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O LADO SOMBRIO QUE LIGA A 89 FM À DITADURA MILITAR

O NADA REBELDE FUNDADOR DA 89 FM, JOSÉ CAMARGO, FOI UM POLÍTICO PAULISTA DURANTE A DITADURA MILITAR.

Aparentemente tida como a “maior rádio rock do Brasil” e, com equivocado e constrangedor exagero, se autoproclamando “rádio alternativa”, a 89 FM de São Paulo, em que pese sua suposta função de canal de expressão para a juventude rebelde brasileira, tem um pano de fundo relacionado aos terríveis anos da ditadura militar, não bastasse seu dono João Camargo ser um dos mais poderosos empresários de São Paulo, dono da Esfera Brasil e dublê de ativista empresarial.

Esse pano de fundo se refere ao fato de que o pai de João , o falecido José Camargo, foi um político da ARENA, partido que comandou a ditadura militar. José Camargo era ligado a Paulo Maluf, um grupo político que também teve o então fituro dirigente esportivo José Maria Marin.

Foi Marin que se tornou pivô do mais trágico episódio que acabou gerando a crise do poder ditatorial. Marin, como deputado pela ARENA, havia denunciado o diretor de Jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog, o Vlado, de se recusar a noticiar uma obra do governador paulista Roberto de Abreu Sodré. Foi aí que Vlado foi preso, torturado e assassinado, embora o DOI-CODI, órgão de repressão, tenha criado um jogo de cena para fazer de conta que o jornalista se “suicidou”.

José Camargo é um sujeito conservador e tão apoiador do regime, que, nos primórdios da 89, recebeu na rádio o ministro da ditadura, militar e latifundiário, César Cals, fotografado com o empresário e os dois filhos, um deles o próprio João Camargo.

É risível que Luís Henrique Magglioca, primeiro coordenador da 89 FM, tenha feito vista grossa sobre as rádios controladas por políticos, em entrevista dada a Ricardo Alexandre para o livro Dias de Luta. Afinal, Magglioca - que chegou a "plagiar" uma declaração do hoje saudoso Luiz Antônio Mello sobre ser "profissional de rádio" (ver meu livro Radialismo Rock: Por Que Não Deu Certo?) - se esqueceu que trabalhava numa rádio contolada por um político, e dos mais conservadores.

Ao longo dos anos 1990, o crescimento da 89 se deu pelo respaldo político aos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, que investiram pesado nos subsídios financeiros à emissora paulista. O crescimento da 89 FM se deu pelo apoio convicto dado a esses cenários políticos bastante conservadores.

Isso é muito diferente do que ocorreu com a Eldo Pop e a Fluminense FM que, apesar de terem seus proprietários ligados a panos de fundo conservadores, eram emissoras que se comprometeram com o comportamento moderno e avançado, além de dotado de respeito com o público jovem no sentido humanista do termo. 

A Eldo Pop, apesar de ser de propriedade das Organizações Globo, ficava na sua com sia programação genuinamente rock, sem locução e com liberdade de divulgação de artistas roqueiros, com uma programação de primeiríssima linha.

Já a Fluminense FM, apesar de ter como dono um ex-deputado udenista, Alberto Francisco Torres - descendente do Visconde de Itaboraí e “eternizado” como nome de avenida na Praia de Icaraí - , tinha uma mentalidade progressista e de vanguarda, inspirada na Contracultura dos anos 1960.

Já a 89 FM primou por fazer uma adaptação mais conservadora da linguagem da MTV dos EUA, bem antes de se pensar na MTV brasileira. E, nos anos 1990, se a nossa MTV apresentou um diferencial cultural positivo para o público jovem, as “rádios rock” da época adotavam um perfil caricato que, na essência, buscou inspiração na Jovem Pan, paradigma do radialismo pop de então.

A 89 FM não merece crédito como rádio de rock por conta desse histórico e de posições como a do dono João Camargo que manifestou defesa das grandes fortunas. Que moral tem uma rádio dessas para representar a rebeldia do público roqueiro? Nenhuma, evidentemente.

E aí os Amaral de Carvalho da Jovem Pan e os Camargo da 89 vivem um casamento secreto no círculo midiático da Faria Lima. Quem perde com isso é o público jovem.

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