LUIZ MELODIA E A AGONIA DE UMA MPB EM SÉRIA CRISE


A MPB está ficando velha.

Toda vez que perdemos um talento veterano da MPB, soa o sinal de alerta.

Mas às vezes perdemos também jovens e potenciais talentos.

Recentemente, uma violonista de 24 anos, Mayara Amaral, morreu brutalmente assassinada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, da região Centro-Oeste palco de obituários constantes de jovens moças.

Foi uma combinação de ciúme doentio de um rapaz, um baterista que teria tido um caso com ela, que usava drogas pesadas e contratou bandidos para liquidar e queimar a jovem.

Foi um feminicídio, e dos piores, mas foi também o impiedoso ceifamento de um potencial talento da MPB.

A moça era violonista, parecia rumar para uma música de qualidade, e fazia mestrado sobre as mulheres violonistas, infelizmente abortado.

Espera-se que alguma outra aluna de violão entenda a proposta e complete o trabalho, ainda que sob o aparato de uma outra tese de mestrado ou doutorado.

Qual funqueira ou "sertaneja", tida como "empoderada", vai se dedicar a estudar violão e pesquisas sobre mulheres violonistas?

Mayara era uma exceção na geração de muitas Anittas e outras Mayaras que se preocupam mais em cantar sobre aquilo que o jargão de Luciano Huck chama de "balada".

Hoje perdemos Luiz Melodia. Um talento de vanguarda da MPB dos anos 1970.

Ele não resistiu aos efeitos de um câncer e faleceu, aos 66 anos.

Seu último disco, Zerima, foi lançado em 2014.

Ele combinava sambas, baladas (não se fala em huckês nem coxinhês, mas em português) ao violão, reggae, blues e elementos pós-tropicalistas com personalidade.

Sua morte se deu meses depois de outro ícone setentista, Belchior.

Belchior e Luiz Melodia vieram da MPB alternativa, mas se tornaram célebres com suas canções, na interpretação própria ou de outros.

O pouco conhecido Luiz Grande, sambista parceiro de Zeca Pagodinho (que também lamentou a morte de Melodia), também faleceu, aos 71 anos.

Eles morreram numa época em que a MPB carece de renovação.

De um lado, a MPB perdida em revivais excessivos, como se estivesse num clima de despedida, lembrando-se de glórias passadas.

De outro lado, supostos renovadores perdidos em três fórmulas, e isso quando não sucumbem ao brega-popularesco.

Uma fórmula é a MPB carneirinha, quase um bubblegum brasileiro: Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Tiago Iorc etc.

Outra fórmula, a música "provocativa", com nomes como Inês Brasil e Liniker com atitude demais e música de menos.

A terceira fórmula, de zilhões de cantoras que fazem Rock Brasil com Jovem Guarda e uma atitude riot grrrrl bastante tardia.

Nenhum deles parece se comprometer com a renovação da MPB como música.

Além disso, o público mais bitolado acha que MPB só tem meia-dúzia de artistas: Chico Buarque, Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Martinho da Vila.

Chico Buarque até se esforça. Recentemente, lançou uma nova canção, "Tua Cantiga", com o mesmo vigor musical de sempre.

Mas isso não é tudo. Precisamos renovar a MPB. Todos eles já estão idosos, e aos poucos estamos perdendo emepebistas um a um.

Mas não acredita-se que os ídolos "populares demais" possam contribuir para renovar a MPB, porque há uma diferença entre fazer música e lotar plateias.

Chitãozinho & Xororó e Alexandre Pires agora estão fazendo "tributos à MPB" e o resultado é constrangedor, digno de calouros de reality show.

Não serão eles, que, às custas de covers, sinalizarão o futuro da Música Popular Brasileira, se eles nem sequer representam o presente e o passado emepebistas.

A crise da MPB é tal que perdemos, em duas décadas e meia, três das poucas rádios especializadas em MPB foram extintas: a paulista Musical FM, nos anos 90, a Nova Brasil RJ, nos anos 2000 e, poucos meses atrás, a MPB FM.

Hoje se luta para aumentar o repertório de MPB nas rádios de pop adulto, com resultados medianos.

As rádios tocam duas canções nacionais para cada duas estrangeiras, com exceção da Antena Um, que ainda predomina o repertório gringo.

Era para a Antena Um adotar o esquema de duas nacionais e duas estrangeiras e as demais, muito repetitivas em sucessos estrangeiros, adotar o esquema três nacionais e duas estrangeiras.

Era até para a FM O Dia reduzir gradualmente os sucessos brega-popularescos e substitui-los por MPB.

Ou da Super Rádio Tupi tocar MPB - na íntegra e sem fala do locutor em cima, viu? - nos programas dos comunicadores.

Felizmente, temos até um jingle estruturado como MPB, do café Evolutto (do lema "É tudo de bom"), um dos poucos spots que, nos intervalos das rádios noticiosas, não se perdem em falatório que faz muito comercial se "apagar" entre uma notícia e outra.

Embora muito do que se toca de MPB nestes casos seja antigo, bem ou mal serve de alguma referência para quem pauta seu gosto através do que o rádio toca.

Mesmo assim, falta às FMs fugirem dos mesmos hits e arriscar em canções e artistas menos conhecidos.

Falta muita reoxigenação na MPB e um equilíbrio maior entre seguir a tradição, adotar novidades e a preocupação em causar polêmica.

A MPB até "joga bola", só para responder a um comentário de Hermeto Pascoal.

Ela só precisa sair das embaixadinhas e dos toques e enfrentar e derrotar os brega-popularescos e marcar o gol nos redutos deles.

Chega da MPB perder seus redutos para os bregas. É hora da MPB retomar os terrenos perdidos pela breguice "popular demais" servida pela mídia hegemônica.

Vamos honrar as memórias dos emepebistas, como Luiz Melodia, que morrem sem poder deixar uma herança forte para os mais jovens.

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