medieval sob o rótulo de "kardecismo".

Só a burguesia de chinelos, invisível a olho nu, se empolga com isso, ela que está sedenta em ver o Brasil integrando o Primeiro Mundo o mais rápido possível. Mas, fora dessa bolha social, o que o verdadeiro povo espera disso é um terrível pesadelo de proporções catastróficas. Muito triste.

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