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A GRANDE MÍDIA E SUA NOÇÃO DE "DEMOCRACIA"


Numa época confusa como a que vivemos hoje, muita coisa se há de pensar.

Sobretudo diante das relações da mídia com a sociedade e do desgaste de uma linhagem da grande imprensa que durante anos dominava sobre a sociedade.

O canto de cisne da grande imprensa foi a campanha para derrubar Dilma Rousseff e jogar na lata de lixo 54,5 milhões de votos, substituídos por minguados votos do impeachment.

Esses votos foram somente 367 da Câmara dos Deputados e 61 do Senado Federal. Total: 428.

Não foram votos representativos da sociedade, mas de escolhas pessoais de parlamentares salvando seus interesses pessoais e de elites dominantes que representavam: latifundiários, pastores evangélicos, empresários, policiais e militares, entre outros.

E associado a tudo isso está a grande imprensa, que perdeu a identificação com a sociedade.

A Folha de São Paulo, por exemplo.

Ela publicou uma "não-notícia", praticamente uma nota panfletária, além de velha notícia requentada.

Publicou que o presidente Michel Temer suspendeu a publicidade para os blogues de esquerda, que de forma generalizada definem como "petistas" e "de opinião".

São dois equívocos. Aliás, três.

Primeiro, nem todos são blogues, mas portais de informação, como Diário do Centro do Mundo, Jornal GGN, Conversa Afiada, Fórum, Carta Maior e Brasil 247.

Blogues, mesmo, são o Blog do Miro (Altamiro Borges), o Tijolaço (Fernando Brito), a Socialista Morena (Cynara Menezes), O Cafezinho (Miguel do Rosário) e o Escrevinhador (Rodrigo Vianna).

Segundo, nem todos são petistas. O Diário do Centro do Mundo, por exemplo, não é. Mas qualquer consideração que se faça ao esquerdismo e à defesa do governo democrático de Dilma Rousseff (mesmo fazendo críticas a muitas atitudes dela), virou "petista".

Terceiro, nem todos são de opinião, mas de análises aprofundadas dos fatos. Foi através desses espaços da mídia alternativa é que os juristas mais conceituados, os jornalistas mais conhecedores dos fatos e outros especialistas estão analisando sabiamente a dura realidade política que vivemos.

Temos Marilena Chauí, Luís Nassif, Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, Jessé de Souza, Fábio Konder Comparato, trazendo uma verdadeira aula de História para os leitores.

Uma História que dialoga fatos passados e fatos presentes e vai além do aparato das abordagens oficiais e questiona as irregularidades deste repertório ideológico fornecido pela mídia patronal.

Compare eles a neuróticos como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho, Eliane Cantanhede e Merval Pereira, cujas visões reacionárias chegam a causar gargalhadas de tão estúpidas.

Aí voltamos ao dado da "notícia" da Folha, que, além de panfletária, é uma nota fria, gelada de doer os dedos.

Isso porque Temer já havia suspenso a publicidade meses atrás, quando assumiu o poder como interino.

Nenhuma novidade ocorreu em seguida e os blogues e portais de esquerda seguem com financiamentos alternativos, às vezes recorrendo ao crowfunding e ao AdSense do Google.

O Carta Maior está pedindo doações dos leitores.

Enquanto isso, o governo Temer, entre maio e agosto deste ano, que é o período de sua fase interina, despejou uma fortuna enorme para as Organizações Globo.

Não só a ela, mas para o resto da "mídia democrática e independente". Até o Grupo Abril já recolocou sua logomarca a publicações que haviam sido entregues a uma mal-disfarçada subsidiária, a Editora Caras.

A Folha de São Paulo conta com a proteção até do Batalhão de Choque de São Paulo, preocupada com a "violência" dos protestos contra o jornal, um dos responsáveis pela campanha anti-Dilma.

Em reportagem que segue o ponto de vista plutocrático, o Último Segundo, do portal IG, entrevistou o coronel da PM Nivaldo Cesar Restivo, Comandante do Policiamento do Choque do Estado de São Paulo, portanto, a serviço do governador Geraldo Alckmin.

Ele dá os mesmos pontos de vista da plutocracia: ela é que é "imparcial", "democrática" e "com um compromisso com a realidade".

Para ele, Dilma foi expulsa do poder por pessoas "respeitáveis", como os parlamentares "representantes eleitos pelo povo" e os ministros do Supremo Tribunal Federal, as "maiores autoridades judiciais deste país".

Para ele, os protestos contra a Folha de São Paulo são "violentos" e por isso atua para reprimi-los.

Para ele, a Folha é "historicamente comprometida com a democracia".

Assim como ele chega a dizer que os ministros do STF foram nomeados pelo PT, ele diz que a Folha cobriu o crescimento dos novos movimentos de esquerda no país.

E pelo jeito se gaba em ver agora o STF e a Folha se virando contra Dilma.

É essa a polícia que reprime as manifestações anti-Temer em São Paulo.

Acredita que protestar contra os interesses da plutocracia é sempre uma "violência".

Mas protestar contra Dilma fazia até os policiais fazerem selfies com os manifestantes vestidos de camisetas da CBF.

É esse cenário que é visto como "imparcial", "transparente" e "democrático" pela grande mídia patronal.

Que receberá muito mais do governo Temer do que a micharia que antes fazia a mídia de esquerda sobreviver e viabilizar suas atividades.

Essa fortuna toda é capaz até de pagar os danos do desgaste da grande mídia patronal, se caso ela perder público.

As edições de Veja, Época e Isto É encalham e exemplares da semana anterior são vistos na chegada da edição da semana corrente.

Veja chega a acumular, por banca em todo o país, uma média de doze exemplares da edição anterior no dia em que chega a edição corrente.

A juventude já não vê mais Jornal Nacional, embora os midiotas continuem apoiando a Globo em peso, embora finjam, nas redes sociais, que "odeiam a emissora".

A grande mídia, no entanto, pode, com Michel Temer, manter seus impérios intatos.

Podem perder público, mas continuarão se sustentando e alimentando a fortuna dos empresários, as famiglias Marinho, Frias, Mesquita, Civita e quem estiver solidário.

Mas o verdadeiro Brasil ocorre fora desta mídia, que sofre o autismo dos escritórios.

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