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POR QUE SE IGNORA O VÍNCULO DO "FUNK" COM AS ORGANIZAÇÕES GLOBO?


"Rede Globo...Funk!", brincava Renato Aragão, na pele de Didi Mocó, nos Trapalhões, num de seus momentos de metalinguagem ao brincar com os bastidores do programa em suas esquetes.

Pode parecer coincidência, mas a palavra "funk" acabou soando forte na corporação dos Marinho.

A memória curta dos brasileiros, que pega até mesmo as esquerdas de surpresa, escondeu o vínculo que os funqueiros tiveram com a plutocracia.

O "funk carioca" que conhecemos não só surgiu durante o governo de Fernando Collor como teve sua ascensão patrocinada por políticos fluminenses que apoiavam o dito "caçador de marajás".

Ainda se está para investigar as relações entre o "funk" e o deputado Eduardo Cunha, político fluminense em ascensão na época.

Não podemos aceitar de bandeja que a Furacão 2000, no último 17 de abril, tenha protestado gratuitamente contra Eduardo Cunha, naquele estranho "baile funk" em Copacabana.

A Furacão 2000, capaz de eleger ninguém menos que Luciano Huck, amigo de Aécio Neves e João Dória Jr., "embaixador do funk", não iria protestar contra Cunha por ser um simples arqui-inimigo.

A equipe protestou contra Cunha por alguma aversão recente, como se ambos tivessem sido aliados um dia.

Cunha presidiu a TELERJ, antiga empresa de telefonia fluminense, que tinha seus clubes noturnos, chamados Clube da TELERJ.

Ainda há que averiguar isso, o jornalismo investigativo deveria romper com a complacência do "funk", ritmo com evidentes vínculos plutocráticos.

Antes do "funk" ser o prato principal do cardápio do "dirigismo cultural" imposto às esquerdas, por volta de 2005, ele aparecia em tudo quanto era programa ou veículo das Organizações Globo.

Coincidência?

É só pesquisar e ver os programas que eram exibidos na corporação dos Marinho entre 2003 e 2007.

O "funk" era enfiado ali, como um produto num mershandising.

Personagens de novela e humorístico funqueiros eram criados sob encomenda.

Um exemplo é a dupla MC Ferrow & MC Deu Mal, do Casseta & Planeta, a essas alturas na erupção de seus surtos tucanos.

A associação de "funk" com a "cultura das periferias", com todo o verniz "etnográfico" e "socializante", começou nas matérias de primeira página do Segundo Caderno de O Globo, além da Ilustrada da Folha de São Paulo.

Globo Esporte, novelas "globais", Domingão do Faustão, Caldeirão do Huck, Mais Você, tudo quanto era programa da Rede Globo tinha uma inserção no "funk".

E tinha inserções em outros veículos das OG: revista Quem Acontece, portal de celebridades Ego, canais pagos Multishow e Futura, este educativo.

Era tanta presença de "funk" que o telespectador médio pensava que era coincidência.

Não era. O "funk" apresenta as comunidades pobres de maneira espetacularizada.

Mas não temos um Guy Debord para explicar isso, ou até temos, mas a burocracia dos cursos de pós-graduação nas faculdades impediu sua ascensão.

Nossos equivalentes de Guy Debord mal conseguem ter blogues para serem lidos por um punhado de pessoas.

Sem essa presença no círculo fechado da visibilidade plena, não podemos entender a "sociedade do espetáculo" através do filtro tendencioso da grande mídia, sobretudo a Globo.

Esse filtro só define "sociedade do espetáculo" a um inócuo cenário de imprensa de fofocas.

Não imaginamos o quanto o "funk" trabalha as classes populares de uma forma estereotipada e caricata.

E que insere valores retrógrados, sobretudo o machismo, nas classes populares, além de promover a apologia à ignorância e à violência.

O vínculo do "funk" com a Globo, a partir da extinta emissora de rádio 98 FM, é evidente.

E, depois que tucano Luciano Huck, o maior ídolo juvenil da Rede Globo, virou "embaixador do funk", aí é que a relação se intensificou de vez.

O "funk" nunca incomodou os barões da grande mídia.

Daí o grande erro das esquerdas apoiar o "funk" como se as forças progressistas fossem se consolidar "balançando o popozão".

Não dá para entender o apreço das esquerdas ao "funk" ou seu desprezo às provas de que o ritmo têm seu vínculo explícito com a mídia venal.

Vai o "funk" seduzir as esquerdas e, assim que conquistou o apoio delas, as apunhala pelas costas e vai comemorar suas vitórias nos palcos da Rede Globo.

"Rede Globo...Funk!".

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